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Acordei no meio da madrugada, uma porrada de horas depois, com a cabeça doendo pra caralho. Eu e a Nina estávamos jogados no chão da sala. As rajadas de fuzil foi o que me fez levantar. Fui direto no celular e disquei o número do TK. Assim que eu levantei, a mulher do meu lado se mexeu desconfortável e se sentou, olhando ao redor.
— Como que tá ai, TK? Tô ouvindo tiro. — Falei, indo até a janela com cuidado pra ver os traçantes passando por cima da minha casa. Minha cabeça doía um pouco por causa da cachaça, tava meio enjoado também.
— O M7 tá pressionando aqui em cima no final da Dioneia e da Rua 2. — Avisou. — Mas a gente tá resistindo bem. Vamo ficar aqui trocando tiro e segurando posição até eles cansarem.
— Mas tão segurando bem? Tem baixa? — Perguntei, sentando na cama e olhando pra Nina, que passou por mim com uma careta e se fechou no banheiro.
— Teve um irmãozinho nosso que tomou um tiro na perna de bobeira lá quase na mata, mas tá vivo e bem já.
— Tranquilo. Vou tomar um banho, botar uma roupa decente e vou subir pra ajudar a segurar ai. — Disse, descendo pra procurar pelas minhas armas.
— Tua ajuda vai ser bem vinda, irmão, mas se tu precisar de mais um tempo, pra nós tranquilo. — Falou. — Pode ser só impressão minha, mas eu tô achando que eles tão se segurando, tá ligado? Se eles viessem com a porra toda pra cima da gente, certeza que todo mundo ia sentir a pressão. Tá só... tranquilo. Eu não tava esperando por isso.
Peguei um cigarro na parte de dentro do bar e acendi ali dentro de casa mesmo. Sabia que não ia ficar ali por muito mais tempo mesmo... Não, o Misael não era pra estar tranquilo por perder o controle de quase metade da favela dele. Se ele tava se segurando, se pá só evitando de perder mais território e não querendo reconquistar o que foi tomado dele, algum caroço tinha nesse angu. E eu já desconfiava bem do que era...
— Eles só tão marcando posição? — Perguntei, dando uma tragada longa.
— Parece que é. Isso é esquisito, achei que ele fosse vir puto pra cima da gente. Já tava preparado. — Disse. — O Parma tá meio desconfiado também, acha que ele tá tramando alguma coisa.
— Ele tá e eu já até adivinho o que é. Misael é previsível pra caralho. — Falei, passando pelo espelho estilhaçado. — Ele vai ficar na dele esperando o aliadinho dele mandar gente pra invadir a Rocinha. Ai sim ele vai vir pra cima da gente... Ele quer encurralar a gente no meio do povo do alto e dos alemão que ele quer trazer pra cá.
— Porra. — TK falou, claramente preocupado. — E ai, Barbás? A gente vai esperar ele vim e comer nosso cu com os filhos da puta do PPG? Nós não ganha se tomar tiro dos dois lados não. Tu fala essas coisas muito calmo.
— E eu tô calmo sobre essa meta ai. Eu pensei pra caralho sobre isso já. — Disse. — Eu tenho uma carta na manga que ele não tem. — Falei, olhando pro alto da escada.
— Que arma, irmão? Os outros tão sabendo disso?
— Relaxa e deixa isso baixo. É problema meu e eu vou resolver esse lance pra gente. Misael vai cair de um jeito ou de outro. — Disse, estalando os dedos das mãos. — O que ele fez com meu filho não vai ficar barato não, nem o que ele fez com a gente esses meses todos ai.
— Tranquilo, depois a gente bate um lero melhor sobre isso ai. — E desligou. Eu joguei o celular no sofá cheio de cacos de vidro e puxei mais um cigarro.
Porra, eu ainda tava dormente pela raiva. Ficar puto e perder a linha só ia terminar comigo morto sem ter cumprido a jura que eu fiz pro Misael. Eu não ia morrer até matar ele primeiro. Quando ele partiu pra cima do meu filho, ele me quebrou. Caralho, ele arregaçou todos os bons sentimentos e os limites pessoais que eu tinha dentro de mim, agora eu não ia parar até fazer ele pagar. Se ele não teve honra comigo, era bom que ele não esperasse o mesmo de mim.
— É de mim que você tava falando? Eu sou a carta na sua manga? — Perguntou a Nina, descendo pelas escadas e me encarando muito seriamente. Eu sustentei o olhar dela.
— Tava escutando minha conversa? — Rebati, semicerrando os olhos pra ela.
— Ouvi por acidente. — Respondeu, parando na minha frente. — Me responde.
— É, é de você que eu tava falando. Sua ligação com o corno do lado de lá é o nosso melhor plano. Ele deve se importar contigo pelo menos um pouco, vai ter um jeito da gente explorar essa porra. — Disse com sinceridade.
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Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
