— Então... ele só me ajudava por interesse? Interesse em que? — Perguntei, sentindo minha cabeça latejar.
— Interesse no teu pai.O Caburé te tinha nas mãos. Ele podia mandar você pra uma porrada de coisa perigosa, ele podia te matar em uma semana se ele quisesse. Podia acabar com você com uma só ordem. Você sabe disso... — Ela apertou a minha mão. — Ele conseguiu te mandar presa uma vez e a dívida dos teu advogados ele mandou pro PPG pagar. Óbvio que ele não podia te contar isso, então, ele quis te extorquir também e pagar de bom moço. Ele te aceitou no tráfico quando você voltou e ai você perdeu de vez a proteção que tinha. Bandido não aceita covardia, ele não podia bater na porta na nossa casa e a ameaçar a gente, machucar a gente. Quando você foi até ele, você se colocou a disposição dele. Você se deu ao lobo, Nina! — Ela brigou, esfregando os olhos com força. — Quando eu fiquei sabendo disso, eu quis te esganar com toda a força que eu tinha. Eu quis te bater até você virar merda por ser tão inocente.
— Você me abandonou... E me separou dos meus irmãos. — Choraminguei, sentindo as lágrimas descerem em cascata agora. Que inferno!
— É claro, porra. O que eu devia fazer? Passar a mão na sua cabeça? Eu não consegui falar com você na primeira vez, porque só fiquei sabendo quando você já tava na cadeia, mas na segunda... Eu queria que você caísse na real, eu tirei de você a única coisa que você tinha, que era a sua família. Eu queria que você desistisse dessa porra dessa ideia estúpida e voltasse pra casa, fosse trabalhar que nem gente.
— Você me abandonou. — Insisti, com raiva. — Quando você me abandonou, eu não tinha mais nada o que perder. Se a sua ideia fosse me fazer voltar, o que tu fez teve o efeito contrário.
— Eu devia saber que você é igualzinha ao seu pai. Se eu tivesse parado pra pensar além da minha raiva de você naquela época, eu saberia disso. Saberia que eu só tava te jogando no buraco, mas eu não pensei. Eu não quis cometer o mesmo erro que cometi com o seu pai, sendo compassiva e perdendo ele pro tráfico. Então, eu não fui compassiva e virei as costas pra você... E isso só atiçou a tua determinação. — Falou, desistindo de lutar contra as lágrimas. — E você foi.
— Você devia ter me contado. — Sussurrei.
— Pra que? Pra tu correr atrás dele? Depois que tu entrou pra porra dos negócios do Caburé, eu simplesmente não podia mais. Se você saisse da Rocinha e alguém te visse entrando no PPG, iam queimar você em pneu até virar cinzas. Eu te conheço, garota, você é impulsiva. Você ia atrás do seu pai e ia se matar no processo. A vida não é simples, Nina. Ser pobre é uma merda, eu sei, mas ser honesto tem as suas vantagens. Paz é a principal delas.
Eu soluçei, me enrolando em posição fetal. As pessoas começavam a olhar pra gente e eu não tava nem me importando. Minha mão passou a mão nas minhas costas e aquele carinho me fez chorar mais ainda. Meu Deus do céu... Senhor da Glória. Que redemoinho doido era aquele que tinha virado a minha vida?
— São favelas rivais. O PPG e a Rocinha. O Caburé e o meu pai eram rivais, porque o Salvador simplesmente não matou a gente, então? — Quis saber. — Por que me ajudar?
— Ele não ia ganhar nada com isso além de um inimigo poderoso, que é o seu pai. Salvador era um homem de negócios, ele ia onde podia tirar vantagem, teu pai treinou ele assim. — Ela virou de frente pra mim também. — Eles são de favelas historicamente rivais sim, mas tinham uma parceria por causa da relação que eles tiveram. Seu pai não mexeria com a Rocinha e nem com o Vidigal, que eram dele, e em consideração, ele não mexeria com a gente. É simples. Ele ia poder manter as duas favelas mais lucrativas da Zona Sul só pra ele, sem guerra, sem problema. Ele só precisava manter o poder dele e pronto.
— E o que deu errado? — Perguntei, limpando os olhos molhados.
— Salvador é bicho ambicioso. Quando tu entrou pro tráfico de vez, ele viu a oportunidade de ganhar mais com isso. Além da conta dos advogados, ele mandou também uma foto tua na boca de fumo. Seu pai me ligou e contou. — Deu de ombros. — Ele ameaçou deixar você exposta à acidentes, se é que você me entende. Pra te proteger, agora ele queria o Cabritos e o Dona Marta, que é do teu pai.
— E ele aceitou? — Tremi só de pensar na possibilidade. Ele devia me odiar agora...
— É claro que não, porra. Tu já parou pra pensar, que se ele dá essas duas favelas pro Caburé, ele ia ficar cercado na Zona Sul? Não ia demorar pra ele perder todas as outras e de quebra ser morto. Ele ia ficar na mão no Salvador. Foi ai que seu pai começou a maquinar com os aliados do CR pra derrubar ele. Primeiro o fornecedor...
— O Siqueira. — As coisas começavam a fazer sentido na minha cabeça. Por isso ele tinha me mandado pra matar o homem... por isso eu... Era a minha prova de fogo, mas era jogo também.
— O Siqueira. Por isso ele te mandou pessoalmente pra matar ele. — Ela falou e eu fiquei surpresa. Então ela tava muito por dentro do que tava rolando mesmo...
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Amor na Guerra
Romansㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
