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Eu olhei pra aquela cena horrorizada. Mano? Levei uma mão a boca, apertando o braço do Russo com força. Ele se colocou na minha frente muito discretamente, querendo me proteger. Nada, porém, tinha me preparado pro que veio em seguida. A impressão que o Caburé teve com a pessoa do carro, eu tive também. Tive a impressão de ver uma pessoa que eu conhecia muito bem, mas eu simplesmente não podia acreditar que era ela. Não... não tinha como, eu devia estar ficando louca.

No instante que o Caburé tomou o tiro, os seguranças dele apontaram a arma pro pessoal do carro, o que incluia o M7. A pequena tropa que o Misael tinha trago com si, apontaram as suas armas para os seguranças do dono do morro. No segundo seguinte, todos nós estávamos apontando as armas uns contra os outros. Aquilo não ia terminar bem.

— Quem é que tá ai dentro, porra? — O Suda perguntou, desviando a mira da sua pistola do carro para o M7. — Tu trouxe alemão aqui pra dentro, rapaz?

— Ele quem procurou por essa porra, parceiro. — Misael falou, se escorando no carro. Se ele se mexesse um centímetro a mais, eu tinha certeza que a merda ia estar feita ali. Todo mundo apontando a arma um pra cara do outro. Em quem a gente ia confiar? O CR continuava curvado sobre os joelhos e a mão em cima da barriga, tentando controlar o sangramento. Ele não tava morto, ainda não, mas já tava começando a perder a consciência. Ele precisava de um hospital.

— Tá maluco? Tu é o rato que traiu a gente, Misael? Porra. — Nessa hora ficou muito claro pra todo mundo. — E a Larica?

Ele não respondeu, mas deu um sorrisinho e olhou na nossa direção.

— O Caburé vai se aposentar, querendo tu ou não. Agora, a gente pode fazer isso numa boa e todo mundo vai sair daqui vivo hoje. — O filho da puta falou, olhando para todos nós. — Ou a gente pode se matar aqui e foda-se, a troco de porra nenhuma, porque o Salvador já tá decretado. — Ele anunciou, cruzando os braços. — Vocês tem duas opções, parceiros. Ficar da porra do meu lado e tudo continuar na mesma, ou nós vai se matar aqui e amanhã vai chegar uma nova tropa pra tomar a favela. Das duas formas, o Caburé já perdeu.

Os caras ficaram hesitantes. Salvador caiu no chão, o sangramento perdendo o controle. Não valia a pena morrer aquela noite, essa era a questão, mano. Mesmo se a gente resistisse e enfiasse uma bala na cabeça do M7, eles iam voltar amanhã e a gente não ia ter um cabeça, nem gente, nem material pra segurar o controle da favela com nós. Ai... ai ia ser bem pior, porque a hora de trocar de lado era agora. Quem quisesse ficar, ia ficar pra trocar tiro e morrer. O Caburé já tinha caído, não tinha mais nada o que fazer. Na nossa frente, ele tava sangrando até a morte. Ele já tinha perdido, era verdade.

Nos segundos que se passaram, essa noção pareceu chegar pra todo mundo que estava ali e pouco a pouco, foram abaixando suas armas em uma silenciosa rendição. William foi o último a abaixar, ele parecia estar lutando pelo seu auto controle. Eu estava muito incomodada com o fato de o Salvador estava ali, só jogado nos pés daqueles que tinham sido os seus antigos aliados e agora estava abandonado pra morrer sozinho. Uma tristeza bizarra embrulhou me estômago de novo. É, ele era um filho da puta... mas era o cara que tinha me ajudado muito nessa vida. Eu tinha que ser grata à ele.

Devagar, eu passei pro trás do meu irmão, do TK e do William e caminhei por fora até perto do carro. Eles só me notaram quando eu já tinha entrado no meio da coisa toda e me abaixado perto do Salvador. Eu ignorei todos os outros que tavam ali, eu não ligava, irmão. Eu só queria oferecer um mínimo de conforto do Salvador antes dele ir. Ninguém ia esculachar ele na minha frente e foda-se.

Fiquei de joelhos de frente pra ele e pressionei o buraco de bala no abdômen dele. No segundo seguinte, eu ouvi o click de uma arma meu pescoço e paralisei. No primeiro segundo, que achei que fosse a porra do M7 tentando me matar, mas ai eu virei o meu rosto alguns centímetros pro lado e vi... O próprio Salvador tava com a pistola pressionada contra mim.

— Mano, o que tu tá fazendo? — Sussurrei pra ele, não entendo porque ele tinha se voltado contra mim assim. Olhando pra frente, eu vi o Misael recuar, todo mundo deu uma recuada.

— Não... mexe. — Falou, com a voz falhando, em meio a um soluço. — Abre a porta. Do carro. — Ele disse meio pausadamente. — Tu vai... me tirar... daqui. Ou esses filhos da puta... vão chorar... por você.

— Tá. — Sussurrei pra ele. — Fica calmo ai, eu vou te levar pro hospital. — Garanti, abrindo a porta do carro preto. Se eu tivesse tempo e cabeça pra pensar em alguma coisa naquela hora, eu teria ficado encucada com o fato de absolutamente ninguém ter se aproximado e interrompido que eu colocasse o Caburé no automóvel. Mano, o M7 não se importava comigo, ele me odiava pra caralho, se eu morresse, não ia fazer diferença nenhuma. Então porque ele não tinha se metido e matado o rival dele no foda-se?

Eu não sabia e nem conseguia pensar nisso, o medo vinha em ondas cada vez mais fortes e eu tinha medo de ser paralisada por ele. De morena, eu devia estar branca. Me levantei e peguei o Caburé pelos ombros e ele soltou um esgar de dor. Salvador tava fraco, porque porras ele tava pensando que ia sair dali vivo ainda? Olhei de longe para o William e o vi se movendo por trás de todo mundo, na surdina.

Se o CR ainda tivesse alguma mobilidade, talvez ele tivesse se saído bem no que planejava, mas até pra ele se sentar foi uma luta. Eu não reparei, mas eu tive certeza que ele tinha se distraído e me tirado da mira por um segundo quando eu ouvi o som de um tiro e não apaguei. Fechei o olho com o susto e quando o abri, eu vi o Barbás com a pistola ainda apontada pro Salvador. Ele deu um tiro na cabeça do agora morto dono do morro, e o corpo caiu pesado nos meus braços de novo. Eu soltei ele rápido e me afastei, tentando fugir da poça colossal de sangue que começou a se formar embaixo do corpo.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora