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Aquela era a história dela, eu sabia. Ela tinha me contado por alto, ocultando os detalhes, como a vida dela tinha sido uma merda na infância. Ter uma família disfuncional era uma merda mesmo.

— As armas que vocês gostam de exibir por ai, andar pra cima e pra baixo mostrando aquela coisa pros outros, ajudaram a acabar com a família daquela menina. — Passou um sermão, olhando diretamente nos meus olhos. — Bom, depois disso, ficaram só ela e o irmão, que ia trabalhar de vapor pra sustentar ele e a caçula. Ele tinha um amigo bandido também, que era da mesma boca que ele, e era muito bonito. A menina acabou se apaixonando por ele e ele... ele gostou dela também. — Explicou e eu vi pra onde aquela história estava indo. Um calafrio balançou meu corpo e eu disfarcei esfregando os braços, fingindo ser por causa do vento frio do mar. — Esse menino ele era foda. Se ele não tivesse nascido pobre e virado bandido cedo, ele podia ser qualquer coisa, ele era muito inteligente. Fazia todas as contas da boca dele, não demorou pra ele virar gerente, com 21 anos. Era novinho, mas tinha potencial pra caramba. Todo mundo gostava dele na favela. Era bonito, gente boa, um cara bacana... não tinha nada nele pra não se gostar.

Era um devaneio dela. O olhar dela mudava de acordo com as coisas que ela falava e eu sabia que ela estava sentindo cada uma daquelas coisas de novo.

— Ele gostou da menina. Na época ela tava acabando a escola e ele ia buscar ela na saída do colégio, levava pra passear de moto e tomar sorvete. Ele era perfeito, um cavaleiro de verdade. Nem parecia bandido, e mesmo quando parecia, naquela época a menina não se importava se ele andava armado ou vendia droga por ai. Ela amava ele, a vida errada não era problema nenhum. Eles dois... a menina e o menino traficante se amaram muito. Eles dois namoraram por vários anos. Eles resolveram casar quando ele virou gerente da boca dele, essa menina engravidou um tempo depois deles irem morar juntos.

— É meu pai? — Interrompi ela pra perguntar. Eu lembrava muito pouco do meu pai, a última vez que eu tinha visto ela, eu não devia ter mais que 5 anos. Era uma memória muito vaga. Depois, ele tinha sumido e minha mãe se recusava a falar sobre ele de novo. Dizia pra mim que ele tinha morrido e que não era mais pra eu perguntar sobre ele. Eu não sabia quem era ele, não lembrava nem do rosto dele, só sabia que ele não era o pai dos meus irmãos. Depois dele, minha mãe teve alguns namorados, mas não parou com mais nenhum. Ela estava sempre trocando de homem e engravidando de alguns deles. Cláudia era uma mulher que tinha perdido o controle da sua vida amorosa e do próprio coração.

— Não interrompe a história, Nina. — Brigou, pigarreando antes de voltar ao conto. — A vida que o menino, que agora era um homem, levava era muito difícil. Não na questão financeira, mas no dia-a-dia. A Rocinha era muito instável naquela época, era bem o início da associação dos moradores e nem sempre as bocas de fumo que iam aparecendo lá era unidas. Era comum as bocas entrarem em guerra entre si e a bala comia. Por causa disso, a menina, que tinha virado uma mulher, perdeu vários bebês. Ela engravidava e não conseguia segurar a criança por causa do estresse que passava com o homem dela.

— Mas ela conseguiu ter um bebê... — Presumi. Se eu tava aqui, era claro que ela tinha conseguido.

— Conseguiu um tempo depois. Ela já estava ficando cansada de se preocupar se o homem dela continuaria vivo, se ele tava bem, se tava baleado ou morto... Um dia, o irmão dela morreu na mão da polícia enquanto traficava e ai ela botou o marido contra a parede. Falou que se não largasse daquela vida, ela ai largar ele e ir viver com outro. Ela não ia aguentar perder ele pra um policial qualquer, pra um traficante inimigo... não ia aguentar perder outro bebê também. O menino, como amava ela também, concordou em sair. Ai ele arranjou emprego como endoleiro e ela começou a trabalhar de vendedora pra que conseguissem manter a casa.

— Você tem uma queda por endoleiros? — Perguntei, lembrando do último namorado dela. Cláudia riu e sorriu pra mim. Eu quase senti vontade de chorar de ver a minha mãe olhar com tanta simpatia pra mim de novo.

— Endoleiro não era bem uma profissão formal, ainda era relacionado com o tráfico, mas pelo menos não era traficante, nem corria risco. A gravidez seguinte a menina conseguiu levar até o fim e eles tiveram a sua primeira filha. A única garota que a mulher teria nessa vida. Eles deram o nome dela de Marina. Ah... E ela era linda. Muita linda. O pai era completamente apaixonado por ela, você tinha que ver... Era um xodó só. Ele queria um menino, mas a garotinha que veio amoleceu completamente o coração dele. Eles três eram uma família feliz. A mãe teve que largar o emprego como vendedora pra cuidar da princesinha deles e, nos anos seguintes, por causa da guerra na favela, a venda de droga tava fraca. O pai tinha pouco trabalho como endoleiro. Ai eles começaram a passar dificuldade... e o marido voltou pro tráfico sem a menina saber.

— Eu vejo o futuro repetir o passado... — Murmurei Cazuza, sentindo os meus olhos começarem a se encher de lágrimas. Eu quis fazer uma gracinha, mas a verdade é que ouvir aquelas coisas estava quebrando o meu coração. — Eu e o marido da menina somos parecidos mesmo.

— Eles tinham que alimentar a menina deles, por isso, quando a menina descobriu, um tempo mais tarde, que o marido tinha voltado pro tráfico, ela entendeu. Esse foi o erro dela... — Falou com pesar, passando a mão na bochecha pra impedir uma lágrima de continuar escorrendo. Eu fiz o mesmo, sem me dar conta de que eu também estava começando a chorar. — Quando ele permitiu que ele ficasse um tempo no tráfico, ela perdeu ele pra aquela vida. O dinheiro, o poder, o prestígio... essas coisas mudam um homem. Essas coisas viciam e sugam a alma da pessoa, é um caminho sem volta. Ele nunca mais quis sair. Virou gerente de novo por consideração do dono, que era amigo dele. Ele ajudou a unificar a Rocinha, juntando todas as bocas na mão de um só chefe, nas mãos do dono do morro. Ficou importante, considerado. Ai ele traiu a menina e ela não conseguiu suportar mais. Eles brigaram e ele saiu de casa, no dia seguinte, foi pego pela polícia. Passou 6 anos preso.

— Foi por isso que eu nunca mais vi meu pai? — Quis saber. — Por isso que ele sumiu quando eu era novinha?

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora