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Assim que eu cheguei lá, eu já bati o olho num cara com as mãos e as pernas amarradas e amordaçado num canto, ele já tava machucado pra caralho... Os caras não faziam a menor ideia do que tavam fazendo mesmo, na boa. Só tinha nego do dedo nervoso nessa favela, desse jeito eles iam matar o cara antes dele dizer um 'a'. E stalei os dedos da mão e fui na direção dele sozinho. Abaixando na frente dele, eu tirei o pano da boca dele e ouvi um soluço de dor.

— Bom dia, irmão. — Falei com a voz calma. — É o seguinte, é Domingo e tu deve ter uma família te esperando em casa, né não? Então vamo resolver isso da melhor forma, certo?

Ele não falou nada, só cuspiu sangue na chão.

— Eu não vou te bater, irmão. A gente vai fazer uma troca aqui, tu vai me dizer o que eu quero saber e eu vou garantir que ninguém mais bote a mão na tua família. — Disse de uma vez só, conseguindo a atenção dele. — E o teu sofrimento acaba. É simples.

— Eu já falei que não sei de nada. — Choramingou e eu neguei com a cabeça.

— Tu não taria aqui se tu não soubesse. Colabora, é melhor pra tu. — Falei, chamando o TK, que tinha acabado de chegar com a mão. — Tu só precisa me dizer o porquê de tu estar aqui agora, irmão.

— Tô aqui porque vocês são uns marginais. — Ele gritou, cuspindo em mim. Limpei o sangue da minha bochecha na maior paz. Eu não ia perder a linha com um cara daqueles... O que os outros não sabiam é que numa situação daquelas, ganha quem tiver a maior paciência. É tipo pescar, tem que cansar o peixe, antes de tirar ele da água.

— Pensa no que eu te falei. — Levantei, indo pro outro lado da sala, procurando por um prego. Terminei achando um martelo também, já que ali parecia uma obra abandonada. Tava enferrujado pra caralho, mas ele não ia sobreviver tempo o suficiente pra pegar tétano. Dei os dois na mão no TK. — Vai lá, faz uma manicure nele. 2 tá bom, só pra ele ir se acostumando. — Mandei, dando pegando uma cadeira e sentando, pra observar como as coisas tavam evoluindo.

Aquilo era o básico do básico. O Tulio enfiava o prego embaixo na unha do pé dele e dava uma marteladinha simples. A unha saia, ele sentia uma dor desgraçada, mas não chegava nem perto de matar. Óbvio que o cara começou a se debater e os seguranças do CR tiveram que ir lá segurar ele. Siqueira gritava pra cacete e coloquei um fone de ouvido pra não precisar ficar ouvindo aquilo. Na frente dele, eu mexia tranquilamente no celular, como se nada tivesse acontecendo. Não que eu tivesse com vontade de fazer qualquer coisa no aparelho, mas era tudo parte de um jogo psicológico. Ele tinha que entender que ele precisava de mim e não o contrário.

Depois das duas primeiras unhas, eu voltei na direção dele. Parando há alguns metros dele.

— E ai, irmão? Por que tu tá aqui? O que tu tava planejando? — Perguntei e ele só gritou uma porrada de coisas que eu nem me dei ao trabalho de ouvir. Não era nada que me interessava. — Irmão, eu tenho o dia todo. Tu vai ficar nessa o dia todo e eu não vou te deixar morrer, tu tá entendendo? — Falei com seriedade, voltando a sentar na minha cadeira. — Quando tu cansar, me chama. — Botei os fones e voltei pro celular, dando a ordem pro TK terminar de arrancar todas as unhas que ele tinha.

E demorou, irmão. Fiquei a manhã toda naquela porra. A gente já tava indo pra quebrar os dedos do pé dele, quando eu tive uma ideia do caralho. A Nina tinha me dito que ela tinha matado o filho dele e eu lembrei que tava jogando com a família do velho. O lance de blefar era o cara não saber que era mentira o que eu estaria dizendo. Eu já tava começando a ficar de saco cheio com aquela porra indo tarde a dentro logo no meu dia de descanso.

— Segura ai, TK. — Mandei e ele parou de forçar o dedo do cara. Eu joguei um copo de água na cara dele. — Acorda ai, irmão. É o seguinte, tu tem um filho, né?! Tem uma pessoa que sabe bem onde encontrar ele e se tu não me falar nessa porra o que eu quero saber, eu mesmo vou atrás da tua cria. Vou botar ele ai do teu ladinho pra te dar uma inspirada pra falar o que tu saber. É isso o que tu quer? — Perguntei de cara fechada.

Ele negou com a cabeça.

— Então fala.

— Eu não sei. Eu não... — Ele tossiu e eu levantei, puto e frustrado. Ele tava quase lá, dava pra ver na cara do pau no cu que ele tava cansada, não tava mais sustentando aquela porra, mas não rendia nada pra mim. Parceiro, ele só tava precisando de um empurrão pra abrir a boca pra mim... e eu sabia onde achar a moeda que ai fazer ele contar.

Nina.

A Nina quem tinha ido buscar ele, ela era a peça que ia fazer ele acreditar que eu tava falando a verdade. Eu só não queria botar a mina tão cedo nessa situação de novo. Eu fiquei com o pé atrás... Ela tinha ficado na merda ontem, ia ser foda pra ela. Peguei o celular e fui pra fora do galpão, ligando pro celular dela.

— Nina, tu já tá namoral com o que rolou ontem?

— Sei lá. Se eu não tiver, eu vou ter que ficar, né?! Por quê?

— Tava precisando de tu aqui, quero que o Siqueira te veja só isso. Tem como? — Perguntei de uma vez. Se ela falasse que não ia conseguir, eu não ia insistir.

— O que tu tá fazendo com o cara ai, mano? — A Nina parecia criança às vezes. Eu revirei os olhos e não falei nada. Ela tinha que aprender a ler na porra das entrelinhas. — Tá, eu vou. Onde tu tá?

— Final da Laborieux. Pega um moto-táxi e manda botar na conta da Barcelos lá, eu pago pra tu.

— Valeu. — E desligou.

Porra, aquela mina era muito forte e eu conseguia admirar isso em alguém. Eu gostava de gente que não chorava pelo leite derramado e ficava com a cabeça em pé independente da merda que passasse. Devia ser por isso que eu me amarrava tanto nela.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora