O QUE SEPARA OS HOMENS DOS MENINOS
"Não sou o próximo a jogar minha sorte pro destino,
Isso é exatamente o que separa os homens dos meninos." SANT
É foda. O mundo gira muito rápido, é uma roda gigante. Uma hora você sobe, na outra você desce... e depois sobe de novo. O futuro ninguém sabe, o final do nosso caminho muito menos. Por isso, a gente só segue e vê no que dá. Enquanto isso, a vida vai te ensinando a sobreviver entre os tantos tombos.
E de tanto cair, se aprende a levantar mais forte. Sempre assim a vida da gente...
Eu cai. Feio. Quando eu botei meu pé pra fora da cadeia logo no primeiro dia, eu fiquei perdido. Nem sabia mais onde eu tava ou como tava o mundo que eu vivia antes de ter ido parar num presídio numa área rural de Bangu. Ao redor, tinha muito mais mato e plantação do qualquer outra coisa, juro que fiquei uns 30 minutos olhando ao redor e pensando o que eu ia fazer dali pra frente. Principalmente, porque eu tinha uma escolha pica pra fazer, foi ali onde eu decidi sobre o meu futuro. Eu passei pro semiaberto depois de 3 anos e pouco no fechado. Eu podia sair da cadeia durante o dia pra trabalhar ou fazer um curso profissionalizante, tendo que voltar a noite e dormir na cela. Fui alocado pra uma indústria de borracharia do lado de fora do complexo prisional, a qual a segurança era uma merda.
Eu podia seguir namoral e cumprir minha pena, sair dali livre e tentar ser alguém fora da realidade de merda que eu já conhecia. Podia... E eu até tentei. Nos primeiros dias, eu fui de boa, aprendi uma função de prensa lá, era tranquilo até. A real é que eu não odiava o trabalho formal, mas tinha alguma coisa em mim que não me deixava ficar conformado com aquela situação. Eu sabia bem o que era: eu tinha negócios inacabados do lado de fora. Porra, eu não ia sossegar enquanto não desse cabo de tudo o que eu precisava botar no lugar. Pra falar a verdade, eu, William, nunca tinha sido o tipo de pessoa que esquecia e perdoava fácil, mas agora parecia que o rancor que tinha guardado no coração tava 10 mil vezes pior. 3 anos é muito tempo pra ficar remoendo uma traição... Dá muito tempo pra decepção virar raiva, virar ódio, depois virar rancor e desejo de revanche.
Se não existia justiça no mundo, eu tinha que ir atrás dela pelas minhas próprias mãos. Eu sabia que ninguém ia me levantar, era eu que tinha que me colocar de pé e correr atrás do meu prejuízo. Por isso, quando o advogado foi avisar pros amigo que eu tinha passado pro semi e depois veio falando comigo em código, eu já saquei o que ele tava botando na mesa. Fugir ou ficar. Eu tinha que escolher: tentar ser alguém diferente ou voltar pro inferno de onde eu tinha saído?
Porra, eu podia ter ido pelo certo, pela lei. Podia... Mas quem tá o inferno, tem que abraçar o capeta. Eu já tinha abraçado tanto, que tinha absorvido alguma coisa pra dentro de mim. Agora eu me sentia parte daquele lugar de danação. O tráfico, a guerra, o conflito e a morte faziam parte de quem eu era, não tinha como mudar. Era lá a minha vida e o meu destino, era lá onde eu pertencia, entre os meus...
Eu aceitei.
Na semana seguinte, no meu horário de saída, antes do ônibus que vinha buscar a gente, o advogado molhou a mão de um dos poucos agentes penitenciários daqui e eu dei um perdido nele. Entrei pra dentro do carro e Brasil. Foragido de novo, de volta pra estaca zero.
— Tamo indo pra onde, irmão? — Perguntei assim que ele deu uma distância do fábrica.
— Babilônia. — Respondeu e eu achei esquisito. Larissa não tinha dito nada sobre a movimentação dos irmão, até porque todas as nossas conversas eram monitoradas, mas um sinal ela podia ter me dado sobre essa porra. Falei nada, mas fiquei na atividade ali no banco de trás.
Quando eu cheguei lá na favela que ficava ali na ponta do Leme, eu entendi o quanto o mundo tinha mudado enquanto eu tava fora dele. Eu nunca tinha estado no Morro da Babilônia, nem no do lado, o Chapéu Mangueira, mesmo assim, eles eram o lugar que mais se parecia com uma casa pra mim. Quando eu desci do carro, eu vi os caras que eu me lembrava sempre. Túlio, Larissa e o Wallace. TK, Larica e Russo. Se pá, eles foram as pessoas que eu tinha de mais próximas antes, saber que eles tavam ali, esquentando minhas costas todo esse tempo suavizou a minha percepção sobre umas coisas ou outras.
Mesmo assim, algumas coisas não nunca ia conseguir mudar, mesmo que eu quisesse que fossem diferentes em mim. Em algum momento do meu tempo de cadeia, eu me entendi como um homem sozinho, por isso, eu nunca fui capaz de dar a eles toda a confiança que eles tinham em mim, mesmo sendo os único pelos quais eu talvez colocasse minha mão no fogo. Por isso, assim que eu consegui chegar onde eu queria junto com eles, eu fiz questão de devolver pra eles todo o apoio que eles me deram no início com dinheiro e prestígio. Mesmo assim, às vezes simplesmente bens materiais não eram o suficiente. Foi a primeira vez que eu me notei como um homem que desconfiava até de si mesmo.
Quando eu finalmente consegui voltar pro lugar de onde eu nunca devia ter saído, eu fiquei sabendo que o TK tinha colocado em prática um plano que eu tinha traçado há muito tempo atrás pro Caburé pra tempos de crise. Apesar de ter um rendimento bem mediano, a Babilônia e o Chapéu, que foram as favelas onde os irmão conseguiram montar uma base sólida, davam uma nota maneira no final do mês. Por ser na Zona Sul e pacífica em relação às outras, dava pra explorar bem a venda de droga nas redondezas. Era um dinheiro decente. Túlio tirava o que precisava pra pagar todo mundo e manter tudo funcionando no mínimo, todo o resto ele usava pra comprar bico. Só isso. Em 3 anos e 2 meses seguindo essa linha, ele já tinha juntado pra mais de 200 fuzil. Quando eu fui ver o arsenal, eu fiquei de cara pra caralho.
Com isso, a gente já tinha uma base boa pra caralho pra partir. Ali era o ponto onde eu entrava, eles precisavam da minha mente e dos contatos que eu tinha feito na cadeia. Eu era a peça que faltava. Dali, eu comecei a sondar com os amigos que eu tinha feito e a traçar estratégias pra expandir nossas fronteiras. Eu odeio usar a palavra "fácil", até porque quem menospreza o adversário costuma se foder, mas a verdade é essa... foi fácil. A gente tinha a faca e o queijo na mão, tinha homem, tinha fuzil, tinha disposição e tinha estratégia. Naquela época eu tava focado, com os olhos no prêmio, cortei todos os prazer que pudessem me distrair do meu objetivo. Eu queria os morros da Zona Sul e falei que não ia parar até conseguir eles. Porra, era mais que isso. Eu queria a minha casa de volta, eu queria a Rocinha.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
