ㅤㅤ ㅤ [NINA]
Acordei puta dolorida naquela manhã. Mano, eu tinha dormido muito mal a noite toda, eu só tinha pesadelo atrás de pesadelo e a minha mente não parava de me martirizar pelo que tinha acontecido na noite passada. Era real que eu tinha quase me fodido muito. Passei a mão pelo tornozelo meio roxo, isso porque eu só tinha tomado um só e era pra eu ter tomado 10. Foda... Mas de boa, eu tava errada mesmo. Vou fazer o quê? Eu já tinha começado com o pé esquerdo, deixando um cara considerado puto comigo. E não puto numa boa, ele tinha dito pro Wallace que não era nem pra eu cruzar com ele. Normal, eu tinha imaginado o que o Russo tinha feito pra conseguir que ele não me desse a surra que prometeu.
Bom, mas hoje era outro dia, não é? E eu não podia ficar na chama chorando minhas pitangas, até porque 8h eu tinha que estar me apresentando na boca que o Caburé tinha me colocado. Não dava pra vacilar de novo. Levantei de uma vez e fui tomar um banho, escovar os meus dentes e descer pra comer. Aproveitei e já me vesti de uma vez. Botei calça, tênis e uma blusinha, tava bem arrumadinha pra ocasião até. Na minha cabeça, talvez eu realmente tivesse indo fazer a contabilidade de uma empresa qualquer. Na mesa, a Lila já me esperava com uns mistos prontos.
— Vou comer rapidinho que eu tenho que sair, Lila. — Falei, já pegando um pão e levando à boca.
— O que tu inventou dessa vez, mulher? — Perguntou já desconfiada. Quando eu cheguei ontem e contei pra ela tudo o que tinha acontecido, sua primeira reação foi rir e depois chorar junto comigo. Ai ela pegou uma compressa de gelo e botou no meu pé, passando um sermão daqueles. Nós sempre tinhamos sido assim, sabe? Eu sempre meio inconsequente, ela toda demagoga (só demagoga mesmo, porque o fogo no rabo era igualzinho ao meu), o Wallace que chegava pra coroar e colocar todo mundo na linha. Eles realmente foram os irmãos que a vida me deu.
— Escuta, não conta pro Wall. Ele já tá bolado comigo por causa de ontem. — Começei, parando de mastigar pra falar. — Eu vou ficar um tempo fazendo uns trampos pro Caburé aqui dentro da favela. Relaxa, eu não vou sair daqui e é só por um tempo, até eu terminar a pena e eu poder ir procurar um emprego de verdade. — Expliquei de uma vez, tentando amenizar a expressão repreensiva dela.
— Ai Nina... Eu sabia que tu ia acabar voltando pra isso. Eu vejo pelo Wallace, é puta inevitável.
— É, fazer o quê? Até a minha vida se arrumar eu vou ter que fazer isso ai. Mas relaxa, vai dar tudo certo, eu já tenho até uma arma, olha. — Mostrei a pistola que eu tinha escondido por dentro da minha calça.
— GAROTA! — Ela gritou, rindo da minha cara. — Esconde isso, vai que o Wallace chega.
— Tá escondido já. — Ri também, botando o cano no mesmo lugar onde ele estava. — Eu tenho que sair agora, o CR tá mandando áudio, deve ser o nome do lugar onde eu vou ficar. — Terminei de comer meu pão e peguei um copo de água, tomando ele rapidinho. — Deu minha hora. Eu te conto como foi quando voltar.
Sai pela porta da sala, botando a saída de som próximo ao ouvido. Era pra eu estar na Barcelos às 8h em ponto e sem atrasos! Muito que bem, a Barcelos era longe, mas era fácil de chegar. Agora era só pegar o retão da principal e torcer pra não estar engarrafado.
Tive que negociar com o tio do busão pra ele me dar aquela carona sagaz até o início da favela. Bom... Nada que um pouco de simpatia e um sorriso bonito não tenha resolvido. Logo eu desci no PAC e passei a procurar onde era a porra do lugar. Ali entre os prédios no início da favela, havia uma casinha, que era onde ficava a tal da biqueira. Na verdade, aquilo era o depósito, onde ficava a administração e as drogas, o local de venda era do outro lado da rua. Me aproximei e dei duas batidinhas na porta de madeira, depois fui empurrando-a pra entrar.
— Ô de casa! Bom dia. Eu sou a menina nova. — Fui me apresentando, mas aparentemente o lugar estava vazio. — Alô?
Dos fundos da casa, uma voz gritou um 'tô indo'. De lá de dentro, veio uma menina de cabelos cacheados, vestida com algo que parecia muito um pijama. Ela estava até de meia e chinelos. O rosto da menina não me era estranho, na verdade, eu acreditava que já tinha visto ela uma vez ou outra por ai.
— Vai entrando ai. — Chamou com a mão e eu obedeci. — Meu nome é Shirley. O seu é...?
— É Marina. — Disse-a, seguindo-a de perto. — Você é o gerente?
— Eu? O Gerente? — Ela até deu uma risada de mim. — Não, não, eu sou só a faz tudo daqui, tipo o que vai ser agora. Eu queria dizer que eu sou só a vapor, mas eu faço muito mais coisa que aqueles moleques folgados. O chefe deve está chegando ai. Aqui somos 8. O gerente, 2 da endola, 4 seguranças e eu, que fico com todo o trabalho pesado. — Foi explicando. — Você sabe como funciona uma boca?
Neguei com a cabeça. Quando mais eu pensava que sabia, mais eu me fodia rendondo. Na real, eu só tinha visto como funcionava, pela minha vivência na favela. De participar, eu nunca tinha chegado nem perto. Deixei que ela me explicasse, então.
— É assim, as drogas chegam todo dia durante a noite, nós recebemos e colocamos tudo na salinha ali de trás, o pessoal da endola vira a noite botando tudo em saquinhos. A gente chega agora de manhã e arruma tudo pra começar a vender às 10h. Nós que vamos lá comercializar a parada, sabe? Damos um sorriso simpático e fazemos os noias comprarem mais. — Ela falava como se fosse especialista naquilo. Shirley parecia uma pessoa bem simpática e alto astral. Eu tinha gostado mesmo dela. — Tudo o que a gente vende lá, a gente anota no caderno da contabilidade. No final do dia, fechamos a venda e uma pessoa vem conferir o caderno pra ver se tá certinho. Ai é pra dá uma ajeitada no cafofo e podemos ir pra casa. Entendeu? — Perguntou e eu tossi. Na verdade, eu tinha me perdido no começo da explicação, mas não quis dizer isso pra coitada. Então, eu concordei com a cabeça. No meio do caminho eu ia gravando como funcionava a rotina da coisa. — Essa boca aqui é bem perto da estrada, então, geralmente vem uns playboys e um povo de fora comprar coisas aqui da gente. O movimento é grande, já vai se preparando.
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Amor na Guerra
Roman d'amourㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
