Eu tava meio cansada pra porra, mas desci as escadas mesmo assim, indo esperar a Lila na sala. Foi quando eu vi o garotinho deitado no sofá, com uma cara meio xarope e a senhora mais velha que tinha vindo também. Ela devia ser a mulher que limpava a casa do Barbás... Pelo menos era isso o que ele sempre me falava. Na real, eu nunca tinha conhecido ela, porque meus horários na boa era uma merda. Eu quase nunca ficava pra dormir durante a semana, até porque o Barbás era meu chefe no final das contas. Era uma merda acordar na cama com o cara que mandava e desmandava em você, pra se arrumar e ir trampar do lado dele. Aliás, acho que todo mundo ia saber da gente, se nós começássemos a chegar juntos durante a semana. Ia dar na cara pra caralho... Bom, era melhor assim, né?!
— Eu não te conhecia ainda, menina. — Falou a senhora pra mim, chamando minha atenção. — Você é uma das amigas do seu Barbás? — Perguntou e eu ri com um 'uma das amigas'. Aquele galinha do caralho... A gente nunca tinha nem tocado no assunto fidelidade, mas no tempo que a gente tinha começado a se pegar, estávamos juntos quase 100% do tempo. Eu trampava com ele, no tempo livre, a gente geralmente saia junto e pa. A real é que a porra da boca da Barcelos consumia pra caralho o tempo de todo mundo de lá, então eu achava que ele gastava todo o tempo que ele tinha disponível comigo... só achava mesmo. Se pá esse era um negócio que a gente tinha que conversar, até porque a gente só fazia na pele ultimamente e doença tá ai pra todo mundo, né?
— É, tipo isso. — Concordei com a cabeça, não querendo entrar naquele assunto.
— Eu achei mesmo que ele tivesse terminado com a Sandra quando ela parou de vim aqui. — Comentou, indo pra cozinha. — Quer comer alguma coisa, menina?
— Tô de boa, tia. — Respondi, olhando com curiosidade na direção do menino. Ele realmente parecia muito o Barbás, mano. Tava na cara que era filho dele mesmo, tinha nem como falar que não era. O garoto tava tão quietinho que eu fiquei até preocupada se ele tava vivo, então, me aproximei devagarzinho e abaixei do lado dele, que tava deitadinho no sofá.
— Oi, Pedro. Tudo bem?
— Oi. — Ele respondeu com uma carinha confusa. As bochechas dele estavam vermelhas, o que me levou a colocar a mão na testa dele pra ver a temperatura. Estava bem quentinho. — Você me conhece, tia?
— Me falaram de você uma vez. Meu nome é Marina, mas pode me chamar de Nina. — E estendi a mão na direção dele, que apertou com toda a força que ele tinha. Mais uma vez, isso me lembrou o Barbás, que quase tinha arregaçado minha mão quando vez aquilo uma vez, de tanta força que ele colocou. Homens...
— Oi Nina.
— Você tá quente, já foi no médico, Pedrão? — Perguntei, agora preocupada mesmo.
— Fui ontem. Minha mãe falou que era virose. — Ele falou devagarzinho, tava amuadinho demais.
— E você já tomou remédio pra febre? — Ele negou com a cabeça.
— Então pera ai. — Corri para a cozinha, pra perguntar pra dona lá se tinha alguma dipirona em gotas naquela casa. Não tinha, óbvio, então eu aproveitei pra ligar pra Dalila e mandar ela trazer um vidrinho daqueles. Ela reclamou pra cacete, porque já tava chegando e teve que voltar umas ruas pra passar na farmácia. Enquanto o remédio não vinha, eu continuei conversando sobre qualquer outra coisa com o garoto. Desde time de futebol à desenho infantil, até funk e meninas. Era maneiro, ele gostava de falar, apesar de estar mais pra lá do que pra cá. Como ele tava com uma carinha de cansaço, eu acabei que conduzi a conversa.
[...]
[WILLIAM]
— Fala tu, Caburé. — Cumprimentei o dono, batendo minha mão com a dele. Era Domingo e eu queria tá em casa, mas também não podia dizer não pra qualquer coisa que me chamassem. No escritório da Rua 1 estava o CR, o braço direito dele, os seguranças e mais uns gerentes. — Mandou chamar?
— Chamei, tô precisando que tu me faça um favor. — Falou, levantando da cadeira. — Falaram pra mim que tu sabe fazer passarinho cantar.
Não falei nada. Eu sabia bem o que o CR queria que eu fizesse e aquilo era um bagulho que não me dava prazer nenhum, na boa mesmo. Até na hora de ser bandido, os caras tinham que ter alguma honra pra ter moral na comunidade e aquela porra era simplesmente um trampo sujo do caralho. O papo é que eu não dizia não pra porra nenhuma... Se era pra fazer, então eu ia fazer bem feito e foda-se. Ele não era o primeiro patrão que me pedia pra fazer alguém falar.
— Qual foi? O cara não tá falando o que tu quer saber? — Perguntei, cruzando os braços.
— Tá se fazendo de difícil o filho da puta. — Ele riu, e fez um sinal pra eu sentar. — Então, parceiro, esse corno ai era o nosso fornecedor, tu tá ligado, né?! O cara entrava e saia da favela a hora que queria, uma farra do caralho. — Falou, acendendo um cigarro e me oferecendo um. — Só que esse merda me traiu, passou informação daqui de dentro pra alguma alemão e tava ganhando dinheiro pra isso. Eu sei que ele tá enrolado com algum plano pra me matar. Quero saber qual, como, quando ia rolar e principalmente quem tá querendo me ver cair.
— Suave. — Falei, dando uma tragada na nicotina e botando na minha cabeça que eu ia perder o meu dia com problema dos outros.
— Posso te recompensar muito bem se tu me descobrir o que eu quero saber, irmão. — Falou.
— Onde o cara tá? — Falei de uma vez, olhando ao redor da sala. Tava todo mundo sério, mas só um nego de cara amarrada: o M7. Olhei pra ele de canto de olho, vendo qual era a dele. Eu já não me dava muito com esse pau no cu, não que tivesse qualquer treta com ele, não, a gente se respeitava, mas eu não confiava nele de jeito nenhum. Desde que eu tinha visto aquela marca na cara da Nina e a história que ela contou, minha cabeça foi direto na imagem dele. Aquilo era coisa que um filho da puta como ele faria... Eu não tinha como provar nada e ela não quis falar, mas o que era dele tava guardado.
— Gosto assim, parceiro. Ele tá num galpão lá no final da Laborieux. Vou te levar lá, bora. — Ele levantou e os seguranças dele acompanharam.
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Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
