12

3.8K 291 3
                                        


ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ [...]

O resto da minha semana passou voando. E tudo nas mesmas. Eu acordava, limpava a casa e a banca, fazia lanche e suco pros moleques que patrulhavam as redondezas ali (e essa era uma das coisas que eu gostava, porque os meninos eram puta humildes e gente boa. Eles até elogiavam meu misto, mano.), organizava o depósito pro pessoal de endola (e brigava com eles por deixarem o chão cheio de resto de cocaína e maconha, coisa que eu tinha que limpar depois) e todos os outros afazeres de uma doméstica. Como eu disse, uma empregadinha legítima.

Acho que a coisa mais incomum que eu tinha que fazer era receber a droga quando ela chegava aos montes no final da tarde. Quando dos moleques não estavam aqui pra me ajudar, quem carregava essa porra tijolo a tijolo era eu. Enquanto isso o 'chefe' ficava na salinha dele, no ar condicionado, fazendo as continhas do tinha chegado e saído e dando ordem pra todo mundo. Com os seguranças e subordinados da Barcelo, eu tinha conseguido me ajeitar bem, eles pareciam crianças que precisavam de mim até pra pegar água pra eles? Sim, mas me tratavam direito também. Aquele era meu trampo afinal, né?! Na verdade, o mais estranho de verdade foi ter ficado amiguinha do cara que quis me bater com o pedaço de pau. Famoso Tulião TK. O cara era maneiro mesmo e achava graça das coisas que eu fazia... Vida estranha do cacete.

— Carai, o pessoal tá nervosão hoje. — Falei, encostada no batente da porta com minha melhor amiga, a vassoura, e olhando o movimento acelerado lá fora. Já era final de tarde, o sol se pondo e era um sobe e desce de moto tão intenso que tava me dando até tontura. — Que que esse pessoal tem?

— Hoje tem baile, filha. Todo mundo quer terminar logo o turno e passar logo pro pessoal da madrugada, pra ir curtir. — TK falou como se fosse óbvio, apoiando o fuzil no canto da sala e terminando de contar quantos tijolos ainda faltava pra ser embalado.

— Por isso que os endoleiros chegaram cedo. Tá explicado, po.

— Esse é o papo, fi. Eles tem que terminar esses que faltam ai ainda pra subir pra boca lá da quadra, sabe coé? Fiscaliza ai, eu vou reunir os moleques. — Falou pra mim e foi lá pra fora. Eu só na tristeza vendo o tanto de cisco que tinha no meu chão, já que eles tavam fazendo as coisas com pressa. Fiquei de olho neles até a Shirley vim, avisando que tinha fechado a banca. Ela tava só no veneno pra festa, como todo mundo ali parecia estar também. Depois de 3 anos presa, eu tinha até esquecido que quase todo sábado era o dia de passar mal de tanto chapar. Na verdade, agora eu tinha a vantagem de não ter uma mãe pra ficar me prendendo em casa. A desvantagem é que agora eu tinha dado duro a semana toda e tava puta cansada, meu sonho era, literalmente, deitar minha cabeça num travesseiro e acordar 11h na dia seguinte. Sonhei, meus amigos... sonhei.

O TK voltou uns minutos depois com os meninos, que vieram pegar o dinheiro da semana e se despedir de mim. Fui batendo na mão de cada um deles na saída e respondendo o 'tchau, tia' deles. Era até engraçado eu ser chamada de tia, mas eles realmente eram bem novinhos. Um deles tinha acabado de fazer 15, é foda. Ficamos, eu, Xica, TK e o Barbás ali pra fechar as coisas. A gente até ficou pra ajudar a agilizar o final da endola, contabilizamos todos os saquinhos e botamos no carro pra mandar pra quadra. Quando acabamos tudo, já era noite há um tempo. O Barbás passou um rádio pro Caburé avisando que tinha terminado tudo por ali.

— Acabamo', né? Tô livre, Barbás? — Perguntou a Shirley, cheia de expectativa. — Quero ir pra casa me arrumar.

Ele chamou ela, contando o dinheiro da semana e dando na mão dela. Ele tinha um olhar quase paternal pra Xica... Ela toda animada, na ponta dos pés contando os 500 da semana, e ele encostado na parede, rindo da felicidade dela. Puta merda, eu tinha até medo das coisas que ela faria com aquele dinheiro hoje.

— Fechou. Hoje é dia de felicidade, amores. 2 semanas sem baile já, tava na hora de deixar a gente se divertir. — Comemorou, batendo as notas de 50 contra a própria mão.

— Toma logo o teu também TK. — E o gerente contou as notas novamente, dando uma quantidade na mão do Tulio. — Te encontro mais tarde lá, irmão. Valeu. — E bateram as mãos forte, fazendo aquele estalo fodido.

— Tu vai, né Ninão? — Perguntou a Xica, vindo pro meu lado. — Vamo se encontrar pra gente ir juntas, onde tu mora?

— Po, sei não. Tô meio na merda. — Falei, estalando os dedos da mão.

— Ihhhh, tá tirando. Trabalhou a semana toda e na hora de relaxar e fumar um balão fica com essa ai. — O TK riu, batendo no meu ombro. — Para de fogo, rapá. Brota lá que eu pago o teu baseado, juro, po.

— Tentando me comprar na cara dura, rapaz. — Cruzei os braços.

— Aparece lá que eu banco essa noite, mas só essa, hein?! — Falou ao passar por mim, indo em direção à saída. — Vamo dizer que é meu pedido de desculpa, tá ligada? Se acostuma não. — Riu, acenando pra gente e subindo na moto.

— Então tá combinado, fala logo onde tu mora, mulher. — A Xica pressionou.

— Dioneia, na rua depois do Bar da tia Juca. Portão branco, número 18. — Expliquei rapidão.

— Vou passar mais tarde lá pra te buscar, se tu me der um bolo, eu vou te levar arrastada. Falo logo. — Brincou, dando um beijo no meu rosto e saindo também.

Sobrou só eu e o Barbás lá e o clima ficou pesado logo. Ele, sem falar nada comigo (padrão, né?! Ele nunca falava nada além do necessário comigo), contou o meu dinheiro e estendeu pra mim. 500tinhos delicia na mão. Essa era a hora que eu nem sabia o que eu ia fazer com tanto dinheiro. Fiquei ali um tempo, acompanhando o homem com os olhos. Ele ia de um canto pro outro apagando tudo e pegando o fuzil dele. Eu nem notei que tinha ficado parada ali, na verdade, eu nem sabia o que tinha me levado a ficar ali olhando pra cara dele.

— Que foi, fia? Tá fazendo o que aqui ainda? — Perguntou no melhor estilo grosseiro dele.

— Nada não, po. Tô saindo já. — Dei as costas, andando pra saida. — Babaca do caralho. — Xinguei baixinho pra ele não escutar.

— Que cê disse ai? — Gritou de dentro da casa, eu já lá fora.

Nem respondi, sai andando rápido, esperando que ele não resolvesse vir atrás. Era um babaca mesmo, não era mentira nenhuma o que eu tinha dito. Subi a rua a pé mesmo, esperando um ônibus passar e eu pegar uma carona sagaz daquela com o piloto até minha casa. Eu realmente tava com 0 vontade de sair de casa naquele dia, meus pés tavam doendo e tudo mais, mas eu duvidava que a Lilá ou a Xica me deixariam ficar namoral na cama. O jeito era sair e aproveitar a noite, já que a vida era tão curta...

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora