O final de semana passou bem rápido até. Sábado o Barbás precisou sair pra levar as cargas do depósito pra quadra, ficamos só eu e o Pedro. Ele me ensinou a jogar o videogame com ele, ou tentou, né? Eu era meio deplorável naquele joguinho de luta. Eu tomava uma surra pra ele todas as vezes e isso parecia divertir o menino, então, por mim tava de boa. Depois, a gente foi fazer a janta e ele veio me ajudar, murmurando reclamações sobre aquilo ser coisa de menina. Botei uma nota mental de xingar o Barbás quando ele chegasse em casa mais à noite por ter ensinado o garoto a ser machista.
Eu escolhi não ir ao baile naquele sábado e parece que o William decidiu se juntar também. Ele via o menino com menos frequência do que ele gostaria, eu sabia disso, pois tínhamos conversado sobre o assunto uma vez. Era uma merda ele morar na favela da frente... mesmo assim, era melhor do que crescer vendo o pai e a mãe traficar, era mais seguro crescer longe do que ficar mostrando a cara todos os dias pra gente perigosa. Se fosse meu filho, eu provavelmente faria a mesma coisa. Mesmo assim, devia ser complicado pra eles dois viverem longe da cria.
A noite, depois que o Pedro já estava dormindo, Barbás disse que preferia que ele não viesse ficar pela Rocinha nessas épocas instáveis. Ele não sabia quando ia estourar alguma coisa, queria que o filho tivesse longe pra não acabar pego no meio de uma confusão. Ainda sim, era só uns dias e ele não tinha mais onde ficar, então, tava de boa ficar por ali.
Eu fiquei até segunda de manhã lá, o Wallace ligou me xingando, querendo falar comigo, mas felizmente eu consegui fugir pra casa do Barbás pra passar uma pequena temporada. Foi um sonho ter passado aqueles dias com o garoto do Will, crianças tinham o dom de acalmar o meu coração. Na hora dele ir, embora, por outro lado, quebrou de novo o meu core. Eu era péssima em me despedir das pessoas, então, deixar ele ir quase me fez chorar.
Fui eu quem arrumei a mochila dele e levei ele até a sala, onde a Larissa já estava esperando. Barbás tava trocando umas palavras com ela enquanto isso. Eu e ele estávamos arrumados, porque a gente ia ter que ir direto pra boca depois. Segunda era dia de trampo.
— Ai, garotão. Bate aqui e promete pra tia que tu vai voltar. — Ergui a mão pra ele bater. — Vou ficar te esperando praquela revanche no Injustice, falou?
— Pode crer, Nina. — Ele falou, dando um sorriso pra mim. Eu dei um beijo na bochecha dele e botei a mochila nas suas costas. Ele foi correndo se despedir do pai e depois, foi na direção da mãe.
— Como tá tua mãe, Larissa? — Perguntou o Barbás.
— Tá de boa. A coroa só não tá podendo fazer movimentos muito bruscos, mas o Pedro vai se comportar, né filho? — Ela falou, guiando ele com uma mão nas costas pra fora. O carro do Barbás já tava esperando do lado de fora, ele ia emprestar pra levarem o filho dele na casa da avó. Um dos soldados da boca da Larissa tava ia levar eles até o Vidigal e voltar. Aproveitamos pra pegar uma carona com eles até entrada da favela. Foi estranho entrar no carro com o Pedrinho com um fuzil a tiracolo. Ele olhava de canto pras armas, mas não perguntou nada... ainda bem, porque eu nem sei se ia saber responder. Eu ia inventar uma desculpa qualquer que claramente não ia colar, porque ele era uma criança muito esperta. Eu e a Larissa a gente ainda não se bicava, mas até que estávamos convivendo direito. Depois daquele dia, ela nunca mais veio de graça da cima de mim.
Descemos no começo da Via Ápia, mais ao lado ficava a Barcelos.
— Beijo, garotão! — Dei tchauzinho pra ele quando desci.
— Avisa quando deixar ele lá, Larissa. — Barbás falou, batendo a porta da frente e apertando a mão do motorista.
Caminhamos um pouquinho, vendo o carro se afastar. Quando a gente tava pra virar a esquina e entrar na rua da Barcelos, a gente ouviu as rajadas de metralhadora. O barulho foi alto, o que era um sinal claro de que tinha sido quase do nosso lado.
— Que foi isso, William? — Perguntei, puxando o fuzil pela bandoleira pra frente. Ele já tava com o dele na mão e correndo de volta para a principal. A gente tomou proteção num muro baixo e ele tava com a mão no meu ombro, querendo me deixar longe da linha de tiro. Eu paralisei quando vi o carro preto que tinha levado a gente até ali, parado no meio da rua, no meio de uma tropa de homem que era dali mesmo, o vidro traseiro trincado inteiro.
Eu paralisei olhando para o carro. Ele não se movia, quando devia estar já estar pegando a Autoestrada. Mais gelada e paralisado que eu, estava o Barbás do meu lado, abaixado e olhando fixamente para aquela cena... tentando entender. O braço dele caiu perto do corpo, mas ele não saiu do lugar. Eu, impulsiva, meti a cara e sai de onde a gente tava escondido. Corri os vários metros em direção ao borrão preto, e na hora que eu cheguei perto o suficiente pra ver furos nos vidros, eu senti o meu corpo ferver. O que porras tinha acontecido ali? Alguns poucos soldados se aproximavam, olhando através do para-brisa, mas sem meter a mão. Enquanto outros viravam as costas e iam embora. Entre eles, um dos que eu conhecia: meu namoradinho de infância.
— Marcos, o que que houve aqui? — Perguntei, tentando abrir a porta traseira e me deparando com ela firmemente trancada. Os vidros laterais estavam intactos ainda, ofuscados pelo insufilm extremamente escuro. Pra abrir, eu precisei enfiar a mão pelo vidro estilhaçado da frente, cortando meu braço no processo. Ao menos eu tinha conseguido chegar à trava da porta do motorista e liberar ela.
— Eu não sei não, Marina. Foi do nada o que rolou. — Disse, me ajudando a puxar o motorista pra fora, vendo os tantos furos no peito dele. Até tentei pegar alguma pulsação, mas não achei absolutamente nada. Nessa hora, eu ouvi um grito angustiado vindo de dentro do carro. Larissa.
— Tu viu quem foi? — Perguntei, pulando pra dentro do banco do motorista pra olhar a mulher ensanguentada e histérica no banco traseiro. Ela estava sobre o Pedro, então, eu não consegui ter uma boa visão dele. Procurei no painel um maneira de liberar todas as portas. Apertei um pouco de tudo e consegui destravar as trancas. — Larissa, o que que houve?
Ela não respondeu, então eu saí pra abrir a porta. Nessa hora, eu vi o Barbás de novo. Ele mesmo foi direto até o filho e pegou ele no colo e ai eu vi, o sangue concentrado num ponto da camisa do menino. Choraminguei, sentindo o meu coração partido, enquanto o homem o levava pra longe. Larica chorava no banco, gritando o nome do filho. Era como se o tempo tivesse parado naquele instante, com os gritos de uma mãe ecoando de fundo e um corpo sangrando por dez buracos aos meus pés. Era uma distopia, um contraste violento com a calmaria anterior. O tempo tinha virado do nada e uma tempestade que eu nunca tinha visto antes se formava sob a minha cabeça... e isso nada tinha a ver com o clima cinzento daquele dia.
— Meu Deus do céu, porra. — Fiquei olhando um tempo, enquanto um carro de morador parava do lado, se oferecendo pra levar o garoto pro hospital.
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Amor na Guerra
Romansaㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
