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Aquele frenesi noturno não diminui nem um pouco com as várias vezes que eu tentei as chaves na porta e falhei. Tinha umas 10 chaves lá e parecia que nenhuma encaixava... Até que uma voz conhecida me fez pular no lugar.

— Menina, onde você vai essa hora da madrugada? — Perguntou Madalena, a moça que vinha limpar a casa da Barbás e tinha ficado cuidando do filho dele essa semana.

— Eu tenho que ir ver minha mãe. É urgente. — Falei pra ela, engolindo em seco. — A senhora não precisa se incomodar não.

— Agora?

— É, agora. — Respondi quase por cima dela. — Já tá quase amanhecendo, daqui a pouco é 5h e vai ter um monte de gente indo trabalhar. Tá de boa. — Falei, sabendo que mais ou menos naquele horário, as ruas começavam a se movimentar com os trabalhadores descendo a favela.

— Cê tá doida. — Ela negou com a cabeça, indo até mim e pegando as chaves. Ela foi até a janela, onde entrava um pouco da iluminação da rua e olhou todas elas, selecionando uma. Ai, ela foi até a porta e começou a tentar abrir pra mim.

— Porque a senhora tá acordada? — Perguntei, me sentindo incomodada por ter acordado a pobre da mulher.

— Nada, eu só tava conversando com quem tá acordado da vez. Tu sabe, os homens tão se revezando pra dormir. Daqui a pouco dá a minha hora e eu tenho que descer pra dar café da manhã pra minha filha. — Contou.

Então era por isso que eu achei que todo mundo tava dormindo quando passei de fininho... Eles tavam se revezando pra poder descansar, um ficava acordado por turno. É tipo o que o Barbás fez na mata há uns meses atrás... Suspirei pesado, olhando pra ela e comprimindo os lábios. Eles tavam sentindo a pressão, eu também tava. De um jeito ou de outro, todo mundo sentia medo, todo mundo queria se proteger. O M7 era o dono do morro agora e ninguém sabia como ia ser. O ódio por aquele filho da puta borbulhava dentro de mim... eu nunca ia me esquecer do que tinha rolado entre nós dois naquele mato da Zona Sul.

— Valeu, tia. Não fala pra ninguém que eu sai não, deixa eles pensar que eu vim pegar água ou alguma coisa do tipo. — Falei, enquanto ela me acompanhava até o portão. — Vou ficar de boa. — Tentei um sorrisinho quando ela abriu o portão pra mim e eu sai, sentindo o ar gelado da madrugada arrepiar todos os pelos do meu corpo.

Dali pra casa da minha mãe era uns 20 minutos andando e eu nem pensei duas vezes antes de começar a andar e descer a rua principal. Se a ideia do M7 fosse me matar, porque qualquer motivo que fosse, eu tava me dando de graça pra ele ali sozinha e sem arma nenhuma. Apesar disso, fui tranquila, sabia que ninguém ia mexer comigo ali na minha favela. Em cada esquina, eu via o olhar dos falcões me acompanhando em silêncio. Estava tudo em silêncio, depois de uma noite infernal de tiro pra todo o lado. Tudo parecia em paz... Só parecia.

Tava frio e eu só tinha um casaco leve pra me proteger, mas do jeito que eu tava, nem uma tremedeira ia me parar. Eu só fui andando e andando e andando, descendo pela principal até quase entrar no Largo do Boiadeiro. Em uma daquelas viela, no final dela, ficava a casa onde eu vivi toda a minha vida até a hora em que eu fui presa. Pisquei algumas vezes, olhando para o portão escuro de tintura descascada da minha casa. Eu achei que ia estar preparada pra isso... mas eu não tava. Solucei, sentindo vontade de vomitar de novo. As primeiras lágrimas começaram a escorrer ali mesmo, naquela viela mal iluminada, de frente pra um lugar que há tantos anos eu não passava nem na frente. Engoli em seco e me aproximei devagar, pegando o celular e vendo se ela não tinha resolvido me responder. Não tinha... Então ia ser do jeito direto.

Meti o dedo na campainha e esperei. Ninguém veio de primeira, então eu fiz uma segunda vez e uma terceira também, enquanto ligava pro número dela do meu celular. Eu ia ficar ali a noite toda se eu precisasse, mas eu ia falar com ela. Em algum momento, ela resolveu me enfrentar e o portão se abriu depois do que pareceu a porra de uma eternidade naquele frio. Eu não sabia se era o sereno ou a chuva fraquinha que começava a cair do céu, mas os meus cabelos já estavam ficando bastante úmidos.

— O que que você quer? — Ela falou, saindo pra fora de casa. — Já não basta tudo o que você fez? Ainda vem pra porta da minha casa de madrugada me atazanar, porra? — Reclamou com os olhos vermelhos. — Sai daqui agora, Marina.

— Eu não vou sair. — Respondi na mesma intensidade. — Eu não vou sair da sua porta até você me falar o que tu tava fazendo naquele carro... Com aquele homem. — Falei, sentindo os meus olhos arderem por causa das lágrimas. Meu coração tava apertado no peito.

— Tu tá maluca, Marina? Que carro? Que homem? Eu fiquei a noite toda em casa com...

— Não mente pra mim! — Gritei, fechando as mãos em punhos e batendo o pé no chão. — Para de mentir pra mim, porra. Eu vi você lá. Eu. Te. Vi. — Insisti

— Você tá maluca.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora