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— Barbás... — Respondeu, meio surpresa por eu ter admito aquilo abertamente. — Eu não...

— Tu quem disse pra mim usar isso a nosso favor, lembra? Então, Nina. A hora é essa. Tu vai dar pra trás agora?

— Porra, não me pressiona assim. — Brigou, colocando a mão no rosto. — Eu te disse que eu não conheço e nem tenho qualquer contato com ele.

— Sabe o que eu fui atrás de saber esse final de semana, Nina? O motivo do Caburé ter brigado com o cara que foi o mentor dele no corre e porquê ele resolveu dar esse apoio logo pro Misael. No meio disso tudo, tava você, que apareceu me falando que era filha desse mesmo cara.

— Que? — Ela perguntou, parecendo indignada comigo. — Tu nunca acreditou quando eu disse que não tinha nada a ver com ele, né? — Acusou.

— Não é nada disso, Marina. Não é problema contigo, é que eu não acredito em coincidências. Ultimamente nessa favela, tem acontecido muitas, tu não acha? — Questionei, puxando mais um pouco o cigarro. — O M7 não vai com a tua cara, tu mesmo me falou isso. Eu fui lá peitar ele uma vez, mandando ele ficar longe de você. Mesmo assim, naquele dia, quando tu foi pra perto do Caburé e ele te fez refém, o Misael parou e não arriscou a sua vida. É estranho, né não?

Ela ficou com as bochechas vermelhas e concordou com a cabeça, abaixando o olhar. Ali eu percebi que tinha pegado ela no pulo, Marina não tinha me contado tudo o que sabia. O causo com a mãe dela na madrugada daquele dia dizia muito sobre isso.

— E o que você descobriu? — Quis saber.

— Eu? Nada muito 100%, a certeza morreu com o Caburé e vai morrer com o Misael também. Eu só tive umas pistas. O Parma viu tua coroa encontrando com o M7, sabe que ele mandava coisa pro morro de lá pelo esqueminha dela de mensageiro. — Expliquei. — Ela sabia de alguma coisa, você foi fazer escândalo na porta dela.

Nina fechou os olhos e deu uma volta nervosa pela sala, antes de voltar pra perto de mim.

— Olha, Barbás... — Começou, mas eu cortei ela.

— Eu não quero saber de explicação, Nina. Não vou ficar aqui de moralista dizendo que meia verdade é uma mentira inteira ou coisa do tipo, eu não tô nem ai pra essa porra. O que eu quero é que tu me ajude a derrubar o Misael indo direto na vantagem dele sobre a gente, antes que ele, com a ajuda do teu paizinho, mate nós todos. Ou tu tá com a gente nessa ou não tá. Ficar em cima do muro agora, é tomar dos dois lados. — Avisei, jogando a bituca do cigarro pela janela.

— É claro que eu tô contigo, porra. — Falou, muito certa do que dizia. Dei um meio sorriso em satisfação. — Se eu não tivesse, eu não estaria aqui agora. Ia estar lá do lado dele do morro, recebendo a porra da proteção dele.

— Ótimo.

— É, ótimo. — Ela cruzou os braços. — Era disso que eu tinha medo, de você me ver como uma deles e não uma de vocês.

— Eu não vejo nada, Nina, eu só sou objetivo. Você tá com a gente, então pronto, eu acredito em tu. Só que ninguém escolhe lado em guerra pra perder, Nina. Pra tirar o Misael, a gente vai precisar da tua ajuda e o tempo tá contra nós.

Ela negou com a cabeça, se encostando no sofá, na minha frente.

— O que que você quer que eu faça? — Perguntou. — Qual seu plano?

— Nosso plano. — Corrigi. — Não quero tu nessa merda obrigada. Tu tem que vir porque tu quer o Misael morto também.

— E eu quero. — Garantiu. — Eu só não queria mexer nesse vespeiro, eu tenho medo. — Confessou, passando a mão nos cabelos. — Mas se é isso o que precisa ser feito, se é eu ir atrás do meu pai, eu faço.

— Muito bom. — A verdade é que eu não achei que a Nina teria a postura que ela tava tendo. Postura de mulher... Eu via ela como uma menina quando a conheci, mas a verdade é que ela tinha crescido nesse meio tempo. Eu conseguia ver isso agora. A determinação no olhar e a postura firme confirmava que ela não tava mentindo. — Nós vamos cortar o apoio do Mandarim ao M7. O Misael tem que ficar isolado. Se o PPG vier tomar as dores dele, o que eu acho que vai rolar, a gente perde. É simples. — Expliquei. — E ai a gente pode fazer isso do jeito bom ou do ruim. Tu escolhe o que tu prefere tentar primeiro.

— Só por curiosidade, o que é os dois?

— O bom a gente conversa, o ruim a gente ameaça. — Simplifiquei e ela riu.

— Tá brincando, né? — Ela segurou a risada por alguns segundos. — É... um plano bem sólido. — Debochou.

Deu um sorrisinho de canto e subi pra tomar um banho. Quando desci, ela tava com uma vassoura juntando os cacos num canto. Fiquei olhando pra ela por um tempo antes de deixar ela saber que eu tava de volta.

— Eu não quero pisar num desses e cortar meu pé, sabe qual é? E eu duvido que você saiba onde tem pinça aqui pra eu correr atrás do estrago. — Falou, quando eu terminei de descer as escadas. Ela tava um pouco emburrada, mas mantendo o humor na voz. A gente não tocou mais no assunto do pai dela... por enquanto era bom. Peguei as minhas armas atrás no bar e no sofá. Atravessei o fuzil com a bandoleira pelo meu abdômen e coloquei a pistola na cintura. — Pera, vai sair?

— Eu tenho que ir ajudar a defender o final da Dioneia. — Avisei, parando de frente pra ela.

— Eles tão tendo problema? — Quis saber com seu rosto assumindo uma máscara de preocupação. Foi ai que eu reparei nas suas olheiras pela primeira vez. Não sabia se pela bebedeira ou por não estar dormindo bem nos últimos dias. Eu apostava no último.

— Agora não muito, mas o inimigo não dorme. — Disse, verificando o cartucho da pistola.

— Eu vou com você. — Disse, indo procurar as armas dela.

— Fica em casa. Já tem gente o suficiente lá. — Pedi e fui ignorado por ela. Diabo de mulher... — Na boa, Nina.

— Se tem gente o suficiente, tu não precisa ir.

— Nina. — Neguei com a cabeça, respirando fundo. — Na boa, fica ai e dorme essa noite. Eu vou ficar melhor se eu souber que tu tá quieta em casa e não arriscando em tomar um tiro ai. — Pedi mais uma vez e ela cagou pra mim. Puta que pariu... eu não merecia 1 segundo de paz mesmo. — Amanhã tem troca da tropa às 6h. Tem que ter gente descansado pra assumir lá, ai tu entra.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora