Foi só assim que ela parou e me olhou.
— Vai dormir, Nina.
— Você tinha que dormir também. — Disse, vindo na minha direção mais uma vez.
— Tinha... Mas eu tenho trabalho pra fazer, eu vou dormir depois, beleza?. — Falei. Ela cruzou os braços e negou com a cabeça. — Assim que amanhecer, liga pra Shirley e pergunta do meu filho, tá? Manda uma mensagem no meu whatsapp, eu olho quando der.
— Tá bom. — Concordou com a cabeça. — Eu vou rezar por ele, não consigo tirar o Pedro da cabeça. — Confessou, voltando a pegar a vassoura, ficando de costas pra mim. Eu ia só sair no foda-se, mas alguma coisa na minha mente me lembrou de que eu tinha magoado ela na noite passada. Se pá, tinha magoado ela agora. Alguma coisa me puxou pra ela de novo...
Eu abracei a Nina por trás, enfiando a cabeça no vão entre o ombro dela e cheirando a pele perfumada. Beijei o ombro demoradamente, antes de dar meia volta e sair pela porta, mandando ela trancar o portão. Ali do lado de fora ainda tinham dois seguranças, não eram os mesmos que o TK botou pra me seguir, mas ainda sim, eram dois homens.
— Não precisa ir comigo não, tô indo pra frente. Fica ai e protege a mina que tá ai dentro. — Mandei. — Se ver alguém olhando pra cá, qualquer coisa suspeita, é pra me ligar. Tranquilo?
Quando os dois concordaram, eu puxei minha moto e saí direto pela rua, subindo a principal até a rua que marcava o final do território que a gente dominava. Era um largo. Da metade pra cá era nosso, da metade pra lá era do M7. Ninguém ousava meter a cara ali no meio pra tomar tiro. Era cada um de um lado e, apesar de não ver ninguém logo de cara, eu sabia que o que não faltava ali era homem esperando a oportunidade pra meter uma bala na cabeça um do outro.
Estacionei a moto bem baixo na rua e fui pra posição perto da pessoa que tava me esperando. Russo tava na laje de uma casa, que eu escalei pra conseguir chegar até ele. Os donos daquela casa deviam estar dormindo nos quartos debaixo. Já era alta madrugada.
— Falou com ela? — Perguntou ele, mantendo os olhos na praça deserta que marcava o ponto 0. Terra de ninguém.
— Falei. — Disse, me posicionando na extremidade oposta da parede, ainda perto o suficiente pra gente poder conversar. Me ocultei na meia parece, arrumando a postura com o fuzil e olhando pro alvo.
— E ai?
— E ai que era melhor tu ter feito isso. — Neguei com o cabeça. — Não tô bom não, Russo.
— Tô ligado, irmão. O que rolou com teu filho não era pra ter acontecido. Tu já ficou sabendo o que que houve mais cedo? — Perguntou.
— Não, eu dormi o dia todo. — Confessei.
— Ele não quis matar teu filho não. — Falou e eu desviei minha visão pra ele.
— Que?
— Era tu que ele queria matar, sacou? Ele achou que era você que tava dirigindo, o carro era teu, saindo da sua casa e pá. — Explicou. — Ele passou uns gerentes dele, o Misael queria trocar as lideranças dele no morro por gente que ele confiasse mais. Ele conseguiu matar os gerente do Valão e da Roupa. A gente até conseguiu pegar uma parte boa do Valão ai, mas a Roupa Suja ficou com ele. Tentou pegar o Parma também, mas ele não tava em casa na hora.
Fechei os olhos por uns segundos, sentindo a raiva voltar em ondas fortes pra caralho. Ela nunca ia embora, mas nem sempre eu me deixava dominar por ela. Eu provavelmente nunca deixaria de ficar puto até a hora que o meu filho saísse do hospital, aquela ira nunca iria embora até eu ter o Misael de quatro na minha frente. Ele quis me matar e falhou, acertou o meu filho ao invés disso... Respirei fundo e voltei meus olhos pra praça de novo.
— Ele vai ficar bom, Barbás. — Russo disse num tom muito mais suave. — Ele é novo, po.
— É bom mesmo. Se alguma coisa acontecer com o meu filho naquele hospital, eu vou atrás da família daquele otário. — Disse, apertando a mão em redor da empunhadura do fuzil. — Juro pra tu.
Ele concordou com a cabeça e se calou por uns minutos, antes de voltar pro assunto anterior: Nina.
— Como foi o papo? O que tu falou pra ela?
— Eu cobrei uma posição dela. Ela escolheu ficar com a gente, é isso. — Expliquei.
— Tá, mas isso ai gente já esperava. Como ela vai impedir que o pai dela venha foder a gente aqui? — Perguntou o Russo.
— Não sei, irmão, mas um jeito a gente vai dar. Ela é a melhor chance que a gente tem, esse negócio caiu que nem ouro no nosso colo. — Expliquei. — Vou dar um tempo pra ela digerir essa porra antes de falar de novo.
— Caralho, que merda. — Ele negou com a cabeça. — A nossa sorte é que a Marina é a mina mais forte que eu conheço. Já passou de tudo nessa vida e continua firme e forte. — Ele mesmo parecia desgostoso de ter que envolver a irmã daquele jeito. Acontece que o Russo era tão realista quanto eu e sabia que não tinha outro jeito. De qualquer maneira, nem eu e nem ele conseguimos afastar ela do carro quando a gente teve a chance (e olha que não faltou tentativa da nossa parte na época), então, agora era um risco que todo mundo ali ia ter que assumir.
— É... — Concordei, com a voz cansada, levantando pra patrulhar os arredores da casa. A noite ia ser longa...
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Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
