A manhã na Ala Médica do Triskelion não chegou com o canto dos pássaros ou a luz do sol entrando pela janela. Ela chegou com o zumbido suave da ventilação central e o cheiro sintético de desinfetante, que logo foi substituído por um aroma muito melhor: bacon, ovos e panquecas.
Harry e Emma estavam sentados na cama, observando o carrinho de comida que uma enfermeira tinha deixado ali como se fosse uma bomba prestes a explodir.
Para duas crianças acostumadas a receber torradas queimadas e sobras frias dos Dursley, aquela bandeja parecia um banquete real.
— Você acha que a gente pode comer? — Harry sussurrou, olhando para os ovos mexidos amarelinhos.
— A moça de ontem me deu chocolate e eu não morri — argumentou Emma, embora seus olhos estivessem fixos na porta fechada, ignorando a comida.
A porta se abriu com um bip eletrônico.
Não era a moça de ontem.
Maria Hill entrou, impecável em seu uniforme azul-marinho, segurando um tablet. Ela tentou um sorriso que, embora genuíno, parecia profissional demais para confortar uma criança.
— Bom dia — disse Hill, parando a uma distância respeitosa. — Vejo que o café chegou. Vocês precisam comer. O Dr. Banner quer fazer alguns exames mais tarde e vocês precisam estar fortes.
Harry pegou um pedaço de bacon timidamente, mas Emma não se mexeu. Ela puxou os joelhos contra o peito, aquela barreira invisível se erguendo novamente. Seus olhos verdes varreram o corredor atrás de Maria Hill, procurando.
— Cadê ela? — perguntou Emma. Sua voz era pequena, mas firme.
Maria Hill piscou, confusa por um segundo.
— Cadê quem, querida?
— A moça — insistiu Emma. — A moça do cabelo vermelho. A Natasha.
Hill suspirou internamente. Fury queria respostas. Eles precisavam saber sobre a energia, sobre a cicatriz do Harry, sobre o que aconteceu naquela casa. Mas ali estava ela, a Vice-Diretora da S.H.I.E.L.D., sendo bloqueada por uma menina de dez anos que se recusava a falar com qualquer pessoa que não fosse a Viúva Negra.
— A Agente Romanoff está de folga, Emma. Ela foi para casa descansar. Eu sou a Agente Hill, eu posso cuidar de vo...
— Não — Emma cortou, balançando a cabeça. Ela se recostou no travesseiro, cruzando os braços magros. — Eu quero a Natasha. Ela prometeu.
Harry, com a boca cheia de panqueca, assentiu em apoio à irmã.
— Ela disse que não ia deixar ninguém machucar a gente — disse Harry. — A gente só confia nela.
Maria Hill olhou para os dois. O menino protegia a irmã, e a irmã tinha escolhido Natasha como sua âncora. Não havia como contornar isso. Se quisessem que aquelas crianças cooperassem, precisariam trazer a única pessoa que conseguiu penetrar a defesa delas.
Hill tocou o comunicador em seu ouvido e saiu do quarto, falando baixo.
— Central? Consigam uma linha segura com a Romanoff. E preparem os ouvidos. Ela não vai gostar nada disso.
Do outro lado de Washington D.C., num apartamento funcional e escuro, o som mais irritante do mundo começou a tocar.
Natasha Romanoff estava enterrada sob um edredom pesado, numa escuridão artificial criada por cortinas blackout de nível militar. Ela tinha chegado em casa há apenas três horas. Seus músculos doíam, sua cabeça latejava e o cheiro de fumaça ainda parecia preso em seu cabelo, mesmo após dois banhos.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
