O apartamento no Upper West Side estava mergulhado em um silêncio aconchegante, quebrado apenas pelo som da chuva fina que batia contra as janelas de vidro duplo. Natasha não usava tático, nem coldres, nem couro. Ela vestia uma calça de moletom velha e uma camiseta larga, movendo-se pela cozinha com uma delicadeza que raramente mostrava ao mundo.
Ela preparava um chá de camomila com mel, enquanto o gato cinza de Emma, apropriadamente (e agora irritantemente) batizado de Bucky, se enroscava em seus tornozelos. Natasha olhou para o animal com um suspiro pesado.
— De todos os nomes no mundo, pequeno... — ela resmungou, afastando o gato gentilmente com o pé. Antes, o nome era uma homenagem distante a um herói de guerra; agora, era um lembrete constante do homem que quase a matou e que, ao mesmo tempo, era o dono do seu coração.
Ela levou a bandeja para o quarto. Emma estava enterrada em edredons, com o nariz vermelho e os olhos úmidos.
— Hora do chá, Little Red — disse Natasha, sentando-se na beira da cama.
Emma aceitou a xícara, mas seu rosto estava nublado por algo mais do que apenas a gripe. Ela olhou para a janela, onde a chuva caía.
— O Harry não escreveu — murmurou Emma, a voz rouca. — Nem o Ron, nem a Hermione. Ninguém, Nat. Eu mandei cartas antes de tudo acontecer em Washington e... nada. Será que eles me esqueceram porque eu moro no mundo trouxa agora?
Natasha sentiu uma pontada no peito. Ela sabia o que era se sentir esquecida, mas sabia que, no mundo de Emma, as coisas raramente eram o que pareciam.
— Eles não esqueceram você, Emma. Às vezes as corujas se perdem na tempestade, ou as cartas ficam retidas. Você sabe como o mundo bruxo é burocrático.
— Mas nem o Harry? — Emma insistiu, uma lágrima solitária escorrendo. — Ele sabe como é não ter notícias.
Natasha a puxou para um abraço de lado, deixando que a menina encostasse a cabeça quente em seu ombro. Era um dia de "mãe e filha", mesmo que o título oficial nunca tivesse sido dito em voz alta. Natasha cuidava de Emma com uma ferocidade que só uma mãe teria, e Emma buscava o abrigo de Natasha como se ela fosse seu porto seguro universal.
— Vamos fazer o seguinte — disse Natasha, tentando mudar o foco. — Hoje não pensamos em Hogwarts, nem em Washington, nem em cartas. Hoje é dia de maratona de filmes e chocolate quente.
— E o Bucky pode ficar na cama? — Emma perguntou, olhando para o gato que já estava pulando nos lençóis.
Natasha revirou os olhos, sentindo o peso da ironia. — O gato pode. Mas só porque você está doente.
O dia passou devagar. Natasha cuidou da febre, trocou as compressas e leu capítulos de livros de suspense para Emma, omitindo as partes mais sangrentas. Por alguns momentos, Natasha conseguia esquecer que James estava em uma ala médica e que ela mesma era a mulher mais procurada pelos comitês do senado. Ali, ela era apenas a guardiã de Emma.
No final da tarde, a febre de Emma finalmente baixou. Ela adormeceu com o gato ronronando em cima de suas pernas. Natasha ficou de pé na porta, observando-as. Ela tocou a correntinha de James no bolso, sentindo o metal frio.
James não conhecia Emma. Ele não sabia que a "Natalia" dele agora tinha uma família ruidosa, mágica e complicada. Natasha se perguntou como seria o encontro dos dois. O Soldado Invernal e a Pequena Bruxa.
O apartamento estava silencioso, exceto pelo som rítmico da chuva contra o vidro e o ronrom constante do gato Bucky, que havia se transferido do quarto de Emma para o pé da poltrona de Natasha.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
