Capítulo 155

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Chalé do Guardião do Norte. Madrugada de Domingo. 03:15.

O pesadelo não era novo. Era o clássico repertório da Sala Vermelha: macas cirúrgicas, luzes brancas cegantes, e a sensação fantasma de úteros sendo removidos. Mas, desta vez, o cenário mudava. Em vez de médicos de máscaras, eram Comensais da Morte. Em vez de bisturis, eram varinhas brilhando em verde. E na mesa de operação não estava Natasha. Estava Emma.

Natasha acordou com um engasgo, sentando-se abruptamente na cama. O suor frio cobria sua pele, colando a camiseta no corpo trêmulo. O coração batia tão forte que parecia querer quebrar as costelas. Mas não foi o medo psicológico que a manteve acordada. Foi o braço.

Um grito ficou preso em sua garganta, transformando-se em um chiado agudo de dor pura. Seu braço esquerdo não parecia fazer parte do corpo. Parecia ter sido mergulhado em um tanque de ácido sulfúrico fervente. O local do implante, logo abaixo do ombro, irradiava ondas de calor que pulsavam em sincronia com seus batimentos cardíacos descontrolados. Não era a dor surda e manejável dos últimos dias. Era uma faca serrilhada, em brasa, sendo girada lentamente dentro do nervo, raspando no osso.

Nngh... — Natasha mordeu o lábio inferior com força suficiente para sentir o gosto metálico do sangue.

Ela olhou para o lado. No chão do quarto, em colchões improvisados e sacos de dormir (porque a "festa do pijama" na casa nova era irresistível), dormiam Emma e Hermione. No quarto ao lado, Harry e Ron. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pela respiração suave das crianças. Eles estavam em paz. Eles estavam seguros. Natasha não podia acordá-los. Ela não podia deixar que eles a vissem assim — fraca, quebrada, dominada por uma dor que eles não podiam entender e muito menos curar.

Com um esforço sobre-humano, ela jogou as pernas para fora da cama. Quando seus pés tocaram o chão frio, o mundo girou. Pontos pretos dançaram em sua visão. A dor no braço disparou um espasmo violento que fez sua mão esquerda se fechar em uma garra rígida e inútil. Ela segurou o braço esquerdo com a mão direita, cravando as unhas na pele, tentando criar uma contra-dor para distrair o cérebro. Não funcionou.

Ela cambaleou em direção à porta do quarto, usando a parede como apoio. Cada passo era uma negociação com a gravidade. O chip parecia estar expandindo, querendo rasgar a pele e sair. Ela saiu para o corredor escuro e entrou no banheiro principal, fechando a porta atrás de si e girando a tranca com dedos trêmulos.

Assim que o trinco fez click, Natasha desabou. Ela caiu de joelhos no tapete do banheiro, a testa encostada na porcelana fria da pia. Um gemido baixo, gutural, escapou de seus lábios. — Merda... merda... — ela sussurrou, a voz rouca de agonia.

Ela tateou o bolso da calça de moletom e puxou o dispositivo de comunicação seguro. A tela brilhou forte na escuridão, ferindo seus olhos sensíveis. Com dedos que mal obedeciam, ela discou o código de emergência direto. Um toque. Dois toques.

Romanoff? — A voz de Q estava sonolenta, pastosa. — São três da manhã. Se o Bond não explodiu o Big Ben, eu espero que...

— Q... — Natasha interrompeu. Não foi um chamado. Foi um som de alguém se afogando.

O sono desapareceu da voz de Q instantaneamente. O som de lençóis sendo jogados e óculos sendo colocados foi ouvido. — Natasha? O que está acontecendo? Seus vitais... meu Deus. Ele devia estar olhando o monitor em seu quarto. — Sua pressão arterial está 180 por 110. Sua temperatura periférica no braço esquerdo está... 45 graus? Natasha, você está queimando!

— Dói... — Natasha gemeu, encolhendo-se no chão, abraçando o braço contra o peito. — Q, por favor... faz parar. A frase saiu quebrada, infantil em sua vulnerabilidade. A Viúva Negra não pedia "por favor". Mas a dor estava dissolvendo a espiã, deixando apenas o nervo exposto.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora