Chalé do Guardião. Quarta-feira, 16:30.
O chalé estava silencioso e quente, um refúgio perfeito contra o vento uivante de fevereiro. Natasha estava sentada na poltrona perto da lareira, aproveitando um momento raro de paz para afiar suas facas de arremesso. O som rítmico da pedra de amolar contra o metal (shhhk, shhhk) era terapêutico.
A porta da frente se abriu. Uma rajada de vento frio entrou, seguida por duas figuras. Primeiro, Hermione Granger, que parecia ansiosa, torcendo as mãos. Atrás dela, entrou Emma. Mas Emma estava... estranha. Ela usava um sobretudo enorme (provavelmente do Harry), um cachecol da Grifinória enrolado três vezes no pescoço cobrindo metade do rosto, e óculos escuros. Dentro de casa. Num dia nublado. Ela caminhava de lado, tentando esconder algo volumoso debaixo do casaco.
Natasha parou de afiar a faca. Ela ergueu uma sobrancelha. — Você está disfarçada de celebridade fugindo dos paparazzi ou assaltou um banco, Emma?
Emma congelou no meio da sala. — Nenhum dos dois. Oi, mãe. Tchau, mãe. Vou pro quarto estudar. Ela tentou correr para o corredor.
— Emma. — O tom de voz de Natasha não era alto, mas tinha a autoridade de um campo de força. — Pare.
Emma parou. Os ombros dela caíram em derrota. Natasha colocou a faca na mesa e se levantou. — O que você tem debaixo do casaco?
— Nada — Emma disse rápido demais. — É dever de casa — Hermione tentou ajudar, mas sua voz saiu aguda e pouco convincente.
Natasha caminhou até elas. Ela estendeu a mão, a palma aberta. — Passem. Agora.
Emma suspirou, um som longo e trêmulo. Ela olhou para Hermione com um pedido de desculpas mudo, desabotoou o casaco e tirou o jornal amassado que estava tentando contrabandear para o lixo do quarto. Era a edição vespertina do Profeta Diário.
Natasha pegou o jornal. A primeira coisa que ela viu foi a foto. Era uma foto em movimento, tirada com uma lente de zoom potente no dia da Segunda Tarefa. Mostrava o exato momento em que Natasha emergiu da água com Harry. Mas o ângulo... o ângulo era horrível. A foto mostrava Natasha com o cabelo molhado colado no rosto, os dentes trincados num esgar de esforço, segurando Harry pelo pescoço de um jeito que, fora de contexto, parecia agressivo. Parecia que ela o estava estrangulando, não salvando.
E então, a manchete. Em letras garrafais e negras que pareciam gritar:
A ASSASSINA TROUXA QUE VIROU BRUXA: HEROÍNA OU AMEAÇA? Fontes revelam que a Guardiã de Potter tentou afogar o campeão no Lago Negro.
Natasha sentiu o sangue gelar nas veias. Ela leu o subtítulo escrito por Rita Skeeter.
"Testemunhas afirmam que Natasha Romanoff, uma ex-espiã russa com um histórico confirmado de assassinatos no mundo trouxa (conhecida pela alcunha terrível de 'Viúva Negra'), usou força excessiva e magia das trevas durante a Segunda Tarefa. Especialistas questionam: É seguro deixar O Menino Que Sobreviveu nas mãos de uma mulher treinada para matar? Dumbledore está abrigando um monstro em Hogwarts?"
O silêncio na sala era absoluto. Natasha leu cada palavra. "Monstro". "Assassina". "Tentar afogar". Ela lembrou do peso de Harry nos braços dela. Do desespero para fazê-lo respirar. Do frio da água que quase parou o coração dela. Ela tinha pulado no gelo para salvar a vida dele. E agora, o mundo mágico a chamava de monstro por isso.
A mão de Natasha, segurando o jornal, não tremeu. Ela ficou imóvel. Mas os olhos... Emma, observando a mãe por cima dos óculos escuros, viu. O brilho verde e feroz nos olhos de Natasha se apagou. Não houve raiva. Não houve o fogo de "vou matar essa repórter". Houve apenas uma tristeza profunda, exausta. O olhar de alguém que tentou fazer o bem a vida toda, mas que nunca consegue fugir da própria sombra. Ela baixou o jornal devagar. Ela parecia menor.
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Daughter of No One
FanficHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
