Capítulo 162

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Cobertura de Kensington. Londres. Terça-feira, 02:45 da Manhã.

A chuva de Londres batia contra o vidro panorâmico do edifício como se pedisse para entrar, mas a segurança daquela cobertura era projetada para manter fora muito mais do que apenas água. Era uma fortaleza de vidro e aço, protegida pelos sistemas mais paranoicos que a tecnologia Stark e a experiência da KGB podiam criar.

Natasha Romanoff parou no corredor do lado de fora da porta principal. Ela não usou a chave. Ela não usou a biometria. Ela tirou o celular do bolso. Seus dedos dançaram sobre a tela iluminada com uma velocidade que borraria a visão de um observador comum.

Acesso Remoto: Protocolo Fantasma, — ela digitou. Na tela, linhas de código vermelho viraram verde. Câmeras do Hall: Em Loop. Sensores de Pressão: Desativados. I.A. Residencial (FRIDAY - Módulo Doméstico): Hibernando.

Natasha sorriu para a tela. — Desculpe, Tony. Sua babá eletrônica vai tirar um cochilo.

Ela não queria que James fosse avisado. Ela não queria a voz sintética da FRIDAY anunciando: "Sra. Romanoff chegou". Ela queria ver a reação dele crua. Sem preparo. Sem a máscara que ele, assim como ela, vestia automaticamente quando sabia que alguém estava olhando.

Ela hackeou o painel da porta. As trancas magnéticas de nível militar se soltaram com um clique suave, quase inaudível, que foi engolido pelo som da chuva lá fora. Natasha empurrou a porta e entrou.

O cheiro a atingiu primeiro. Não era cheiro de flores ou de limpeza química. Era cheiro de sândalo, óleo de armamento, couro velho e... solidão. Aquele cheiro específico de uma casa onde alguém vive, mas não vive de verdade. O ar estava parado.

Ela fechou a porta atrás de si, trancando-a novamente via celular. Ela olhou para o chão de madeira nobre do hall de entrada. Com movimentos fluidos, ela se abaixou e desamarrou as botas táticas. Ela as colocou ao lado da sapateira com um silêncio absoluto. Meias pretas na madeira. Ela se moveu.

Natasha Romanoff, a maior espiã do mundo, estava invadindo sua própria casa. Ela atravessou a sala de estar ampla. Estava impecável. Não havia um copo fora do lugar, uma almofada amassada. James estava mantendo a ordem militar. A única coisa que denotava vida era um livro aberto de bruços na mesa de centro e uma garrafa de uísque pela metade.

Ela seguiu para o corredor dos quartos. O coração dela, que tinha enfrentado Comensais da Morte e dragões burocráticos sem vacilar, agora batia descompassado contra as costelas. Junho. A última vez que ela tinha visto o rosto dele, tocado a pele dele, foi em junho. Agora era novembro. O inverno estava chegando lá fora, e o outono tinha passado inteiro sem que eles dividissem um café da manhã. Cinco meses de chamadas de vídeo pixeladas. Cinco meses de mensagens de texto criptografadas que diziam "eu te amo", mas não podiam transmitir calor.

Ela parou na porta do quarto principal. Estava entreaberta. Ela deslizou para dentro como uma sombra, a respiração presa.

O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz difusa dos postes de Londres que filtrava através das cortinas semiabertas. E lá estava ele. James Buchanan Barnes. O Soldado Invernal. O homem mais perigoso do século XX. Dormindo.

Ele estava deitado de bruços, um braço (o de metal) pendurado para fora da cama, os dedos de vibranium quase tocando o chão. O rosto estava virado para o lado dela, amassado no travesseiro, os cabelos longos e castanhos espalhados, cobrindo parcialmente os olhos fechados. Ele respirava num ritmo lento e profundo. O peito largo subia e descia, a cicatriz no ombro visível na pouca luz.

Mas o que fez os olhos de Natasha arderem não foi vê-lo. Foi ver o resto da cama. O lado esquerdo — o lado dela — estava intacto. O travesseiro estava afofado. O lençol estava esticado, liso, perfeito. O edredom estava dobrado exatamente como ela gostava. Ele não tinha invadido o espaço dela. Ele não tinha espalhado coisas. Ele tinha mantido o lado dela preservado, um santuário vazio esperando pela deusa que nunca voltava. Era um ato de devoção silenciosa que gritava mais alto que qualquer poema. Você não está aqui, mas o seu lugar está.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora