Capitulo 9

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A lareira do escritório do diretor de Hogwarts crepitava com chamas verdes esmeralda, prontas para a viagem, mas o clima na sala era frio e sério.
Minerva McGonagall andava de um lado para o outro, a túnica arrastando no chão de pedra, as mãos entrelaçadas com força. Ela observava Albus Dumbledore, que terminava de colocar alguns frascos de poções e documentos em uma pequena bolsa de veludo com um feitiço indetectável de extensão.
— Albus, eu preciso perguntar novamente — disse Minerva, parando bruscamente. — Isso é... prudente? Estamos falando de uma organização militar trouxa. Eles têm armas que nem imaginamos. Satélites. Tecnologia.
Dumbledore fechou a bolsa calmamente e ajustou seus óculos de meia-lua.
— Eles são homens e mulheres da ciência, Minerva. Eles buscam entender o mundo através de dados, lógica e provas.
— Exatamente! — exclamou ela. — E como você pretende convencer um bando de cientistas céticos a entregar duas crianças que eles acreditam ser "armas biológicas"? Você vai chegar lá e dizer "Abracadabra"?
Dumbledore sorriu, aquele sorriso enigmático que irritava e acalmava Minerva na mesma medida.
— Eu pretendo convencê-los da única maneira que funciona com mentes lógicas que se deparam com o impossível, Minerva: contando a verdade. E mostrando a verdade.
Minerva apertou os lábios, nervosa.
— O Estatuto de Sigilo...
— Já foi quebrado no momento em que a Srta. Potter explodiu uma casa com a força de sua tristeza — interrompeu Dumbledore, suavemente. — A S.H.I.E.L.D. já sabe que eles não são normais. Tentar esconder a magia agora seria fútil. Precisamos mostrar a eles que o "anormal" tem nome, tem história e tem um lugar ao qual pertence.
Minerva suspirou, derrotada pela lógica do diretor.
— E se eles aceitarem? Se eles liberarem Harry e Emma? Para onde eles vão?
— Para A Toca — respondeu Dumbledore, com um brilho mais quente no olhar. — Recebi a coruja de volta de Molly Weasley esta manhã.
— E?
— Ela chorou de alegria, é claro. Disse que já está tricotando suéteres com as iniciais "H" e "E". Ela disse que onde comem sete, comem nove.
Minerva relaxou os ombros, aliviada.
— Molly é uma santa. Mas... Albus, os Weasleys são... bem, eles têm dificuldades financeiras. Dois a mais à mesa...
— Não será um peso, Minerva — garantiu Dumbledore. — James e Lilian deixaram uma pequena fortuna no Gringotes. O dinheiro é suficiente para sustentar Harry e Emma até a vida adulta e ainda sobraria. Já autorizei a transferência de fundos para cobrir todas as despesas das crianças enquanto estiverem sob o teto dos Weasleys. Roupas, livros, comida... Molly não precisará gastar um nuque.
— Ótimo. — Minerva ajeitou o chapéu pontudo. — Então o plano é sólido. Vamos lá, explicamos que são bruxos, mostramos um pouco de magia, pegamos as crianças e as levamos para uma família amorosa e mágica.
Dumbledore caminhou até a janela da torre, olhando para o horizonte. O sorriso desapareceu de seu rosto, substituído por uma expressão pensativa e preocupada.
— Há apenas um problema, Minerva.
— A S.H.I.E.L.D.? O tal Nick Fury?
— Não. Fury é um pragmático. Se oferecermos uma solução que tire um problema perigoso das mãos dele, ele aceitará. — Dumbledore tocou a barba prateada. — O problema é a Agente Romanoff.
Minerva franziu a testa.
— A mulher da foto? A espiã? Por que ela seria um problema? Ela é apenas uma guarda.
— Eu tenho observado... através de meios sutis — confessou Dumbledore. — Há algo estranho nessa conexão, Minerva. Algo que não deveria acontecer.
— Como assim?
— Emma Potter é uma criança ferida. A magia dela é volátil, defensiva. Ela deveria repelir estranhos. Mas com essa mulher... — Dumbledore balançou a cabeça, genuinamente intrigado. — A magia de Emma se acalmou. Ela se aninhou. Criou um laço.
Ele se virou para Minerva, o olhar azul penetrante.
— Você sabe tão bem quanto eu que a magia antiga, a magia baseada em emoção, é a força mais poderosa e imprevisível que existe. Aquele fogo não queimou a Srta. Romanoff. E a menina, que não confia em ninguém, entregou sua lealdade a ela em questão de horas.
— Talvez a mulher seja apenas... gentil? — sugeriu Minerva, incerta.
— Natasha Romanoff não é conhecida por sua gentileza. Ela é conhecida por sua eficiência letal. — Dumbledore suspirou. — Eu estou curioso, Minerva. Extremamente curioso para descobrir de onde surgiu essa conexão. Como a alma de uma criança quebrada encontrou refúgio na alma de uma mulher que, segundo todos os relatórios, acredita não ter uma.
Dumbledore caminhou de volta para a lareira, pegando um punhado de Pó de Flu.
— Meu medo não é que a S.H.I.E.L.D. recuse entregar as crianças. Meu medo é qual será a reação de Emma... e de Natasha... quando tentarmos separá-las.
— Você acha que ela vai lutar? — perguntou Minerva.
Dumbledore jogou o pó nas chamas, que subiram altas e verdes.
— Eu acho, minha cara professora, que estamos prestes a descobrir que a Viúva Negra é muito mais perigosa quando está protegendo alguém do que quando está caçando.
Ele entrou nas chamas.
— Vamos, Minerva. Washington nos espera.
O cursor piscava na tela do computador. Uma linha vertical branca em um mar de dados pretos. Pisca. Pisca. Pisca.
Natasha Romanoff estava sentada na escuridão de seu apartamento em Washington, iluminada apenas pelo brilho azulado do monitor. Ela não estava usando o traje tático de Kevlar, nem as jaquetas de couro caras que usava para projetar autoridade.
Ela vestia uma calça de moletom cinza larga e uma regata branca velha. Seus cabelos ruivos estavam molhados, pingando água fria sobre seus ombros nus, resultado de um banho que deveria ter lavado o estresse do dia, mas que não conseguiu limpar a confusão de sua mente.
Toc. Toc. Toc. Toc.
O dedo indicador de sua mão direita batia freneticamente na madeira da mesa. Um ritmo nervoso, irregular.
Na tela, janelas abertas de bancos de dados da Interpol, da KGB (arquivos que ela roubou anos atrás), do MI6 e até da CIA.
Pesquisa: James Potter. Lilian Potter. Acidentes rodoviários 1995. Orfanatos Surrey. Projetos Genéticos Não-Listados.
Resultados: Nada. Inconsistências. Vazio.
Natasha bufou, empurrando a cadeira para trás com violência. O som das rodinhas raspando no chão de madeira ecoou pelo apartamento silencioso.
— Não faz sentido — murmurou ela para as sombras.
Mas não era a falta de dados que fazia seu peito apertar. Ela era a Viúva Negra; ela estava acostumada a caçar fantasmas e desenterrar segredos. Falta de informação era apenas um quebra-cabeça.
O que a estava aterrorizando, o que fazia sua mão tremer levemente quando ela parava de bater na mesa, não era o mistério sobre o que eram as crianças.
Era o mistério sobre o que ela estava sentindo.
Natasha levantou-se e começou a andar. Da sala para a cozinha. Da cozinha para a sala. Um tigre enjaulado em seu próprio território.
Ela parou em frente à janela, olhando para as luzes da cidade.
— Por que ela? — perguntou Natasha ao reflexo no vidro.
Ela já tinha salvado crianças antes. Em Budapeste. Em São Paulo. Em Sokovia. Ela as tirava dos escombros, entregava para os paramédicos, garantia que estavam seguras e ia embora. Missão cumprida. Sem olhar para trás. Sem levar o trabalho para casa.
Mas com Emma...
Natasha fechou os olhos e a imagem veio sem pedir licença: o rosto sardento sujo de fuligem, os olhos verdes arregalados de medo, a mãozinha segurando o chocolate como se fosse ouro.
E aquela sensação.
No momento em que Natasha a viu no meio do fogo, algo dentro dela — algo que ela achava que a Sala Vermelha tinha cirurgicamente removido e cauterizado — tinha estalado.
Não foi pena. Pena é olhar de cima para baixo.
Não foi apenas dever. Dever é seguir ordens.
Foi... reconhecimento.
Foi uma atração gravitacional violenta. Como se, no meio de todo o caos do universo, a alma daquela menina tivesse a mesma frequência quebrada da sua.
Natasha passou a mão pelo rosto, frustrada.
— É irracional — disse ela, tentando invocar a lógica fria que a manteve viva por trinta anos. — É bioquímico. É uma resposta ao trauma compartilhado. É projeção.
Ela tentou dissecar o sentimento como se fosse um cadáver numa autópsia.
Teoria 1: Ela é ruiva.
Ridículo. A cor do cabelo não cria laços de sangue.
Teoria 2: Ela é órfã e sofreu abuso.
O mundo está cheio de órfãos. Natasha não podia adotar todos.
Teoria 3: Ela é perigosa e precisa de controle.
A S.H.I.E.L.D. tem celas para isso. Natasha não precisava ser a carcereira.
Mas nenhuma teoria explicava a dor física que ela sentiu quando viu o pulso roxo da menina. Nenhuma lógica explicava por que, quando Emma sorriu vestindo aquela blusa preta, Natasha sentiu, pela primeira vez em anos, que tinha feito algo que realmente importava. Mais do que salvar o mundo de alienígenas.
Ela tinha salvado o mundo daquela menina.
Natasha caminhou até a cozinha e serviu um copo de água, mas não bebeu. Ela ficou encarando a água tremer dentro do copo.
— Eu não sou mãe — sussurrou ela, a voz falhando. — Eu não posso ser. Eu sou veneno.
Ela olhou para suas mãos. Mãos que sabiam 50 formas de matar um homem com objetos domésticos. Mãos manchadas de vermelho, metaforicamente e, muitas vezes, literalmente.
Como essas mãos poderiam pentear um cabelo sem puxar? Como poderiam proteger sem sufocar?
E, no entanto...
A lembrança do cheiro de Emma — fumaça, chocolate e xampu barato do hospital — invadiu seu olfato. A sensação do peso da cabeça da menina em seu ombro.
Natasha percebeu, com um pavor gelado, que já era tarde demais para racionalizar.
O "imprinting" tinha acontecido. Como uma loba que encontra um filhote perdido na neve e decide, contra todas as leis da sobrevivência, que aquele filhote agora faz parte da alcateia.
— Custe o que custar — a frase saiu de sua boca antes que ela pudesse filtrá-la.
Natasha largou o copo na pia com força. O som de vidro batendo em metal foi o ponto final de sua crise.
Ela não sabia por que sentia aquilo. Não sabia explicar a conexão mágica, o fio invisível que parecia ter sido costurado entre o coração dela e o da menina no momento daquele incêndio. Ela não sabia se era destino, acaso ou alguma maldição cósmica.
Mas ela sabia de uma coisa.
Ela voltou para o computador, sentou-se na cadeira e fechou todas as janelas de pesquisa inúteis.
O cursor piscou.
Natasha abriu um novo arquivo. Um arquivo pessoal, criptografado, fora dos servidores da S.H.I.E.L.D.
Nome do Arquivo: Protocolo Little Red.
Ela começou a digitar. Não teorias sobre a origem deles. Mas planos. Rotas de fuga. Esconderijos seguros. Listas de suprimentos. Contatos mercenários que deviam favores a ela.
Se a S.H.I.E.L.D. tentasse machucá-los... ela os tiraria de lá.
Se a HYDRA viesse... ela os mataria.
Se o mundo tentasse quebrar a menina de novo... Natasha quebraria o mundo.
Ela podia não entender o amor. Ela podia negar que tinha um coração. Mas ela entendia de proteção. E naquela noite, com o cabelo molhado e o pijama velho, Natasha Romanoff aceitou sua nova missão.
Não era uma missão de vingança. Era uma missão de guarda.
E Deus tenha piedade de quem tentasse passar por ela.
O escritório de Nick Fury no topo do Triskelion era a fortaleza dentro da fortaleza. Paredes à prova de som, vidros blindados capazes de resistir a um disparo de tanque e sensores biométricos que detectavam até a mudança na frequência cardíaca de uma mosca.
Fury estava de pé, de costas para a porta, olhando para Washington D.C. através da janela panorâmica. Ele segurava um telefone criptografado junto ao ouvido.
— Eu não me importo com o que o Conselho diz, Pierce — rosnou Fury, a voz baixa e perigosa. — Nós não vamos arquivar isso. As crianças são uma variável desconhecida. Se a HYDRA as quer, significa que elas são valiosas. E se são valiosas, ficam comigo.
Ele fez uma pausa, ouvindo a resposta do outro lado.
— Não. Eu não vou mandar amostras de sangue para o laboratório de Zurique. Encerre o assunto. Fury desligando.
Ele encerrou a chamada com um toque agressivo na tela e soltou um suspiro cansado. Política. Ele odiava política. Era mais fácil lutar contra alienígenas.
Fury girou nos calcanhares para voltar à sua mesa e pegar seu café.
E congelou.
O café ficou esquecido.
Sentado confortavelmente em uma das cadeiras de couro diante de sua mesa, estava um homem.
Ele era muito velho, com uma barba prateada tão longa que poderia ser usada como cinto. Usava vestes longas de um veludo roxo extravagante, bordadas com estrelas douradas, e óculos em formato de meia-lua pousados na ponta de um nariz torto.
E, sentado sobre a mesa de vidro de alta tecnologia de Fury, ao lado do teclado holográfico, estava um gato malhado com marcas estranhas em volta dos olhos, observando o Diretor da S.H.I.E.L.D. com uma inteligência perturbadora.
— Jesus Cristo! — gritou Fury.
O reflexo foi instantâneo. Antes que seu cérebro pudesse processar a impossibilidade daquela imagem, sua mão direita já tinha sacado a Glock 17 do coldre.
Ele apontou a arma diretamente para a testa do velho barbudo.
— PARADO! — berrou Fury. — COMO VOCÊ ENTROU AQUI?
O alarme silencioso deveria ter disparado. Os sensores de movimento deveriam ter ativado as torres de defesa. Mas nada aconteceu. O prédio estava silencioso.
O velho não levantou as mãos. Ele nem sequer piscou diante do cano da arma. Ele apenas sorriu, cruzando os dedos longos sobre o colo.
— Boa tarde, Diretor Fury — disse o homem. Sua voz era calma, profunda e tinha um tom de quem estava acostumado a ser ouvido, não ameaçado. — Peço desculpas pela intrusão. O sistema de segurança da entrada parecia... pouco convidativo.
— Quem é você? — Fury destravou a arma. Seu olho único varria a sala em busca de mais intrusos. — Como passou pelos sensores térmicos?
— Ah, tecnologia — disse o velho, como se falasse de um brinquedo curioso. — Fascinante, mas cheia de buracos, se souber onde procurar. Meu nome é Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore. Mas pode me chamar apenas de Professor Dumbledore.
Fury não abaixou a arma.
— "Professor"? Você tem cinco segundos para me dar um motivo para eu não espalhar seu cérebro "mágico" nessa cadeira. Um...
O gato malhado sobre a mesa se levantou.
Fury desviou o olhar por uma fração de segundo. O gato saltou da mesa para o chão.
Mas ele não pousou como um gato.
No meio do ar, a forma do animal se distorceu, alongou-se e girou num redemoinho de tecido xadrez. Quando as patas tocaram o chão, não eram patas. Eram botas pretas de abotoar.
O gato tinha sumido. Em seu lugar, estava uma mulher alta, de aparência severa, vestindo roupas verdes esmeralda e um chapéu pontudo, ajeitando os óculos quadrados.
Minerva McGonagall olhou para a arma de Fury com desdém, como se fosse um talher mal colocado à mesa.
— Guarde isso, Sr. Fury — disse ela, com a voz ríspida de uma professora repreendendo um aluno bagunceiro. — Se quiséssemos machucá-lo, o senhor já seria um buquê de flores ou um relógio de parede.
Fury deu um passo para trás, a arma ainda erguida, mas tremendo levemente pela primeira vez em anos.
— Metamorfos... — sussurrou ele. — Skrulls?
— Bruxos — corrigiu Dumbledore, suavemente. — Creio que a terminologia correta no seu mundo seja "mágica", embora vocês insistam em não acreditar nela.
Fury olhou de Dumbledore para Minerva. A transformação tinha sido perfeita. Sem tecnologia. Sem hologramas. Matéria mudando de forma instantaneamente.
Sua mente analítica tentou encontrar uma explicação científica, mas falhou.
— O que vocês querem? — perguntou Fury, finalmente abaixando a arma, mas sem guardá-la. Ele sabia que se eles podiam virar gatos, uma bala não faria muita diferença.
— Viemos buscar o que nos pertence — disse Dumbledore, o brilho divertido sumindo dos olhos azuis, substituído por uma seriedade inabalável. — Harry James Potter. E Emma Lilian Potter.
O nome das crianças fez Fury endurecer.
— Eles são ativos da S.H.I.E.L.D. sob custódia protetiva.
— Eles são bruxos, Nicholas — disse Dumbledore, usando o primeiro nome dele com uma familiaridade desconcertante. — E nós viemos levá-los para casa.
Minerva deu um passo à frente.
— Você vai querer ouvir o que temos a dizer, Diretor Fury. A menos que prefira que a menina exploda este prédio inteiro na próxima vez que se assustar com um de seus cientistas.
Fury olhou para os dois. Ele pensou nas luzes piscando. No fogo inexplicável. Na cicatriz cirúrgica. Nas teorias falhas sobre a HYDRA.
De repente, a peça que faltava no quebra-cabeça caiu no lugar. E a imagem era absurda.
Ele estendeu a mão lentamente para o painel de comunicação em sua mesa, sem tirar os olhos dos invasores.
— Não tentem nada — avisou ele.
— Estamos apenas esperando — disse Dumbledore, pegando uma bala de limão do bolso e oferecendo a Fury. — Aceita? É um sorvete de limão, muito bom.
Fury ignorou o doce e apertou o botão vermelho do intercomunicador.
— Hill. Barton. Romanoff. — Sua voz soou por todo o sistema de prioridade máxima do prédio. — Compareçam à minha sala. Agora. Código Vermelho. E Romanoff...
Ele olhou para Dumbledore, que sorria para ele.
— ...venha armada

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora