Sala de Estar do Chalé. Sexta-feira, 10:30 da Manhã.
A tempestade lá fora tinha cessado, deixando para trás um céu branco e silencioso, típico do inverno que se recusava a ir embora. Dentro do chalé, a atmosfera era de um abrigo antiaéreo após o bombardeio.
Os quatro amigos estavam amontoados no sofá em L, buscando um calor que o fogo na lareira não conseguia fornecer sozinho. Emma estava sentada ao lado de Harry. Ela não estava apenas perto; ela estava colada nele. A cabeça ruiva descansava no ombro do irmão, os olhos fechados, a respiração sincronizada com a dele. Harry, com o braço enfaixado repousando no colo, encostava a cabeça na de Emma. Eles pareciam dois náufragos agarrados ao mesmo pedaço de madeira.
Do outro lado, Ron e Hermione estavam sentados no tapete felpudo, encostados no sofá, perto das pernas de Harry e Emma. Mas algo tinha mudado na dinâmica deles. Geralmente, havia um espaço seguro de trinta centímetros entre Ron e Hermione. Hoje, não havia espaço nenhum. O braço de Ron roçava no de Hermione. O joelho dele tocava o dela. E, inconscientemente, a mão de Hermione estava pousada sobre a manga do suéter de Ron, apertando o tecido de vez em quando.
O silêncio durou muito tempo. Era o silêncio de quem viu coisas que crianças de quatorze anos não deveriam ver.
— As coisas vão mudar agora, não vão? — Hermione perguntou. A voz dela era baixa, quase um sussurro, quebrando a quietude. Ela olhava para as chamas, não para os amigos. — A escola... as aulas... tudo isso parece tão pequeno agora.
Emma soltou um suspiro longo, trêmulo, sem levantar a cabeça do ombro de Harry. — Tudo mudou ontem à noite, Mione. O mundo que a gente conhecia acabou quando aquela taça caiu na grama.
Harry endureceu a postura. Ele desencostou a cabeça da de Emma e olhou para frente, o maxilar trincado. — Não pra vocês — Harry disse, a voz rouca, mas firme. Ele olhou para Ron e Hermione. — Essa luta... não é de vocês. — O Voldemort quer a mim. Ele quer a Emma. Nós somos os alvos. A profecia, o sangue, a conexão... é tudo conosco.
Harry tentou afastar a perna, criando distância física. — Eu não quero que vocês se machuquem. Vocês podem sair. Vocês podem fingir que não são nossos amigos. É mais seguro.
Houve um segundo de silêncio chocado. Então, Hermione Granger se virou. A expressão no rosto dela não era de medo. Era de fúria. A fúria leal e aterrorizante de uma Grifinória.
— Não ouse — Hermione sibilou, os olhos marejados faiscando. — Não ouse terminar essa frase, Harry James Potter.
— Mione, eu só estou tentando... — Harry começou.
— Você está tentando ser um mártir idiota! — Hermione o cortou, a voz subindo de tom. — Você acha que a gente é o quê? Espectadores? Fãs? — Nós somos seus amigos! Nós passamos pelo alçapão, pelo Basilisco, pelo lobisomem! Nós estamos nisso até o pescoço, queira você ou não!
Ela se levantou, andando de um lado para o outro na frente da lareira, gesticulando. — E não esqueça, Harry... não esqueça do que a Emma viu. Hermione parou e apontou para Emma, que se encolheu um pouco. — O Voldemort não ameaçou apenas vocês dois. — Ele ameaçou a sua mãe, Emma.
O ar na sala ficou gelado. — Ele disse, com todas as letras, que não ia descansar enquanto não a visse numa poça de sangue — Hermione continuou, brutalmente honesta, porque a situação exigia brutalidade. — Ele disse que ia quebrá-la na sua frente. — Acha mesmo que podemos "dar um passo atrás" quando ele declarou guerra à única adulta que realmente protegeu a gente esse ano todo?
Ron se levantou também, ficando ao lado de Hermione. Ele colocou a mão no ombro dela, apoiando-a, e olhou sério para Harry. — Ela tem razão, companheiro. Se ele quer a Sra. Romanoff, ele vai ter que passar por nós também. A gente não abandona a família. E, bem... ela meio que adotou a gente, não é?
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
