Capitulo 6

1.1K 114 15
                                        

O cheiro de bacon e ovos esfriava no carrinho de metal, mas o silêncio no quarto ainda era quente e pesado.
Harry tinha voltado a comer, devorando as panquecas com uma urgência que fazia o estômago de Natasha revirar — ela conhecia aquele tipo de fome. Era a fome de quem aprendeu a comer rápido porque não sabe quando será a próxima refeição. Mas Emma... Emma continuava imóvel, sentada com as pernas cruzadas na cama, as mãos escondidas dentro das mangas compridas da camisola hospitalar.
Natasha suspirou, puxando uma cadeira de plástico para perto da cama da menina.
— Você precisa comer, Emma — disse Natasha, a voz suave, mas firme. — Seu corpo precisa de combustível para sarar.
Emma olhou para o prato, depois para a porta fechada, como se esperasse uma invasão.
— Eles não vão brigar? — sussurrou ela.
— Quem?
— Os donos da comida. — Emma encolheu os ombros, um gesto pequeno e defensivo. — Tio Vernon sempre dizia que a gente roubava a comida da boca do Dudley.
Natasha trincou o maxilar, sentindo um gosto amargo na boca.
— Essa comida é sua — garantiu Natasha, lutando para manter a voz calma. — Ninguém vai gritar. Ninguém vai bater. Pode comer.
Emma hesitou, mas a fome falou mais alto. Ela estendeu a mão direita para pegar um pedaço de torrada.
Foi então que a manga da camisola escorregou, revelando o pulso da menina. A pele pálida estava marcada com hematomas roxos e esverdeados, marcas inconfundíveis de dedos grandes e fortes que apertaram com violência.
O instinto de Natasha disparou. Antes que ela pudesse se conter, ela segurou a mão de Emma gentilmente.
— Quem fez isso? — perguntou Natasha. A suavidade tinha sumido, substituída por um frio mortal.
Emma tentou puxar o braço, assustada, mas Natasha transformou o aperto em um carinho, passando o polegar levemente sobre o hematoma.
— Emma... — Natasha olhou no fundo dos olhos verdes. — Quem machucou seu pulso? Foi no incêndio?
A menina negou com a cabeça.
— Foi... foi antes — gaguejou Emma.
— Me conte.
Emma respirou fundo, o peito subindo e descendo irregularmente.
— Eu estava com muita fome — começou ela, a voz falhando. — Tinha dois dias que a gente não jantava. A tia Petúnia disse que a gente não tinha terminado de limpar o jardim direito, então não merecia comida.
Natasha sentiu o sangue ferver. Privação de alimento. Trabalho forçado.
— Eu esperei eles dormirem — continuou Emma. — Eu fui até a cozinha. Eu sabia que não podia... mas o Harry estava com dor na barriga de fome. Tinha um pote de cookies em cima da geladeira. Eram do Dudley. Eu subi na cadeira... peguei um. Só um.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Emma.
— Mas a tia Petúnia apareceu. Ela agarrou meu braço. Muito forte. Ela apertou e me puxou da cadeira...
A menina olhou para o próprio pulso roxo.
— Ela me jogou no chão da cozinha. Ela gritou... disse que eu era uma ladra ingrata. Disse que aqueles cookies eram para o filho dela, o anjinho dela... e não para...
Emma parou, a voz sumindo.
— Não para o quê? — perguntou Natasha.
— ...não para dois bastardos podres — sussurrou Emma. A palavra pairou no ar, feia e cruel. — Ela disse que a gente era podre. Que devíamos ter morrido com nossos pais.
Harry, na cama ao lado, parou de comer e cobriu o rosto com as mãos.
Natasha teve que fazer um esforço físico para não quebrar a cadeira onde estava sentada.
— E depois? — perguntou Natasha. — O que aconteceu depois que ela te jogou no chão?
— Eu fiquei com raiva — confessou Emma. — Muita raiva. Eu levantei e corri pro meu quarto, embaixo da escada. Eu bati a porta com toda a força que eu tinha. Eu queria nunca mais ver a cara deles.
Emma fungou, limpando o nariz.
— Eu sentei no meu colchão. Eu estava chorando. E aí... ficou tudo muito quieto. O Harry estava dormindo no canto dele.
Natasha se inclinou para frente.
— Quieto como?
— Silêncio mesmo. A TV desligou. A tia Petúnia parou de gritar. — Emma franziu a testa, confusa. — E aí começou a esquentar. Eu senti um cheiro estranho. Cheiro de fumaça.
— Você viu fogo dentro do armário?
— Não no começo. Veio de fora. Eu vi uma luz laranja por baixo da porta. — Os olhos de Emma se arregalaram, revivendo o terror. — Eu tentei abrir a porta, mas a maçaneta estava pelando. E aí... fez um barulho enorme. Cabum!
Ela fez um gesto de explosão com as mãos.
— O teto do armário quebrou. Caiu muita madeira. Um pedaço bateu aqui — Emma tocou o topo da cabeça, onde havia um pequeno curativo. — Doeu muito. Tudo ficou preto e cheio de fumaça. Eu não conseguia respirar. Eu desmaiei. E depois... eu acordei aqui.
Emma olhou para Natasha, os olhos cheios de inocência e medo.
— Eu não sei como começou, Natasha. Eu juro. Eu só bati a porta e fui sentar na cama. Será que... será que o fogão explodiu? Ou foi um acidente?
Natasha olhou para a menina.
Emma não sabia. Ela realmente não sabia.
Mas Natasha sabia. Ela podia conectar os pontos. A raiva extrema. O insulto "bastardos podres". A porta batendo. E, segundos depois, um incêndio devastador que consumiu a casa inteira, mas deixou as crianças vivas no epicentro.
Não foi o fogão. Foi a menina. A raiva dela tinha se manifestado fisicamente. Ela era o incêndio.
Mas Natasha não podia dizer isso. Não agora. Não quando Emma olhava para ela como se fosse a única tábua de salvação num mar revolto.
Natasha se levantou e sentou na beira da cama. Ela puxou Emma para um abraço, protegendo-a do mundo e da verdade, pelo menos por enquanto.
— Shh, está tudo bem — sussurrou Natasha, acariciando o cabelo ruivo. — Não importa como começou. Importa que acabou.
— Eles morreram? — perguntou Emma contra o peito de Natasha.
— Sim — respondeu Natasha, sem rodeios. Ela não mentiria sobre a morte. — Eles se foram.
Emma ficou em silêncio por um longo tempo. Ela não chorou pelos tios. Ela apenas apertou a jaqueta de Natasha.
— Então a gente não tem pra onde ir — constatou a menina, a voz trêmula, olhando para as próprias mãos machucadas. — Ninguém quer bastardos podres.
Natasha sentiu um aperto no peito, uma vontade súbita e perigosa de dizer "eu quero". Mas ela mordeu a língua. Ela engoliu as palavras.
Quem era ela para querer crianças? Ela era uma assassina. Uma ex-espiã da KGB. Sua vida era feita de missões suicidas, quartos de hotel baratos e sangue. Ela não sabia fazer panquecas. Ela não sabia ajudar com dever de casa. Ela sabia desmontar armas e quebrar pescoços.
Eles mereciam cercas brancas. Cachorros. Pais que voltavam para casa às cinco da tarde e não tinham arquivos confidenciais ou inimigos globais.
Natasha afastou Emma levemente, segurando-a pelos ombros. Ela vestiu sua máscara profissional, embora seus olhos ainda traíssem uma suavidade rara.
— Escute bem, Emma — disse Natasha, firme. — Você não é um bastardo. E você não é podre. O que a sua tia disse era mentira.
— Mas se não temos casa... — Emma começou, os olhos cheios de lágrimas.
— A S.H.I.E.L.D. tem recursos — cortou Natasha, a voz voltando a ser prática, quase fria. — Nós somos bons em encontrar lugares. Vamos achar uma família para vocês.
Emma piscou, confusa. A esperança murchou um pouco em seu rosto.
— Uma família?
— Uma família de verdade — insistiu Natasha, tentando convencer a si mesma tanto quanto a menina. — Uma família com uma casa grande, sem armários embaixo da escada. Pessoas gentis. Que vão dar comida, roupas e brinquedos. Pessoas... normais.
Harry, que ouvia da outra cama, parou de mastigar. Emma olhou para Natasha com uma intensidade que fez a espiã querer desviar o olhar.
— E você? — perguntou Emma, num fio de voz.
Natasha soltou os ombros da menina e se levantou, colocando uma distância física entre elas. Era necessário.
— Eu sou uma agente, Emma. Eu moro em aviões e bases militares. Minha vida é... perigosa. Não é lugar para crianças.
— Mas você salvou a gente — argumentou Emma. — Você é segura.
— Eu sou eficiente — corrigiu Natasha, cruzando os braços, a armadura voltando ao lugar. — É diferente de ser segura. Vocês precisam de estabilidade. E eu vou garantir que a S.H.I.E.L.D. encontre a melhor família possível. Alguém que nunca, jamais, vai trancar comida longe de vocês.
Ela pegou a torrada que tinha caído e colocou na mão de Emma.
— Agora coma. O Dr. Banner vem aí em breve para examinar vocês. Precisam estar fortes para quando encontrarmos esse novo lar.
Emma olhou para a torrada, depois para Natasha. Ela não discutiu. Ela era uma criança acostumada a obedecer adultos para sobreviver. Mas o brilho em seus olhos verdes apagou um pouco. Ela assentiu, silenciosa, aceitando que aquela mulher incrível de cabelo vermelho era apenas mais uma passagem, não um destino.
Natasha viu a decepção no rosto da menina e sentiu como se tivesse levado um tiro no colete. Doeu. Mas ela disse a si mesma que era o certo. Eu sou veneno, pensou Natasha enquanto caminhava em direção à porta. Eles precisam de cura.
Mas enquanto saía do quarto, Natasha não conseguiu evitar olhar para trás uma última vez. E a imagem das duas crianças sozinhas naquele quarto estéril fez sua convicção tremer mais do que ela gostaria de admitir.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora