Capitulo 85

162 16 18
                                        

O escritório estava mergulhado na penumbra, as persianas automáticas fechadas contra a manhã cinzenta de Londres. A única luz vinha do brilho azulado de três monitores de alta definição dispostos na parede oposta à mesa de Natasha.

Não era uma transmissão pública. Era um feed criptografado, pirateado diretamente do sistema de segurança interna do Tribunal Internacional de Justiça em Haia. Se alguém descobrisse que a Diretora do MI6 estava hackeando a ONU, haveria um incidente internacional antes do almoço.

Mas Natasha não se importava.

Ela estava sentada na ponta da cadeira, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos como mármore.

Clint Barton estava ao lado dela, sentado na beirada da mesa de mogno. Ele não falava. Apenas girava um copo de uísque barato (que ele trouxera no bolso do casaco, ignorando o bar caro de Natasha) entre as mãos.

Na tela central, a imagem era nítida demais. Brutal demais.

O tribunal era uma câmara circular, asséptica, intimidante. Paredes de madeira escura, o brasão das Nações Unidas, e uma galeria cheia de diplomatas, generais e famílias de vítimas.

E no centro, dentro de uma cabine de vidro blindado — uma gaiola moderna para um monstro antigo —, estava James Buchanan Barnes.

Ele usava um terno cinza escuro que parecia apertado demais em seus ombros largos. O cabelo estava cortado, a barba feita. Ele parecia humano. Tragicamente, dolorosamente humano. A mão de carne estava sobre a mesa à sua frente. A mão de metal estava escondida sob a mesa, como se ele tivesse vergonha do que ela representava.

— Ele parece cansado — Clint murmurou, quebrando o silêncio do escritório.

— Ele não dorme há três dias — Natasha respondeu, a voz rouca. Ela sabia. Ela sentia a insônia dele através do Canal da Mancha.

O Promotor Chefe, um homem suíço chamado Dr. Vogel, levantou-se. Ele era magro, com óculos de aros finos e uma voz que cortava como bisturi. Ele não precisava gritar. Ele tinha os fatos.

— Senhoras e senhores do júri, meritíssimos juízes — Vogel começou, caminhando lentamente diante da gaiola de vidro. — Não estamos aqui hoje para julgar um homem. Estamos aqui para decidir o destino de uma arma.

Natasha estremeceu. Clint colocou a mão no ombro dela, um peso de ancoragem.

— A defesa alega que o Sargento Barnes é uma vítima — Vogel continuou, apontando um dedo acusador para James, que manteve o olhar fixo na mesa. — Eles falam de controle mental. De tortura. De privação de vontade. E nós não negamos a ciência da Hydra. Mas...

Vogel se virou para a tela gigante no tribunal, onde começaram a passar fotos. Eram fotos de cenas de crime. Um carro em chamas em 1963. Um quarto de hotel manchado de sangue em 1974. O rosto de Howard Stark. O rosto de Maria Stark. Diplomatas, cientistas, testemunhas.

— Duzentos e doze — Vogel disse o número. — Duzentas e doze vidas confirmadas. Sem contar os danos colaterais. Duzentas e doze famílias destruídas.

Natasha sentiu a bile subir na garganta. Ela conhecia aquele número. Ela tinha seus próprios números na sua conta, gotejando vermelho em seu livro contábil.

— Pode-se lavar o cérebro de um homem — Vogel disse, aproximando-se do vidro. — Mas pode-se lavar o sangue de suas mãos? Pode-se confiar que a arma não disparará novamente? O Soldado Invernal foi o assassino mais eficiente do século XX. O Sargento Barnes diz que o Soldado está morto. Mas a mão que puxou aqueles gatilhos... — Vogel olhou para o braço esquerdo de James. — ...a mão ainda está aí.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora