O som no convés do Helicarrier da S.H.I.E.L.D. era sempre o mesmo: um zumbido baixo, constante e vibrante que entrava pelos ossos. Para a maioria dos agentes, era apenas barulho branco. Para Natasha Romanoff, era o som de que ela estava longe do chão, longe de qualquer lugar que pudesse chamar de casa, suspensa em um limbo de segredos e ordens governamentais.
Ela estava parada diante da enorme janela de vidro reforçado da sala de reuniões, observando as nuvens passarem lá fora. O reflexo no vidro lhe devolvia uma imagem que ela conhecia bem, mas com a qual nunca se sentia inteiramente confortável: cabelos ruivos curtos, postura rígida, o uniforme tático preto ajustado como uma segunda pele. A Viúva Negra.
— Você está pensando alto demais, Nat. — A voz veio de trás, acompanhada pelo som rítmico de botas militares.
Natasha não se virou. Ela conhecia aquele passo. O peso, a cadência, a leve irregularidade no pé esquerdo que ele insistia em dizer que não existia.
— E você está atrasado, Barton — respondeu ela, seus olhos ainda fixos na linha do horizonte onde o sol começava a se pôr, tingindo as nuvens de um laranja violento.
Clint Barton parou ao lado dela, cruzando os braços. Ele parecia cansado, com olheiras fundas que a iluminação artificial da sala só acentuava. Ele segurava um copo de café descartável como se fosse a única coisa que o mantinha em pé.
— Atrasado não. — Ele tomou um gole, fazendo uma careta. — Taticamente retardado. O Fury já chegou?
— Estou aqui há cinco minutos, Agente Barton. — A voz de Nick Fury cortou o ar como um chicote.
Os dois se viraram imediatamente. O diretor da S.H.I.E.L.D. entrou na sala, o longo casaco de couro preto balançando atrás dele. O único olho visível de Fury varreu a sala, parando nos dois seus melhores agentes. Ele não parecia feliz. Mas, para ser justa, Natasha raramente vira Nick Fury feliz.
Ele jogou uma pasta física sobre a mesa de metal fria. Nada digital. O que significava que era algo que eles não queriam nos servidores. Algo perigoso.
— O que temos? — Natasha perguntou, aproximando-se da mesa. Ela abriu a pasta.
O arquivo sobre a mesa de vidro era fino. Fino demais para ter feito Nick Fury convocar dois de seus melhores agentes às três da manhã de uma terça-feira chuvosa.
Natasha Romanoff folheou as páginas com um desinteresse calculado. Fotos de satélite de um subúrbio inglês. Gramados verdes, carros populares, cercas brancas. O tipo de lugar onde o maior crime cometido era deixar a lixeira na rua no dia errado.
— Surrey? — Clint Barton perguntou, apoiado na parede com os braços cruzados, girando uma ponta de flecha entre os dedos. — Achei que a gente ia para Budapeste. Ou Madri.
— Little Whinging, para ser exato — corrigiu Fury, seu olho único fixo na tela holográfica à frente. — Rua dos Alfeneiros, número 4.
— E o que a S.H.I.E.L.D. perdeu num bairro de classe média na Inglaterra? — Natasha jogou a pasta de volta na mesa. — Isso parece trabalho para a polícia local, Nick. Ou para o controle de pragas.
Fury digitou um comando e o mapa holográfico mudou. Em vez de ruas e casas, agora mostrava leituras térmicas e de energia. Um ponto vermelho pulsava violentamente sobre a casa número 4.
— Nas últimas duas semanas, nossos satélites de vigilância global detectaram picos de energia não identificada vindo dessa residência — explicou Fury. — Não é radiação gama. Não é assinatura de calor convencional. E definitivamente não é elétrico.
— O que é, então? — Clint se aproximou, interessado.
— Meus analistas não sabem. — A admissão parecia ter um gosto amargo na boca do diretor. — É volátil. Caótico. E, curiosamente, indetectável para qualquer tecnologia que não seja a nossa de ponta. A teoria principal? A HYDRA.
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Daughter of No One
FanficHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
