Capitulo 11

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O ar do campo inglês tinha um cheiro diferente do ar condicionado estéril da S.H.I.E.L.D. ou da poluição de Londres. Cheirava a grama cortada, terra úmida e, inexplicavelmente, pólvora e biscoitos de gengibre.
Harry e Emma estavam parados diante de um portão de madeira torto, olhando para a construção mais estranha e maravilhosa que já tinham visto.
A casa parecia ter sido construída por alguém que nunca ouviu falar da lei da gravidade. Eram vários andares empilhados de forma precária, chaminés tortas soltando fumaça colorida, e galinhas gordas ciscando pelo jardim, que era tomado por botas de borracha e caldeirões velhos.
Não era uma mansão. Não era uma base militar. Era... um lar.
— É... incrível — sussurrou Harry, os olhos brilhando por trás dos óculos. Para um menino que viveu num armário, aquela bagunça mágica era um palácio.
Emma segurou a mão do irmão com força. Ela ainda usava a blusa preta de gola alta que Natasha lhe dera. Era sua segunda pele agora. Ela olhou para a casa e sentiu medo — medo de que fosse bom demais, medo de estragar tudo.
Minerva McGonagall, que tinha viajado com eles (enquanto Dumbledore aparataram na frente para avisar), percebeu a tensão nos ombros da menina.
A professora rígida, que raramente demonstrava afeto em público, fez algo surpreendente. Ela se abaixou, ficando na altura das crianças, ignorando a lama na barra de suas vestes esmeralda.
Ela pegou a mão livre de Emma e a acariciou com seus dedos longos.
— Não precisa ter medo, Emma — disse Minerva, a voz embargada por uma suavidade rara. — Eu olho para você e vejo Lilian Evans. Você é a imagem da sua mãe. A mesma força, o mesmo fogo.
Emma piscou, surpresa. Ninguém nunca falara de sua mãe com tanto carinho.
Minerva virou-se para Harry e ajeitou a franja dele, revelando a cicatriz, mas olhando nos olhos.
— E você, Harry... você é a cara do seu pai, James. O mesmo cabelo indomável, o mesmo talento para atrair confusão. Mas tem os olhos da sua mãe. Olhos gentis.
— Eles eram legais? — perguntou Harry.
— Eram os melhores bruxos que já conheci — garantiu Minerva. — E eles ficariam muito felizes de ver vocês aqui, seguros.
Ela se levantou, ajeitando a postura.
— As aulas em Hogwarts só começam em setembro. Daqui a sete meses, logo depois do aniversário de onze anos de vocês. Até lá, vocês precisam ser crianças. Precisam brincar. Precisam comer. E a família Weasley... bem, eles são especialistas nisso.
Como se fosse uma deixa ensaiada, a porta da frente da casa se abriu com um estrondo.
Uma mulher baixa, rechonchuda e com um rosto bondoso correu pelo caminho de pedras, secando as mãos num avental florido. Cabelos ruivos escapavam de seu coque, voando em todas as direções.
— Ah, graças a Merlin! Vocês chegaram! — gritou Molly Weasley, abrindo os braços enquanto corria.
Ela não parou para apresentações formais. Ela envolveu Harry e Emma num abraço esmagador, cheirando a sabão e bolo recém-assado.
— Olhe para vocês! Tão magrinhos! Tão pálidos! — Molly se afastou um pouco, segurando o rosto de Harry com as duas mãos, examinando-o como uma mãe ursa. — Aquele Dumbledore me contou tudo. Aqueles trouxas horríveis! Mas acabou, ouviram? Acabou.
Emma ficou rígida no abraço no início, mas a energia de Molly era tão genuinamente calorosa que foi impossível não relaxar um pouco.
— Venham, venham! O jantar está quase pronto! — Molly os empurrou gentilmente em direção à casa. — Arthur está no trabalho, mas as crianças estão loucas para conhecer vocês.
Ao entrarem na cozinha — um lugar onde as louças se lavavam sozinhas e um relógio na parede tinha ponteiros com nomes de pessoas em vez de números — eles foram cercados por um mar de cabelos ruivos.
— Fred! George! Parem de tentar encantar o gato! — gritou Molly para dois gêmeos idênticos que sorriam de forma travessa. — Percy, tire o nariz desse livro e diga olá!
Um garoto alto e desengonçado, com o rosto cheio de sardas e nariz comprido, deu um passo à frente, parecendo tão nervoso quanto Harry.
— Oi — disse ele. — Eu sou o Ron.
Harry sorriu, aliviado por ver alguém da sua idade que parecia normal (para os padrões bruxos).
— Eu sou o Harry.
— Eu sei! — Ron arregalou os olhos. — Você tem mesmo a... sabe?
Harry riu e levantou a franja. Ron soltou um "uau" sincero. Em segundos, os dois já estavam conversando sobre o tênis de Harry e sobre sapos de chocolate, uma amizade instantânea nascendo ali, entre o cheiro de comida e a magia doméstica.
Emma ficou um pouco mais atrás, encostada no batente da porta. Ela observava a cena: os gêmeos rindo, o tal Percy cumprimentando formalmente, uma menininha pequena (Ginny) espiando timidamente da escada.
Era barulhento. Era quente. Era colorido. Era tudo o que Natasha tinha prometido: "Uma família legal. Com jardim e comida."
Molly notou a menina quieta no canto. Ela se aproximou devagar, limpando as mãos no avental novamente.
— E você deve ser a Emma — disse Molly, com uma voz mais baixa, maternal. — Que blusa bonita, querida. Muito chique.
Emma tocou a gola alta preta.
— Obrigada, Sra. Weasley.
— Me chame de Molly, querida. Ou tia Molly. — Ela olhou para Emma com ternura. — Eu sei que é tudo muito novo e assustador. Mas aqui ninguém vai te machucar. Você tem um lugar aqui, Emma. Onde comem sete, comem nove.
Emma olhou para o rosto bondoso de Molly. Ela forçou um sorriso. Era um sorriso verdadeiro, de gratidão. Ela estava feliz por não estar mais com os Dursley. Estava feliz por ter comida.
— Obrigada, Molly — disse Emma.
Molly se inclinou e beijou o topo da cabeça de Emma, um gesto de carinho espontâneo.
— Vamos ser uma família muito feliz, você vai ver.
Molly se virou para gritar com os gêmeos que estavam tentando roubar bolinhos, voltando ao caos habitual.
Emma ficou parada ali, no meio daquela cozinha mágica.
O cheiro de bolo era delicioso. Mas, no fundo de sua memória olfativa, Emma tentava desesperadamente segurar outro cheiro: couro, chuva e um perfume discreto.
Ela olhou para sua blusa preta.
A família Weasley era maravilhosa. O lugar era mágico. Harry estava rindo como nunca riu na vida.
Mas enquanto Emma sorria para a bagunça ao seu redor, seu peito doía com um vazio silencioso. Um buraco que não podia ser preenchido por magia ou bolinhos.
Eu queria que você estivesse aqui, pensou Emma, imaginando Natasha encostada na parede da cozinha, revirando os olhos para a bagunça, mas estando lá.
Ela estava salva. Mas, pela primeira vez, Emma entendeu que estar salva e estar completa eram coisas diferentes.
Ela respirou fundo, segurou sua própria mão coberta pela manga preta e deu um passo em direção à mesa de jantar. A nova vida tinha começado. Mas a memória da mulher de cabelo de fogo que a salvou do fogo real iria com ela, guardada no lugar mais secreto de seu coração, para sempre.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora