Suíte Principal. Madrugada de Terça-feira. 03:45.
O estômago de Natasha roncou. Foi um som alto, gutural, que a puxou do sono profundo. Ela abriu os olhos. O quarto estava escuro e silencioso. Bucky dormia ao lado dela, a respiração pesada e regular. Natasha sentiu aquela fome específica da madrugada — uma necessidade urgente de algo salgado. Talvez um pedaço de queijo ou aquelas sobras de frango.
Ela se levantou devagar para não acordar James. Os pés descalços tocaram o chão frio de madeira. Ela caminhou até a porta, abriu-a e saiu para o corredor. Tudo parecia normal. O relógio na parede tiquetaqueava. A luz da lua entrava pela janela da sala. Ela chegou à cozinha. Ela acendeu a luz. A lâmpada fluorescente piscou uma vez, duas vezes... e acendeu.
Natasha caminhou até a geladeira de aço escovado e puxou a porta. A luz interna iluminou as prateleiras. Leite, ovos, potes... E então, o cheiro atingiu o nariz dela. Não cheiro de comida. Cheiro de charuto barato. Cheiro de antisséptico hospitalar. Cheiro de ferro e sangue velho.
— Está com fome, Natalia?
A voz veio de trás da porta da geladeira. Uma voz oleosa, grave, que ela conhecia melhor do que a própria respiração. Natasha tentou fechar a porta, mas sua mão não obedeceu. A cozinha mudou. Os armários modernos sumiram. As paredes ficaram vermelhas.
Dreykov estava sentado na ilha da cozinha. Mas ele não estava sozinho. Aos pés dele, Yelena estava caída, os olhos abertos e vidrados, o pescoço em um ângulo não natural. E ao lado dela... Emma. Emma estava de joelhos, chorando, com sangue escorrendo da testa.
— Escolhas, Natalia, — Dreykov sorriu, segurando um controle remoto com um botão vermelho. — Sempre escolhas.
Ele estalou os dedos. Mãos invisíveis agarraram Natasha. Ela tentou lutar, mas seus braços eram de chumbo. Ela tentou gritar, mas não tinha voz. Uma mão enluvada forçou a boca dela a abrir. O gosto de borracha e metal. A proteção bucal. O dispositivo de choque. Dreykov se aproximou do rosto dela, o cheiro de tabaco insuportável. — Vamos ver quanto tempo a aranha aguenta antes de quebrar.
Ele levantou o dedo para apertar o botão do choque. Natasha gritou.
Mundo Real. 03:48.
— NÃO! NÃO! SOCORRO!
Natasha acordou gritando. Ela não estava na cozinha. Ela estava na cama. Mas o pesadelo não foi embora. Ela sentia o gosto da borracha na boca. Ela via as luzes vermelhas piscando no escuro do quarto. Ela via o rosto morto de Emma.
— Nat! Natasha! — James estava em cima dela, segurando o rosto dela com as duas mãos, tentando imobilizar a cabeça dela que se debatia contra o travesseiro. Ele estava suando frio, o coração disparado. — Acorda! Sou eu! É o James! Você está em casa!
Mas Natasha não o via. Ela olhava para ele com pupilas dilatadas de terror absoluto. O corpo dela convulsionava em tremores violentos. Ela tentava arrancar algo da boca que não estava lá, arranhando os próprios lábios. — Tira! Tira! Por favor! Elas estão mortas! — ela soluçava, engasgada pelo pânico. — Ele matou elas!
James estava desesperado. Ele nunca a tinha visto assim. Ele tentou abraçá-la, conter os braços dela para ela não se machucar, mas ela lutava com força letal, presa no loop do trauma.
A porta do quarto se abriu com um estrondo. Emma entrou. Ela estava de pijama de flanela, o cabelo ruivo bagunçado, mas segurava a varinha de madeira de teixo em punho firme. Ela não hesitou. Ela viu a mãe gritando, viu o padrasto tentando contê-la sem sucesso.
Emma levantou a varinha. A expressão no rosto da menina de 13 anos não era de medo. Era de foco cirúrgico. — Sai da frente, Bucky! — ela ordenou.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
