Cobertura de Londres. 31 de Agosto. 19:30.
Faltavam doze horas para o Expresso de Hogwarts partir da Plataforma 9 ¾.
Natasha Romanoff parou em frente à porta de seu próprio apartamento. Ela encostou a testa na madeira fria por um segundo, fechando os olhos. O corpo dela gritava. Havia um corte cicatrizando na maçã do rosto (lembrança de um estilhaço de vidro do helicóptero). O ombro direito latejava onde ela tinha batido contra a lateral do trem. Havia graxa debaixo das unhas que nem dois banhos no vestiário do MI6 conseguiram tirar completamente. E ela estava manca da perna esquerda, resultado de uma aterrissagem ruim em terreno pedregoso.
Três dias. Três dias sem ir para casa. Três dias dormindo em cadeiras de transporte aéreo e caçando vibranium na lama escocesa.
Ela girou a chave, preparando-se mentalmente. Ela esperava perguntas. Esperava um clima tenso. Esperava ter que explicar por que sumiu logo antes da viagem de Emma. Ela armou suas defesas habituais e abriu a porta.
Mas a muralha dela encontrou algo inesperado: Jazz. Um vinil antigo de Chet Baker tocava na vitrola da sala. Time After Time. Suave, melancólico, acolhedor. As luzes principais estavam apagadas. A iluminação vinha de abajures amarelados e velas.
E o cheiro. Deus, o cheiro. Não cheirava a ozônio, pólvora ou combustível de trem. Cheirava a lar. Cheiro de cebola refogada na manteiga, carne selada e especiarias.
Natasha tirou o casaco tático, sentindo o peso sair dos ombros, e mancou até a entrada da sala de jantar. A mesa estava posta. Toalha de linho, cristais, prata.
— Mãe!
Emma surgiu da cozinha. Ela parou no meio do caminho quando viu o estado de Natasha. O sorriso da menina vacilou por um segundo ao ver o corte no rosto e a postura exausta, mas ela não entrou em pânico. Ela era filha de quem era. Emma caminhou até ela com calma e a abraçou com cuidado, evitando tocar nos pontos que pareciam doloridos.
— Você está inteira? — Emma perguntou baixinho, checando a mãe.
— Inteira o suficiente — Natasha sussurrou, beijando o topo da cabeça ruiva da filha. — Desculpe o atraso. O trabalho... complicou.
— Eu vi no noticiário trouxa. "Acidente ferroviário na Escócia". — Emma deu um sorriso cúmplice. — Imagino que você tenha algo a ver com a ponte que caiu.
— Sem comentários — Natasha tentou sorrir, mas saiu como uma careta de dor.
— Bem-vinda à Maison Barnes — Emma disse, tentando animá-la, guiando-a até a cadeira. — Senta. O chef vai surtar se você não comer.
Natasha olhou para a cozinha. James estava lá. Ele vestia uma calça social preta e uma camisa de linho branca, impecável, com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele usava um avental azul escuro. Ele parecia limpo. Pacífico. O oposto polar dela naquele momento.
Ele levantou os olhos da panela onde finalizava o molho. O sorriso de boas-vindas dele congelou quando ele viu o rosto dela. Os olhos azuis do Soldado escureceram de preocupação. Ele largou a colher de pau e contornou o balcão em passos largos, chegando até ela antes que ela pudesse se sentar.
— Nat... — ele segurou o rosto dela com as duas mãos, com uma delicadeza extrema. O polegar dele roçou o corte na bochecha, evitando a pele ferida. — Você parece que foi atropelada por um trem.
Natasha soltou uma risada fraca e rouca. — Ironicamente, eu fui a única coisa que não foi atropelada pelo trem. Mas cheguei perto.
Ela se apoiou nele, exausta demais para manter a postura. James a segurou firmemente, o braço de metal servindo de pilar. — Eu fiquei três dias fora — ela murmurou contra o peito dele. — Sem avisar. Desculpa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
