O silêncio no quarto era perturbador, quebrado apenas pela respiração irregular de Natasha. A adrenalina da briga, que a tinha mantido em pé e gritando minutos atrás, evaporou tão rápido quanto veio, deixando para trás um vácuo frio e nauseante.
Natasha se afastou da porta trancada, as pernas tremendo. Ela deu dois passos e teve que se segurar na cômoda. O mundo girou. Uma tontura aguda a atingiu, fazendo pontos pretos dançarem em sua visão. Ela levou a mão à testa, sentindo o suor frio. — Droga... — ela sussurrou, fechando os olhos.
A memória a atingiu: os comprimidos da tarde. Na correria para ir ao MI6, na empolgação de ver M, na provocação com Bond e na fúria contra Bucky... ela tinha esquecido completamente a dose das 16h. Os estabilizadores neurais que Q e os médicos tinham prescrito para evitar exatamente isso: os tremores, a vertigem, a desorientação.
Ela abriu os olhos e encarou o espelho grande acima da cômoda. O que ela viu a fez querer quebrar o vidro. A mulher no reflexo não parecia a "Viúva Negra" que tinha acabado de gritar que queria ser fodida com força. A mulher no espelho estava pálida, quase verde. Os lábios tremiam involuntariamente. As pupilas estavam dilatadas de forma desigual. Ela parecia frágil. Doente.
Natasha apoiou as duas mãos na madeira da cômoda, encarando seu próprio reflexo com ódio. — É isso que você é? — ela perguntou para si mesma, a voz falhando. — Uma inválida?
As palavras de Bucky ecoaram na cabeça dela. "Eu estou cuidando de você." Talvez ele estivesse certo. Talvez ela fosse apenas isso agora: um problema médico ambulante. Uma boneca quebrada que precisava de horários, pílulas e supervisão constante. A humilhação queimou em sua garganta, mais ácida que a bile. Ela odiava se sentir assim. Odiava depender de química para ficar em pé. Odiava que o corpo dela a traísse logo agora, quando ela tentava provar que era forte.
As pernas cederam. Ela caminhou com dificuldade até a cama e sentou-se na borda, curvando o corpo, escondendo o rosto nas mãos. A cabeça latejava em um ritmo cruel. Ela apertou os olhos, tentando forçar o mundo a parar de girar.
Toc. Toc. Toc.
Três batidas suaves na porta. Hesitantes. Natasha ficou rígida. Ela não levantou a cabeça.
— Nat? — A voz de James veio abafada pela madeira maciça. Estava rouca, cansada. — Por favor, abre a porta.
Natasha sentiu uma onda de raiva renovada. Ela não queria que ele a visse assim. Não agora. Se ele entrasse e a visse tremendo na beira da cama por falta de remédio, isso só confirmaria tudo. Ele a olharia com aquele "olhar de enfermeiro" de novo. Ele traria um copo d'água. Ele validaria o medo dele.
— Vai se foder, James! — ela gritou. A voz não saiu tão forte quanto ela queria. Saiu embargada, dolorida. Mas a mensagem era clara.
Do outro lado, houve um silêncio. Ela ouviu ele suspirar. Um som longo, pesado, de alguém que estava encostando a testa na porta, derrotado, mas não desistindo.
— Eu pedi o jantar — James disse, falando através da porta, ignorando o insulto. A voz dele tentava ser calma, conciliadora. — Chega em quinze minutos.
Houve uma pausa. — É daquele lugar italiano que você gosta. O La Famiglia. Pedi o seu favorito.
Natasha sentiu o estômago revirar, mas não de enjoo dessa vez. De fome. De memória. Aquele era o prato que eles comeram no primeiro encontro de verdade. Ele sabia. Ele estava jogando sujo, usando conforto em forma de carboidrato.
— Eu não vou forçar a porta, Nat — James continuou, a voz suave, quase um sussurro. — Mas você precisa comer. Você não almoçou direito com a empolgação. E eu sei que você pulou os remédios, eu vi a cartela na cozinha.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
