Capitulo 51

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A porta de metal pesado se fechou e Natasha girou a trava com dedos que não pareciam pertencer a ela. O clique do ferrolho foi o sinal para que o mundo desabasse.

Ela mal conseguiu chegar à pia.

Natasha se inclinou sobre o vaso sanitário e vomitou. Seu corpo convulsionava, expelindo a adrenalina, o terror e a náusea acumulada de ver James — o seu James — olhando para ela com aquela adoração pura, enquanto ela o tratava como uma peça de armamento.

Ela cuspiu o gosto amargo de bile e se arrastou até a pia, abrindo a torneira no máximo. A água gelada batia no metal, mas não conseguia abafar o som do próprio soluço que escapou de sua garganta.

Ela chorou. Não foi o choro silencioso de uma espiã; foi um pranto sufocado, doloroso, que parecia rasgar seu peito. Natasha agarrou as bordas da pia de cerâmica com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

James.

Ele estava ali. O cheiro dele, o tom de voz, a forma como ele disse "Natalia"... era como se os doze anos de solidão tivessem sido uma mentira. Ele era o amor de sua vida, a única âncora que ela teve em um oceano de sangue e mentiras. E ela tinha acabado de olhar nos olhos dele e dizer que ele era apenas um sargento instável.

Ela sentiu o estômago revirar de novo. A culpa era um veneno. Ela não tinha coragem de admitir o que sentia, não porque não o amasse, mas porque tinha medo de que, se cedesse um milímetro, a missão falharia e ele morreria de novo. E ela não sobreviveria a uma segunda perda.

— Nat?

A voz de Steve veio do outro lado da porta, acompanhada por três batidas leves e ritmadas.

Natasha congelou. Ela prendeu a respiração, as lágrimas ainda escorrendo quentes pelo rosto sujo de fuligem.

— Nat, eu sei que você está aí — disse Steve, a voz baixa, carregada de uma compreensão que ela odiava. — Sam e Hill já estão se posicionando. Precisamos ir.

Ela não respondeu. Estava tremendo tanto que mal conseguia ficar de pé.

— Eu vi como ele olhou para você — continuou Steve, encostando a testa na porta do outro lado. — E eu sei o quanto está custando para você manter essa distância. Você não precisa ser a Viúva Negra o tempo todo, Natasha. Não comigo.

Natasha fechou os olhos com força. Sim, eu preciso, pensou ela. Se eu não for a Viúva, eu sou apenas uma garotinha assustada de Volgogrado, e garotinhas assustadas não derrubam impérios.

Ela jogou água gelada no rosto. Uma, duas, três vezes. O frio ajudou a conter os tremores. Ela olhou para o espelho manchado acima da pia. Seus olhos estavam vermelhos, o rímel borrado criava sombras escuras sob suas pálpebras.

Ela pegou um papel toalha e limpou o rosto com movimentos mecânicos e agressivos. Ela ajeitou o cabelo, puxando-o para trás com força. Ela respirou fundo, sentindo o ar frio preencher seus pulmões e endurecer seu centro.

A postura mudou. Os ombros se endireitaram. O queixo se ergueu. Em trinta segundos, a mulher que chorava no chão desapareceu, e em seu lugar surgiu a mulher que ia destruir a Hidra.

Ela destrancou a porta e a abriu.

Steve ainda estava lá, encostado na parede oposta. Ele a examinou com seu olhar azul analítico. Ele viu a vermelhidão nos olhos dela que nenhuma maquiagem poderia esconder totalmente, mas não disse nada. Ele respeitou o limite dela.

Natasha passou por ele, verificando o pente de munição de sua Glock.

— O plano continua o mesmo — disse ela, a voz perfeitamente estável, sem rastro de choro. — Eu entro como uma das secretárias do Pierce. Vocês cuidam dos aeroporta-aviões. Se algo der errado, eu ativo o protocolo de queima total de dados.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora