Capítulo 189

10 1 0
                                        

Cobertura de Kensington. Domingo, 03:15 da Manhã.

A volta para casa foi silenciosa. Londres dormia sob uma garoa fina e gelada, indiferente aos planos de guerra traçados no subsolo da cidade. O elevador privativo se abriu no hall da cobertura com um ding suave.

James saiu primeiro. Emma estava profundamente adormecida em seus braços. Ela tinha quatorze anos, pernas longas e o peso de uma adolescente em crescimento, mas para o Soldado Invernal, carregá-la era como carregar uma pluma. A cabeça dela estava caída no ombro dele, o braço de carne de James sustentando as costas dela, enquanto o de metal apoiava as pernas com firmeza inabalável.

Ele caminhou direto para o quarto dela. Natasha ficou parada no corredor por um segundo, observando as costas largas dele. Havia uma ternura feroz na forma como ele protegia a cabeça de Emma ao passar pelo batente da porta. Ele era uma máquina de matar que tinha aprendido a ser um berço.

Natasha se virou para Harry, que caminhava ao lado dela, arrastando os pés de exaustão, os olhos verdes pesados. — Vamos, soldado — Natasha disse suavemente, colocando a mão nas costas dele. — Hora de baixar a guarda.

Ela o guiou até o quarto de hóspedes. Harry entrou e se sentou na beira da cama, tirando os tênis com movimentos lentos. Ele parecia pequeno naquele quarto grande e moderno. Ele parecia a criança que o mundo mágico se recusava a deixá-lo ser.

Natasha parou na porta. Ela já tinha colocado Emma na cama mil vezes. Ela conhecia a rotina: o copo d'água, a luz do corredor acesa, a verificação de monstros no armário (que, no caso deles, podiam ser reais). Mas com Harry... era território novo. Ele não cresceu com ela. Ele cresceu num armário, sem ninguém para ver se ele estava com frio, sem ninguém para desejar bons sonhos.

Natasha entrou no quarto. Harry já tinha se deitado, puxando o edredom até o queixo, encolhido em posição fetal. Ele estava virado para a janela, mas ela sabia que ele estava acordado. Ela se sentou na beira do colchão. O colchão afundou com o peso dela. Harry se virou para olhá-la.

— Obrigado, Nat — ele sussurrou. — Pelo Q. Por tudo.

Natasha sorriu, afastando a franja rebelde da testa dele, roçando os dedos na cicatriz famosa com uma leveza que não causava dor. — É o meu trabalho, Harry. E é o meu privilégio.

Ela se inclinou. Era um gesto estranho para ela com ele, mas parecia vital agora. Ela beijou a testa de Harry. Um beijo demorado, firme. Não era apenas carinho. Era uma marcação. Este aqui é meu. Ninguém toca.

Harry fechou os olhos com o toque, soltando um suspiro longo, como se finalmente permitisse que seu corpo relaxasse. Era reconfortante para ele, sim. Mas Natasha percebeu, com um aperto no peito, que era reconfortante para ela também. Ter certeza de que ele estava ali, seguro, sob o teto dela.

— Durma — ela ordenou suavemente. — Eu estou vigiando.

Ela saiu do quarto, deixando a porta entreaberta, exatamente como Harry gostava (embora nunca admitisse).

Suíte Principal. 03:30.

Natasha entrou no quarto e foi direto para o banheiro. A luz branca dos LEDs sobre o espelho era impiedosa. Ela apoiou as mãos na pia de mármore, encarando seu reflexo. Ela estava pálida. Havia sombras roxas sob os olhos que nem a maquiagem leve escondia mais. Ela viu a idade ali — não em rugas, mas no olhar. Um olhar antigo, cansado, que tinha visto guerras demais e agora se preparava para mais uma.

Ela ligou a torneira, jogando água fria no rosto, tentando lavar a imagem do pesadelo de Emma, tentando lavar a tensão de ver James Bond e James Barnes medindo testosterona, tentando lavar o medo.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora