A Toca. Varanda dos Fundos. Sexta-feira de Manhã.
O celular vibrou sobre a mesa de madeira gasta. Era a quinta vez em menos de uma hora. A tela iluminou-se, mostrando o nome: James. Natasha olhou para o aparelho como se ele fosse uma granada sem pino. Ela queria atender. Deus, como ela queria ouvir a voz dele, deixar que ele dissesse que tudo ficaria bem, que ele estava lá. Mas ela não podia. Não agora.
Se ela atendesse, ela quebraria. Se ela ouvisse a preocupação na voz dele, a armadura que ela estava soldando dolorosamente ao redor de sua alma se desfaria. Ela precisava estar fria. Precisava estar focada. E James... James era calor. James era o lar para onde ela queria fugir, mas não podia. Ela virou o celular com a tela para baixo, silenciando o zumbido, mas não a culpa.
Ela respirou fundo, testando o próprio corpo. O chip no braço esquerdo ainda estava lá, emitindo o sinal para os satélites Stark. A dor aguda e lancinante de quarta-feira tinha mudado. O corpo de Natasha, adaptável e resiliente como uma barata em um apocalipse nuclear, tinha começado a aceitar a invasão. A agonia gritante tinha se transformado em um ruído branco. Uma dor surda, latejante, que subia e descia conforme a intensidade da magia ao redor, mas que não a fazia mais querer arrancar o próprio braço. Era suportável. Era o novo normal.
Dentro da casa, o silêncio reinava. Harry e Emma estavam "capotados". O dia de açúcar e adrenalina em Hogsmeade tinha cobrado seu preço, e os dois dormiam aquele sono profundo e restaurador que só adolescentes conseguem ter. Natasha invejava aquele sono. O dela tinha sido fragmentado, vigiando sombras.
Um pio suave cortou o ar da manhã. Uma coruja grande, de penas acinzentadas e aspecto real, pousou suavemente na mesa, ao lado do celular ignorado. Ela estendeu a perna, onde um pergaminho pesado, selado com cera roxa e o brasão de Hogwarts, estava amarrado.
Natasha desamarrou a carta. A coruja piou agradecida, bebeu um gole do café de Natasha (o que a fez erguer uma sobrancelha) e levantou voo. Natasha quebrou o selo. A caligrafia era fina, inclinada e inconfundível.
Caríssima Natasha,
Espero que esta carta a encontre recuperada dos eventos lamentáveis da Copa Mundial. O Ministério está em polvorosa, tentando conter os danos à imprensa, mas nós sabemos que a verdadeira tempestade se forma em silêncio.
Como sua instrutora e diretora futura, creio que a transparência é vital. Você aceitou vir para Hogwarts para proteger Harry e Emma. No entanto, o ambiente que você encontrará este ano será atípico, até mesmo para os padrões de nossa escola.
Hogwarts foi escolhida para sediar um evento histórico: O Torneio Tribruxo.
Natasha franziu a testa. Torneio Tribruxo? O nome soava como algo saído de um conto de fadas ruim. Ela continuou a ler, e a cada linha, sua expressão endurecia, transformando-se de curiosidade cética em repulsa absoluta.
O Torneio é uma competição amistosa estabelecida há cerca de setecentos anos entre as três maiores escolas de magia da Europa: Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang. Um campeão é selecionado para representar cada escola. Eles competirão em três tarefas mágicas projetadas para testar sua destreza, inteligência e coragem.
Até aí, parecia uma olimpíada escolar. Mas Dumbledore, sendo Dumbledore, não escondeu os detalhes sórdidos nas entrelinhas.
O Torneio foi descontinuado em 1792. O motivo, devo informar, foi o número inaceitável de mortes. Juízes feridos, campeões mutilados e, em certas ocasiões, danos colaterais catastróficos causados por criaturas fora de controle.
Natasha parou de ler. Ela releu a frase. Número inaceitável de mortes. Ela largou a carta na mesa e passou as mãos no rosto, soltando um riso incrédulo e furioso. — Eles cancelaram porque as crianças morriam — ela murmurou para o jardim vazio. — E agora, no ano em que Voldemort dá sinais de retorno... eles decidem trazer de volta? Brilhante. Estrategicamente brilhante.
Ela voltou ao pergaminho, os olhos varrendo o texto com a precisão de quem analisa um dossiê de ameaça.
O Ministério da Magia e o Departamento de Cooperação Internacional em Magia acreditam que este é o momento ideal para promover a união internacional. Foram estabelecidas novas regras de segurança. A mais importante: nenhum aluno menor de dezessete anos poderá se inscrever.
No entanto, as tarefas permanecem tradicionais em sua natureza. Não posso revelar detalhes específicos para manter a integridade da competição, mas prepare-se para ver o terreno da escola transformado. Dragões, criaturas das profundezas e labirintos encantados farão parte do currículo oculto deste ano.
Seu papel, Natasha, será duplo. Você aprenderá a se defender. Mas você também será meus olhos onde a magia falha. Com o castelo cheio de convidados estrangeiros e a atenção de todos voltada para o espetáculo, a segurança de Harry e Emma torna-se um desafio maior. O Torneio é uma distração perfeita. E o inimigo adora distrações.
Vejo você em 1º de Setembro.
Albus Dumbledore.
Natasha soltou o pergaminho como se ele estivesse pegando fogo. Ela se recostou na cadeira, cruzando os braços, o chip no braço pulsando em concordância com a sua raiva.
Torneio Tribruxo. Para o mundo mágico, parecia uma festa. Glória eterna. Cooperação internacional. Um grande show de talentos com varinhas. Para Natasha Romanoff, ex-espiã, assassina e estrategista militar, aquilo tinha outro nome. Tortura.
Era tortura disfarçada de diversão. Era o Coliseu Romano com efeitos especiais. Ela analisou friamente o que Dumbledore tinha descrito.
"Três tarefas projetadas para testar a coragem." Tradução de Natasha: Três cenários de combate de alto risco, sem suporte tático, onde a sobrevivência depende de sorte e habilidade bruta. Eles pegavam adolescentes — civis, estudantes — e os jogavam em arenas contra "dragões" e "criaturas das profundezas".
— É uma rinha de crianças — ela sibilou.
A mente dela voltou para a Sala Vermelha. Lá, eles também tinham "testes". "Competições amistosas" entre as Viúvas para ver quem era a mais forte, quem sobrevivia ao inverno na tundra apenas com uma faca. Eles chamavam aquilo de treinamento. Natasha chamava de inferno. E agora, a sociedade bruxa, que se dizia tão superior aos trouxas, tão iluminada, estava organizando um evento onde o entretenimento era ver jovens arriscarem a vida.
"A glória eterna." Que piada. A glória é o que prometem aos soldados antes de mandá-los para o moedor de carne. A glória é a mentira que contam às mães quando entregam uma bandeira dobrada.
Natasha olhou para a janela do andar de cima, onde Harry e Emma dormiam. Pelo menos havia a restrição de idade. Dezessete anos. Harry e Emma tinham quatorze. Eles estariam apenas assistindo. Isso deveria tranquilizá-la. Deveria.
Mas o instinto de Natasha — aquele alarme interno que a manteve viva quando todos os Vingadores caíram — estava gritando. Por que agora? Por que trazer de volta um torneio mortal exatamente quando os Comensais da Morte estão marchando? Dumbledore disse que era uma "distração perfeita". Ele estava certo. Mas era mais do que isso. Era um cenário. Se alguém quisesse matar Harry Potter... que lugar melhor do que um torneio onde mortes são "acidentes esperados"? Onde o perigo é parte do show?
Natasha entrou na casa. Ela foi até a cozinha, onde Molly começava a mexer nas panelas. — Molly — Natasha disse, a voz calma, escondendo a tempestade. — Onde estão os livros de História de Hogwarts que a Hermione trouxe?
— Na sala, querida. Por quê?
— Preciso ler sobre um tal de "Torneio Tribruxo". — Natasha sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Parece que vamos ter um ano... interessante.
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Daughter of No One
Fiksi PenggemarHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
