O interior do Quinjet não foi feito para conforto. Foi feito para a guerra.
Tudo ali era metal escovado, cintos de segurança de nível militar e luzes de painel que piscavam em tons frios de azul e verde. O zumbido dos motores era constante, uma vibração que entrava pelos dentes, mas, comparado ao rugido do fogo que deixaram para trás, parecia um silêncio abençoado.
Clint Barton estava no cockpit, as mãos firmes no manche, guiando a aeronave através da tempestade que cobria o Canal da Mancha. Ele não dizia nada. De vez em quando, seus olhos corriam para o espelho retrovisor interno, checando os passageiros na parte de trás, com uma expressão que misturava foco tático e uma preocupação humana genuína.
Na parte traseira da cabine, o clima era pesado.
Harry Potter estava sentado num dos bancos laterais, com os pés balançando longe do chão. Ele parecia ridiculamente pequeno cercado por tanta tecnologia. Seus óculos redondos estavam tortos, uma lente rachada no canto, e seu rosto ainda tinha manchas de fuligem que ele tentara limpar com a manga da camiseta larga.
Em suas mãos, ele segurava um sanduíche embrulhado em plástico — ração padrão da S.H.I.E.L.D. que Clint havia tirado de um compartimento de suprimentos. Harry comia mecanicamente, dentada por dentada, sem parecer sentir o gosto. Seus olhos verdes não piscavam, fixos no outro lado do jato.
Lá, deitada numa maca médica dobrável presa ao chão, estava Emma.
Natasha Romanoff estava sentada na beira da maca. Ela havia tirado as luvas táticas e o cinto de utilidades, deixando-os no chão. Agora, ela segurava um pedaço de gaze estéril embebido em soro fisiológico.
Com uma delicadeza que contradizia sua reputação letal, Natasha passava a gaze pela testa de Emma.
A menina ainda não tinha acordado. Sua respiração era leve, o peito subindo e descendo num ritmo que acalmava, pouco a pouco, o pânico silencioso de Harry.
Natasha limpou uma mancha escura perto da linha do cabelo de Emma. Não era queimadura, felizmente. Era sangue seco — um corte superficial, provavelmente causado por algum destroço durante a explosão. O branco da gaze ficou vermelho, mas Natasha não parou até que a pele pálida estivesse limpa.
Ela afastou uma mecha do cabelo ruivo de Emma, revelando o rosto sardento e tranquilo.
— Ela vai ficar bem — disse Natasha, sem se virar. Sua voz era baixa, projetada para não assustar.
Harry parou de mastigar. Ele engoliu em seco, o som parecendo alto demais no jato.
— Ela não acordou ainda — sussurrou ele, a voz rouca.
— É melhor assim — explicou Natasha, descartando a gaze suja e pegando uma nova. — O corpo dela precisa descansar. Foi... muito estresse. Adrenalina demais. O cérebro dela decidiu desligar um pouco para proteger o sistema. Quando chegarmos, os médicos vão dar algo para ela não sentir dor.
Harry assentiu devagar. Ele apertou o sanduíche com força, o plástico fazendo um barulho crrrk-crrrk.
Natasha terminou de limpar o rosto de Emma e finalmente se virou para encarar o menino. Ela o observou com aquele olhar analítico de espiã, notando os ombros tensos, a postura defensiva, o jeito como ele olhava para as saídas de emergência. Sobrevivente, ela pensou.
Seus olhos subiram do sanduíche para o rosto dele, parando na testa.
Natasha franziu levemente a testa. Ela se inclinou um pouco para frente, a curiosidade profissional aguçada.
— Deixe-me ver isso — pediu ela, apontando para a testa dele.
Harry recuou instintivamente, encostando as costas na fuselagem fria do jato. Ele levou a mão à testa, cobrindo-a com a franja preta bagunçada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
