Capitulo 145

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Sala de Estar. Quarta-feira à Noite. 21:00.
A garrafa de Macallan 18 anos estava sobre a mesa de centro, perigosamente mais leve do que estava no início da noite.
Natasha estava sentada na poltrona, com as pernas cruzadas, girando o copo de cristal na mão. O líquido âmbar rodopiava, capturando a luz fraca do abajur.
Ela tomou um gole longo. O álcool queimou a garganta, um calor familiar e bem-vindo, mas não foi suficiente para apagar o fogo da frustração que queimava no estômago dela desde a manhã.
O dia tinha sido um lembrete brutal de que, para o mundo (e para o M), ela ainda era "convalescente". Uma peça de museu valiosa. Uma estrategista de poltrona.
Ela odiava poltronas.
Os músculos dela estavam tensos, vibrando com energia cinética não gasta. Ela queria socar algo. Queria atirar em algo. Queria sentir o vento no rosto e o perigo na nuca, não o ar condicionado viciado de um escritório.
No sofá oposto, Emma estava deitada, com os pés apoiados no braço do sofá, lendo O Livro Monstruoso dos Monstros (que ela tinha conseguido acalmar fazendo carinho na lombada).
De tempos em tempos, os olhos verdes da menina se desviavam das páginas para a mãe.
Emma conhecia aquele olhar.
Era o olhar de um tigre andando em círculos numa jaula pequena demais.
Natasha não estava triste; ela estava entediada. E uma Natasha entediada era uma Natasha perigosa. Ela precisava de ação. Ela precisava de caos. E Londres, com suas regras e burocracias, não estava fornecendo isso.
Emma fechou o livro devagar. O livro ronronou e fechou os olhos.
Ela se sentou, abraçando os joelhos.
— Mãe? — Emma chamou, a voz cortando o silêncio tenso da sala.
Natasha parou o copo no ar. Ela virou o rosto para a filha, suavizando a expressão dura quase instantaneamente.
— Oi. O livro tentou morder seu pé de novo?
— Não, ele tá comportado — Emma respondeu. Ela hesitou por um segundo, calculando a abordagem. — Eu estava pensando... a gente não tem nada planejado para o fim de semana, né? O Bucky vai estar ocupado com a revisão da moto.
— Não — Natasha suspirou, olhando para o teto. — Provavelmente eu vou passar o fim de semana lendo relatórios de missões que eu não fui autorizada a liderar. Ou vou acabar desmontando a geladeira só para ver como funciona.
Emma sorriu. Era a deixa perfeita.
— Bom, eu recebi uma coruja do Ron hoje de manhã. Antes de a gente ir pro MI6.
Natasha ergueu uma sobrancelha, interessada.
— O Weasley? Como ele está?
— Estressado — Emma disse, escolhendo as palavras com cuidado. — Ele disse que A Toca está infestada.
— Parece que o jardim da Sra. Weasley está sofrendo uma invasão de gnomos de jardim. E não os bonitinhos de cerâmica. Os mágicos. Eles mordem, cavam buracos e xingam as pessoas. O Ron disse que passou o último trimestre inteiro ouvindo a mãe reclamar das "pragas e pestes" nos arredores.
Natasha tomou outro gole de whisky.
— Gnomos que xingam? Parece encantador.
— Eles precisam de ajuda para "desgnomizar" o jardim — Emma continuou, observando a reação da mãe. — É um trabalho braçal. Tem que pegar eles, girar e arremessar para longe. É bem... físico.
Emma viu um brilho de interesse nos olhos de Natasha. Físico. Violência controlada contra pragas mágicas. Isso era terapia.
— E tem mais uma coisa — Emma jogou a carta principal. — O Sr. Weasley, o Arthur... ele conseguiu convites.
— Ingressos para a final da Copa Mundial de Quadribol.
Natasha baixou o copo.
— Copa Mundial?
— É o maior evento esportivo do mundo mágico, mãe. Cem mil bruxos reunidos num lugar só. Barracas mágicas, delegações internacionais, criaturas exóticas... — Emma gesticulou, pintando o cenário. — O Sr. Weasley convidou a gente. Eu e você. Disse que seria uma honra ter a "famosa espiã trouxa e sua filha talentosa" na barraca deles.
Emma se inclinou para frente.
— Pensa bem. Sem relatórios. Sem M. Sem o Bond te enchendo o saco. Só ar livre, comida da Sra. Weasley, gnomos pra chutar e o caos absoluto de um evento internacional com milhares de bruxos bêbados torcendo pela Irlanda ou pela Bulgária.
Natasha olhou para o líquido no copo. Depois olhou para a filha.
Milhares de bruxos num lugar só. O potencial para desastre de segurança era astronômico. Onde havia multidão, havia risco. E onde havia risco, Natasha Romanoff se sentia em casa.
Além disso, a ideia de arremessar criaturas mágicas irritantes por cima de uma cerca parecia incrivelmente satisfatória no momento.
Um sorriso lento, predatório e genuinamente animado curvou os lábios da Viúva Negra.
Ela virou o resto do whisky num gole só e bateu o copo na mesa com decisão.
— Quando partimos? — Natasha perguntou.
Emma sorriu de orelha a orelha.
— Amanhã de manhã? A gente pode pegar uma Chave de Portal.
Natasha se levantou, a energia letárgica substituída por propósito.
— Ótimo. Vou fazer as malas. — Ela caminhou em direção ao quarto, mas parou e olhou para Emma. — Avise o Ron para não limpar o jardim antes de chegarmos. Aqueles gnomos são meus.
Emma riu, pegando o livro de volta.
— Pode deixar, mãe. Eles não perdem por esperar.
Natasha sumiu pelo corredor. Emma pegou o celular para mandar uma mensagem (ou melhor, escrever uma carta para a coruja). O plano tinha funcionado. O verão ia ser agitado, perigoso e mágico. Exatamente como elas gostavam.
Suíte Principal. 03:12 da Manhã.
O toque do telefone seguro não era alto, mas no silêncio da madrugada, soou como um tiro.
Bucky resmungou, apertando o braço em volta da cintura de Natasha, tentando ignorar o mundo exterior. Mas Natasha já estava desperta. O instinto dela não precisava de tempo de boot.
Ela tateou a mesa de cabeceira e pegou o aparelho criptografado. A tela brilhava com uma luz azul fria, iluminando o rosto dela e o anel de Alexandrita.
— Romanoff — ela atendeu, a voz rouca de sono, mas firme.
Do outro lado, a voz do chefe de operações noturnas do MI6 tremia.
— Diretora... nós perdemos o sinal da equipe em Budapeste. O suporte aéreo demorou demais. O Agente Miller... ele foi abatido. KIA (Morto em Ação). O resto da equipe está encurralada num armazém no cais.
Natasha não respondeu imediatamente.
Ela sentiu o sangue gelar. Depois, ferver.
Miller. Um garoto de 24 anos. Recém-saído da academia. Ela tinha avisado. Ela tinha gritado naquela sala horas atrás. Ela tinha dito que eles precisavam de extração imediata. E algum burocrata engravatado tinha demorado para assinar um papel.
— Entendido — ela disse. A voz dela não tinha emoção. Era o vazio antes da tempestade. — Mantenha o canal aberto apenas para emergências.
Ela desligou.
Ela não chorou. Ela não gritou.
Ela jogou o edredom para o lado com um movimento seco e levantou-se da cama.
Bucky, sentindo a mudança brusca na temperatura da cama e na aura dela, sentou-se, esfregando os olhos.
— Nat? O que houve?
Natasha não respondeu. Ela caminhou até o closet.
Ela não foi para a seção de roupas civis. Ela foi para o fundo, onde havia um painel biométrico.
Ela colocou a mão. O painel destravou com um bip.
De lá, ela tirou o traje.
Não o terno de diretora.
O traje tático preto. O tecido de trama balística, os braceletes das "Picadas da Viúva", o cinto de utilidades, os coldres das Glocks.
Era a pele da Viúva Negra.
Bucky acendeu o abajur, piscando por causa da luz repentina. Ele viu Natasha vestindo o macacão, fechando o zíper frontal com uma violência contida. Ela estava calçando as botas táticas, amarrando os cadarços com força letal.
— Natasha — Bucky começou, a voz grogue de sono se transformando em alerta. — O que você está fazendo? O M foi claro. Você não está autorizada. Se você sair por aquela porta vestida assim, ele vai revogar sua credencial. Ele vai te prender.
Natasha terminou de amarrar a bota. Ela se levantou e prendeu os coldres nas coxas. Click. Click.
Ela se virou para ele.
Na penumbra do quarto, ela parecia um anjo da morte. O cabelo ruivo estava solto, selvagem. Os olhos verdes eram gelo puro.
— O Miller morreu, James — ela disse. A frase caiu no quarto como uma pedra. — O garoto morreu porque eu estava sentada aqui bebendo whisky e obedecendo ordens de um velho com um guarda-chuva.
Ela pegou os braceletes e os colocou nos pulsos. Os LEDs azuis se acenderam, zumbindo com eletricidade.
— Eles estão encurralados. Se eu não for, todos morrem. E não tem Cristo, não tem M e não tem Deus que vá me impedir de limpar essa bagunça.
Bucky se levantou. Ele estava nu, apenas de boxer, mas sua postura era de combate.
— Nat, espera. Pensa. Você ainda está em recuperação. Budapeste é longe. Você vai pegar um jato não autorizado? Isso é deserção. Isso é corte marcial.
— Eu não me importo — ela rosnou, caminhando até ele. — Eu sou a Viúva Negra. Eu não sirvo a protocolos. Eu salvo vidas.
Ela parou na frente dele.
Ela não ia lutar com ele. Ela não tinha tempo.
Ela estendeu a mão direita, a palma aberta, imperativa.
— A chave, James.
Bucky olhou para a mão dela. Depois olhou para os olhos dela.
Ele viu a determinação. Viu a culpa. Viu a fúria.
Ele sabia que poderia tentar impedi-la fisicamente. Ele era o Soldado Invernal. Ele poderia segurá-la até ela se acalmar.
Mas ele tinha prometido. Eu não vou te tratar como vidro.
Se ele a impedisse agora, estaria dizendo que não confiava nela. Estaria dizendo que as regras do M eram mais importantes que a consciência dela. E ele a perderia para sempre.
Bucky soltou um suspiro pesado, passando a mão no rosto.
Ele se virou, pegou a calça jeans que estava no chão e tirou um molho de chaves do bolso.
A chave da Harley Davidson preta. A moto modificada. Rápida. Silenciosa. Mortal.
Ele olhou para ela uma última vez.
— O jato particular do Stark está no hangar 4 de Heathrow. O código de acesso ainda é o aniversário dele. — Bucky disse, a voz baixa. — É mais rápido que tentar roubar um quinjet do MI6.
Ele jogou a chave.
Natasha a pegou no ar. O metal frio bateu na palma da mão dela.
A expressão dura dela vacilou por um milésimo de segundo. Gratidão. Amor.
— Obrigada — ela sussurrou.
Ela não deu um beijo de despedida. Não havia tempo para romance.
Ela girou nos calcanhares e saiu do quarto, uma sombra preta se movendo rápida e silenciosa.
Bucky ouviu a porta da frente bater. Minutos depois, o rugido inconfundível do motor da Harley rasgou a madrugada de Londres, afastando-se em alta velocidade.
Ele se sentou na cama, sozinho no escuro.
— Boa caçada, Nat — ele murmurou para o vazio, torcendo para que o mundo estivesse preparado, porque a Viúva Negra estava de volta, e ela estava muito, muito irritada.
A Harley Davidson era um monstro mecânico sob o comando dela.
Natasha não estava dirigindo; ela estava pilotando um míssil terra-terra. O velocímetro digital marcava 180 km/h, transformando as luzes da estrada em riscos de néon borrados. O vento açoitava seu corpo, mas o traje tático cortava a resistência do ar como uma lâmina.
Ela não diminuiu a velocidade nas curvas. Ela inclinou a moto até o joelho quase raspar no asfalto, desafiando a física e a gravidade, focada apenas no objetivo: Hangar 4.
Com a mão esquerda, ela tocou o dispositivo de comunicação intra-auricular.
— Conectar canal seguro. Protocolo Q-Branch. Código de emergência: Viúva Negra.
Houve um chiado estático, seguido pelo som de uma linha chamando.
Uma vez. Duas vezes.
Na terceira, uma voz arrastada, rouca e nitidamente mal-humorada atendeu.
— ...Alô? Quem em nome de Turing está me ligando a essa hora? Se for o Bond pedindo fiança de novo, eu juro que...
— Acorda, Q — Natasha cortou, a voz dela competindo com o rugido do motor e o vento no microfone. — Preciso de olhos e ouvidos. Agora.
Houve um barulho de óculos sendo colocados e de alguém caindo da cama do outro lado da linha.
— Natasha? O que... por que tem tanto barulho de vento? Você está em uma moto? A essa hora? O M sabe diss...
— O M pode ir para o inferno — ela rosnou, costurando entre dois caminhões de carga. — O Miller está morto, Q. A equipe em Budapeste está cercada no porto. O suporte aéreo falhou. Eu estou indo buscá-los.
Um silêncio chocado do outro lado. O som de teclas sendo digitadas freneticamente começou a ser ouvido.
— Meu Deus... eu estou vendo os relatórios agora. A telemetria deles está crítica. Natasha, você não pode ir sozinha. É uma zona de guerra. O esquadrão da morte local tem armamento pesado.
— Eu sei — Natasha respondeu friamente. — Por isso eu não vou sozinha.
Ela acelerou ainda mais, vendo a placa de saída para o terminal de jatos privados.
— Coloque o Bond na linha. Agora.
— O 007? — Q gaguejou. — Ele está... hum... ele está "indisposto". Acho que a acompanhante dele ainda está lá e...
— Eu não perguntei se ele está ocupado, Q! — Natasha gritou. — Eu disse para colocar ele na linha! Hackeia o celular dele, liga o alarme de incêndio do apartamento dele, eu não me importo! Acorde ele!
— Ok! Ok! Fazendo o patch agora!
Houve um clique, seguido por um som de bip agudo.
Segundos depois, uma voz masculina, grave e irritantemente calma (embora um pouco rouca de sono), soou no ouvido dela.
— Romanoff. Se isso for um convite para café da manhã, é um pouco cedo e muito agressivo. — James Bond. Mesmo acordando de madrugada, ele soava como se estivesse de smoking.
— Cala a boca, James — Natasha disparou. — O Miller morreu. Budapeste. O resto da equipe está presa. Eu estou a dez minutos do jato do Stark em Heathrow.
— O voo dura duas horas e meia. Eu preciso de um atirador. Alguém que não precise de formulários para puxar o gatilho.
Houve uma pausa curta do outro lado. O tom de brincadeira na voz de Bond desapareceu instantaneamente.
— Qual o armamento inimigo?
— Mercenários. Fuzis automáticos, talvez RPGs. Eles estão encurralados num armazém de contêineres.
— Entendido. — O som de lençóis sendo jogados e passos rápidos no assoalho de madeira. — Eu chego em Heathrow em quinze minutos. Não decole sem mim.
— Você tem dez — Natasha retrucou. — E traga o seu rifle de precisão. O M não vai liberar o arsenal oficial.
— Eu tenho um brinquedinho pessoal no porta-malas do Aston Martin que deve servir. — Bond respondeu. — Q, mande as coordenadas táticas para o meu relógio. E tente não infartar até voltarmos.
— Isso é motim! — Q gritou no fundo da linha, desesperado. — Vocês dois vão ser demitidos! O M vai me transformar em um peso de papel!
— Prepare o café, Q — Natasha disse, vendo as luzes da pista de pouso surgirem no horizonte. — Vai ser um dia longo.
Ela desligou o rádio.
A moto derrapou na entrada do hangar, parando a centímetros do jato particular que já estava com as turbinas aquecendo (graças ao piloto automático do Stark que ela ativara remotamente).
Ela desceu da moto, o sangue pulsando com a adrenalina da missão.
Ela não estava mais "doente". Ela não era "frágil".
A Viúva Negra estava indo para a guerra. E ela estava levando o 007 com ela.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora