Capitulo 66

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Apartamento de Natasha Romanoff. 08:00 da Manhã.

O despertador no criado-mudo tocou, um som digital estridente que cortou o ar estagnado do quarto.

Natasha não estava na cama. Ela acordou no chão, perto da porta, onde tinha desabado horas antes. Seu corpo estava rígido, o pescoço doendo pela posição desajeitada, e seus olhos ardiam, inchados e secos, como se tivessem chorado toda a umidade do corpo.

Ela desligou o alarme com um tapa mecânico e se levantou.

O apartamento estava frio. A neve lá fora brilhava com a luz cruel da manhã, iluminando a bagunça emocional que a noite deixara.

Natasha foi para o banheiro. Ela evitou olhar para o próprio reflexo no espelho; sabia que veria a devastação lá. Ela ligou o chuveiro na temperatura máxima e entrou.

A água quente bateu em sua pele, mas não trouxe conforto. Trouxe memória.

Ela podia sentir o corpo de James no dela. A pressão das mãos dele em sua cintura, o roçar da barba em seu pescoço, o peso dele sobre ela. A memória tátil era tão vívida que era quase uma alucinação. Era o fantasma do homem que ela amava sobreposto à imagem do homem que a traíra.

Ela pegou a esponja e esfregou a pele com força. Esfregou os braços, o peito, as coxas. Ela queria tirar o cheiro dele. Queria tirar a sensação de pertencimento que ele deixara nela, porque agora aquele pertencimento parecia uma corrente.

— Sai... sai... — ela sussurrou sob o jato d'água, misturando lágrimas novas com a água do chuveiro.

Vinte minutos depois, ela saiu. Secou o cabelo, passou maquiagem corretiva sob os olhos para esconder as olheiras e vestiu uma calça jeans e um suéter de lã grosso. Ela arrumou a cama — alisando os lençóis onde eles tinham se amado e se destruído — e abriu as janelas da sala para deixar o ar gelado levar embora o cheiro de ozônio e almíscar.

Ela preparou panquecas. O cheiro de baunilha e manteiga começou a preencher a casa, criando uma fachada de normalidade.

Às 10:00 em ponto, a lareira da sala explodiu em chamas verdes esmeralda.

Natasha parou, segurando a espátula com força. Era o Flu Internacional.

Uma figura saiu das chamas, girando, e aterrissou no tapete da sala com um baque leve, sacudindo fuligem das vestes.

— Nat?

Emma se levantou. Ela estava mais alta do que Natasha lembrava, vestida com um casaco de inverno trouxa e um cachecol da Grifinória. Ela arrastava um malão pesado.

— Oi, Little Red — Natasha forçou um sorriso, caminhando até ela.

Mas no momento em que os olhos delas se encontraram, o sorriso de Natasha falhou.

O vínculo entre elas — aquela conexão mística forjada por magia de sangue e adoção — vibrou no ar. Emma parou no meio do caminho. Os olhos da menina se arregalaram. Ela não viu a maquiagem; ela viu a aura.

Ela sentiu uma onda de tristeza tão profunda, tão azul e gelada vindo de Natasha, que quase perdeu o fôlego. Era uma dor de luto. Como se alguém tivesse morrido naquela casa na noite anterior.

— O que aconteceu? — Emma perguntou, largando a mala e correndo até Natasha. Ela segurou as mãos da mãe, procurando ferimentos físicos. — Você está... você está quebrada por dentro.

Natasha engoliu o nó na garganta. A menina era perceptiva demais. — Ei, calma. Eu estou bem. — Natasha soltou as mãos de Emma e acariciou o rosto da filha, tentando bloquear a própria mente, tentando usar a "Caixa Vermelha" para esconder a dor. — São só... coisas de adulto, querida. Cansaço. Decisões difíceis.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora