Capitulo 29

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Ottery St. Catchpole, Devon, Inglaterra.
O carro preto do Ministério da Magia (que parecia normal, exceto pelo fato de que conseguia passar por espaços impossivelmente estreitos) parou em uma estradinha de terra.
Natasha Romanoff desceu, ajustando os óculos escuros. Ela olhou para cima. E continuou olhando.
Diante dela estava "A Toca".
Para uma engenheira ou arquiteta, aquilo era um pesadelo. A casa parecia ter sido construída por alguém que nunca ouviu falar da lei da gravidade. Eram vários andares tortos empilhados de maneira precária, chaminés que desafiavam a lógica e um jardim onde as botas de borracha pareciam andar sozinhas.
— Isso viola pelo menos três leis da física estrutural — murmurou Natasha, analisando a inclinação do telhado. — Se eu espirrar, a casa cai?
— Não cai não, Nat! — Emma riu, puxando sua mala colorida. — É mágica!
Antes que Natasha pudesse argumentar sobre vigas de sustentação, a porta da frente se abriu com um estrondo.
— EMMA!
Harry Potter saiu correndo de dentro da casa. Ele parecia um pouco mais alto, o cabelo ainda mais bagunçado e um sorriso que rasgava o rosto.
— HARRY!
Emma largou a mala no meio da lama e correu. Os dois irmãos se encontraram no meio do jardim, colidindo num abraço desajeitado e cheio de saudade.
Natasha ficou parada perto do carro, observando. O nó em seu peito se desfez um pouco. Ver os dois juntos era... certo. Era como ver duas metades de um ímã se conectando.
— Ah, graças a Merlin, vocês chegaram!
Natasha virou a cabeça rapidamente, os instintos de combate ativados.
Uma mulher baixa, rechonchuda e com um rosto bondoso emoldurado por cabelos ruivos (tão ruivos quanto os de Emma) vinha caminhando apressada pelo jardim, enxugando as mãos num avental florido. Atrás dela, vinha um homem alto, magro e calvo, que olhava para Natasha com uma curiosidade fascinada.
Molly e Arthur Weasley.
Natasha endireitou a postura. Seja educada. Não analise as ameaças. É uma família civil.
— Sra. Weasley — começou Natasha, estendendo a mão profissionalmente. — Eu sou Natasha Roman...
Ela nunca terminou a frase.
Molly Weasley ignorou completamente a mão estendida e a postura rígida de assassina. Ela puxou Natasha para um abraço de urso que, surpreendentemente, tinha força suficiente para rivalizar com um lutador de MMA.
Natasha ficou tensa por um milésimo de segundo — reflexo condicionado de quem não gosta de ser tocada por estranhos — mas o cheiro de biscoitos, lã e mãe era tão avassalador que ela relaxou os braços, sem saber onde colocá-los.
— Ah, querida, nada de "Sra. Weasley" ou apertos de mão! — exclamou Molly, afastando-se apenas para segurar o rosto de Natasha com as duas mãos. — Me chame de Molly. E olhe só para você... tão magra! Eles não comem na América? Você precisa de sopa. Arthur, pegue as malas!
— Mas eu... eu estou bem — tentou Natasha, piscando, atordoada. Ninguém a tratava assim desde... bem, nunca.
— Bobagem — decretou Molly, já empurrando Natasha em direção à casa. — Lilian escreveu tanto sobre você nas cartas antigas, mas ela não disse que você era tão bonita. A Emma não para de falar de você. "Minha Nat isso, minha Nat aquilo".
Molly parou na porta e olhou para Natasha com olhos úmidos e sinceros.
— Obrigada por trazer nossa menina de volta, querida. E por cuidar dela. Você é da família agora.
Natasha abriu a boca, mas nada saiu. Ela estava preparada para desconfiança, para olhares tortos por ser uma "trouxa". Ela não estava preparada para aceitação incondicional.
— De... de nada — gaguejou a Viúva Negra.
Dentro da Toca.
Se o exterior era um desafio à física, o interior era um desafio à sanidade de Natasha.
Na cozinha, uma escova estava esfregando uma frigideira sozinha na pia. Um rádio antigo cantava uma música sobre caldeirões furados. E no centro da mesa, agulhas de tricô trabalhavam furiosamente no ar, tricotando o que parecia ser um suéter marrom.
Natasha sentou-se na ponta da cadeira, observando as agulhas com desconfiança. Se aquelas coisas decidirem atacar, são perfurantes. Prioridade: proteger os olhos.
— Então... — Arthur Weasley sentou-se ao lado dela, os olhos brilhando de excitação. — Harry me disse que você trabalha para uma organização de espionagem trouxa. A... ESCUDO?
— S.H.I.E.L.D. — corrigiu Natasha. — Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão.
Arthur soltou um suspiro maravilhado.
— Fascinante! E me diga... como vocês fazem os aviões ficarem no ar sem feitiços de levitação? Eu tentei entender a aerodinâmica de um patinho de borracha, mas...
— Arthur, deixe a moça respirar! — ralhou Molly, colocando um prato gigantesco de sanduíches de carne na frente de Natasha.
— É sustentação e propulsão, Sr. Weasley — respondeu Natasha, divertindo-se com a curiosidade dele. — Princípio de Bernoulli. Diferença de pressão nas asas.
Arthur começou a anotar num bloquinho, murmurando "Bernoulli" como se fosse um feitiço poderoso.
Enquanto isso, Emma e Harry entraram correndo na cozinha, seguidos por um garoto ruivo sardento (Ron) e dois gêmeos idênticos que olhavam para Natasha com sorrisos travessos.
— Então essa é a famosa espiã? — perguntou um dos gêmeos (Fred).
— Ela não parece perigosa — disse o outro (George).
Natasha girou uma faca de manteiga na mão com uma destreza tão rápida que a lâmina virou um borrão prateado, e a cravou na mesa, exatamente entre os dedos de George, sem nem olhar para ele.
O silêncio caiu na cozinha.
George olhou para a faca vibrando a milímetros de seu dedo. Ele engoliu em seco, sorrindo admirado.
— Retiro o que disse. Ela é brilhante.
Molly deu um tapa na nuca de George.
— Não irrite a madrinha da Emma! E tirem os cotovelos da mesa!
Natasha sorriu. Um sorriso real.
Ela olhou ao redor. Emma estava dividindo um sapo de chocolate com Harry. Ron estava explicando para Emma sobre o time de Quadribol "Chudley Cannons". Arthur estava desenhando uma asa de avião no guardanapo. E Molly estava empilhando mais comida no prato de Natasha, ignorando o fato de que ela nem tinha começado o primeiro sanduíche.
Ali, cercada por magia que ela não entendia e pessoas que não tinham nenhum motivo para amá-la, Natasha percebeu algo estranho.
Ela não estava procurando saídas de emergência.
Ela não estava calculando ângulos de tiro.
Ela estava apenas... jantando.
— Nat? — chamou Emma, com a boca suja de chocolate.
— Sim?
— O relógio da Sra. Weasley é estranho.
Natasha olhou para a parede. Havia um relógio com nove ponteiros, um para cada membro da família. Em vez de números, havia legendas como "Casa", "Escola", "Trabalho", "Perigo Mortal" e "Prisão".
— É muito útil — comentou Molly, olhando para o relógio. — Ah, vejam, o ponteiro do Arthur saiu de "Trabalho" para "Casa". E o dos gêmeos saiu de "Travessura" para "Fome". Tudo certo.
Natasha balançou a cabeça.
— Tony Stark pagaria bilhões por esse sistema de rastreamento em tempo real — murmurou ela.
Molly sorriu e tocou a mão de Natasha sobre a mesa.
— Você não precisa de tecnologia aqui, querida. Só precisa de um bom chá.
E pela primeira vez em muito tempo, Natasha Romanoff, a espiã que vivia no frio, sentiu-se aquecida. Não pela vodka, não pela adrenalina, mas pelo simples e poderoso caos de uma família feliz.
Ela pegou o sanduíche.
— Obrigada, Molly — disse ela. — Acho que vou aceitar a sopa também.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora