Corredor da Cobertura. Sexta-feira, 15:30.
Natasha estava terminando de descarregar a máquina de lavar louça — uma tarefa mundana que ela usava para recalibrar o cérebro — quando o celular seguro no balcão vibrou.
Não era um número. Era um código de barras digital que piscava na tela.
Natasha secou as mãos e atendeu.
— Você deveria estar na Escócia, Romanoff. — A voz do outro lado era jovem, britânica, e carregada daquele tom de superioridade intelectual cansada que só podia pertencer a uma pessoa: Q, o intendente do MI6.
Natasha encostou o quadril no balcão, sorrindo de leve.
— E você deveria estar monitorando terroristas, Q, não rastreando mulheres casadas.
— Eu monitoro todos os ativos de alto valor, — Q retrucou, o som de teclados frenéticos ao fundo. — Meus sensores indicam que o seu rastreador subdérmico e o dos "pacotes" (Harry e Emma) acabaram de entrar na zona de segurança de Kensington. Você voltou cedo. A escola explodiu?
— Quase. — Natasha ficou séria por um segundo. — Tivemos... complicações. O nível de ameaça subiu para Omega. Eu precisei trazê-los para o bunker.
— Entendido. — A voz de Q mudou, perdendo a ironia e ganhando profissionalismo. — O Sargento Barnes está no andar de baixo, no arsenal tático do prédio da MI6. Você quer que eu avise a ele que a cavalaria chegou?
— Não. — Natasha respondeu rápido. — Não conte a ele. Eu quero fazer surpresa quando ele chegar em casa. Ele precisa de uma boa notícia sem aviso prévio.
— Que romântico. E ineficiente. Mas eu permito. — Q suspirou. — Algo mais?
— Sim. Preciso passar na Q-Branch amanhã de manhã. Preciso de atualizações. Kevlar líquido, munição perfurante de magia... o que você tiver de mais novo e ilegal.
— Eu tenho um protótipo que pode interessar. Te vejo às 08:00. Não se atrase.
A linha caiu.
Natasha guardou o celular. A guerra exigia armas, e Q era o melhor armeiro do mundo.
Ela caminhou pelo corredor silencioso em direção aos quartos. A porta do quarto de Emma estava aberta.
Natasha parou no batente.
Emma estava sentada no parapeito estofado da janela, os joelhos puxados contra o peito, a testa encostada no vidro frio.
Lá fora, a chuva fina de Londres começava a cair, transformando a cidade em um borrão cinza e melancólico.
Emma não se mexia. Ela parecia pequena. Frágil. A postura dela gritava uma agonia silenciosa, como se ela estivesse esperando que Voldemort aparecesse flutuando entre os prédios a qualquer segundo.
Natasha sentiu uma dor física no baixo ventre.
Era irracional. Era biologicamente impossível.
A Sala Vermelha tinha tirado seu útero, seus ovários, sua capacidade de criar vida, deixando apenas uma cicatriz interna e fria.
Mas olhando para aquela menina ruiva, Natasha sentiu uma contração fantasma. Uma ligação visceral, sangrenta e absoluta.
Era como se Emma tivesse saído dela. Como se cada célula daquela garota tivesse sido tecida dentro de Natasha, e vê-la sofrer fosse o mesmo que ter um membro arrancado.
Biologia era detalhe. Maternidade era isso: a incapacidade de respirar quando seu filho está com dor.
Natasha entrou no quarto sem fazer som.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
