Capítulo 186

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Corredor da Cobertura. Sexta-feira, 15:30.

Natasha estava terminando de descarregar a máquina de lavar louça — uma tarefa mundana que ela usava para recalibrar o cérebro — quando o celular seguro no balcão vibrou.

Não era um número. Era um código de barras digital que piscava na tela.

Natasha secou as mãos e atendeu.

— Você deveria estar na Escócia, Romanoff. — A voz do outro lado era jovem, britânica, e carregada daquele tom de superioridade intelectual cansada que só podia pertencer a uma pessoa: Q, o intendente do MI6.

Natasha encostou o quadril no balcão, sorrindo de leve.

— E você deveria estar monitorando terroristas, Q, não rastreando mulheres casadas.

Eu monitoro todos os ativos de alto valor, — Q retrucou, o som de teclados frenéticos ao fundo. — Meus sensores indicam que o seu rastreador subdérmico e o dos "pacotes" (Harry e Emma) acabaram de entrar na zona de segurança de Kensington. Você voltou cedo. A escola explodiu?

— Quase. — Natasha ficou séria por um segundo. — Tivemos... complicações. O nível de ameaça subiu para Omega. Eu precisei trazê-los para o bunker.

Entendido. — A voz de Q mudou, perdendo a ironia e ganhando profissionalismo. — O Sargento Barnes está no andar de baixo, no arsenal tático do prédio da MI6. Você quer que eu avise a ele que a cavalaria chegou?

— Não. — Natasha respondeu rápido. — Não conte a ele. Eu quero fazer surpresa quando ele chegar em casa. Ele precisa de uma boa notícia sem aviso prévio.

Que romântico. E ineficiente. Mas eu permito. — Q suspirou. — Algo mais?

— Sim. Preciso passar na Q-Branch amanhã de manhã. Preciso de atualizações. Kevlar líquido, munição perfurante de magia... o que você tiver de mais novo e ilegal.

Eu tenho um protótipo que pode interessar. Te vejo às 08:00. Não se atrase.

A linha caiu.

Natasha guardou o celular. A guerra exigia armas, e Q era o melhor armeiro do mundo.

Ela caminhou pelo corredor silencioso em direção aos quartos. A porta do quarto de Emma estava aberta.

Natasha parou no batente.

Emma estava sentada no parapeito estofado da janela, os joelhos puxados contra o peito, a testa encostada no vidro frio.

Lá fora, a chuva fina de Londres começava a cair, transformando a cidade em um borrão cinza e melancólico.

Emma não se mexia. Ela parecia pequena. Frágil. A postura dela gritava uma agonia silenciosa, como se ela estivesse esperando que Voldemort aparecesse flutuando entre os prédios a qualquer segundo.

Natasha sentiu uma dor física no baixo ventre.

Era irracional. Era biologicamente impossível.

A Sala Vermelha tinha tirado seu útero, seus ovários, sua capacidade de criar vida, deixando apenas uma cicatriz interna e fria.

Mas olhando para aquela menina ruiva, Natasha sentiu uma contração fantasma. Uma ligação visceral, sangrenta e absoluta.

Era como se Emma tivesse saído dela. Como se cada célula daquela garota tivesse sido tecida dentro de Natasha, e vê-la sofrer fosse o mesmo que ter um membro arrancado.

Biologia era detalhe. Maternidade era isso: a incapacidade de respirar quando seu filho está com dor.

Natasha entrou no quarto sem fazer som.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora