Capitulo 102

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O ar da Escócia já estava frio, carregando aquele cheiro inconfundível de pinho, pedra antiga e magia que Remus Lupin não sentia há mais de uma década.

Ele estava parado na sombra de uma das arcadas de pedra, o casaco de tweed surrado e remendado apertado contra o peito magro. Ele não queria ser visto ainda. Ele precisava de um minuto.

Do outro lado do pátio, um grupo de alunos do terceiro ano da Grifinória estava reunido, rindo de algo que um garoto negro (Dean Thomas) estava desenhando no ar com a varinha.

Remus os observou. E então, o mundo parou.

Ele viu Harry. O cabelo preto indomável, espetado na parte de trás exatamente como o de James Potter ficava depois de sair de uma partida de Quadribol. Os óculos redondos tortos no nariz. A postura relaxada, as mãos nos bolsos, rindo com a cabeça jogada para trás. Era como ver um fantasma de 1975.

Mas então, Remus olhou para o lado de Harry. E o ar saiu de seus pulmões de uma vez só, como se ele tivesse levado um soco.

Emma.

Ela estava sentada na mureta de pedra, balançando as pernas. O cabelo vermelho escuro, longo e ondulado, caía sobre os ombros do uniforme, brilhando sob o sol pálido de setembro. Quando ela virou o rosto para rir de algo que Ron Weasley disse, Remus teve que segurar a parede de pedra para não perder o equilíbrio.

Ela era a imagem viva de Lily Evans. Não apenas o cabelo. O formato do rosto. O jeito como ela franzia o nariz quando ria. A gentileza inteligente na postura. E os olhos. Mesmo de longe, Remus podia ver. Verdes. Brilhantes. Os olhos de Lily.

Por um segundo agonizante, Remus não viu duas crianças de treze anos. Ele viu seus melhores amigos. Ele viu James e Lily, vivos, jovens, intocados pela guerra e pela traição. A dor da perda, que ele tinha aprendido a enterrar sob camadas de estoicismo e chocolate, subiu pela garganta, crua e sufocante.

Eles estão aqui, ele pensou, com o coração doendo. James e Lily ainda estão aqui.

Ele respirou fundo, forçando o lobo dentro dele a se acalmar, forçando o professor a assumir o controle. Ele ajeitou a pasta de couro gasta debaixo do braço e saiu das sombras.

Ele caminhou pelo pátio. O som de seus passos fez o grupo parar de rir e olhar. Harry e Emma se viraram.

Remus parou a alguns metros deles. Ele viu a curiosidade nos olhos de Harry. E viu algo mais nos olhos de Emma — uma análise rápida, inteligente. Ela estava lendo-o, exatamente como Lily fazia quando ele tentava esconder que estava cansado depois da lua cheia.

— Bom dia — Remus disse. A voz dele saiu um pouco mais rouca do que ele pretendia, mas ele abriu um sorriso gentil, cansado, mas genuíno.

— Bom dia, Professor — o grupo respondeu em coro, meio desajeitado.

Remus focou nos gêmeos. Ele não podia abraçá-los. Ele não podia dizer "Eu segurei vocês no colo quando vocês tinham um dia de vida". Ele não podia dizer "Eu sinto tanta falta dos pais de vocês que às vezes esqueço como respirar".

Então, ele disse a única coisa que podia.

— Eu sou o Professor Lupin — ele se apresentou, olhando de Harry para Emma, gravando cada detalhe dos rostos deles na memória. — Eu serei o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas de vocês.

Ele fez uma pausa, os olhos marejados brilhando com uma afeição que as crianças não conseguiram identificar completamente, mas sentiram.

— Eu só... — Remus hesitou, sorrindo tristemente. — Eu só queria dizer que estou muito feliz em saber que vou ver vocês na minha aula hoje à tarde. Ouvi coisas ótimas sobre vocês.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora