Passarela 4. Nível de Detenção do Helicarrier.
O ar cheirava a ozônio e metal queimado. O alarme de emergência piscava em vermelho, banhando o corredor em uma luz intermitente que transformava tudo em um filme de terror estroboscópico.
Natasha caminhava devagar, a respiração controlada, as armas abaixadas, mas prontas.
— Clint? — chamou ela. A voz ecoou no metal.
Uma sombra se moveu nas vigas acima. Uma flecha voou.
Natasha não pensou. O corpo dela reagiu antes do cérebro, jogando-se para o lado. A flecha explodiu no chão onde ela estava um milésimo de segundo antes, liberando uma nuvem de gás concussivo.
— Você não quer fazer isso, Clint — gritou ela, rolando para trás de uma caixa de suprimentos.
Clint Barton desceu de um rapel silencioso, pousando como um gato a três metros dela. Seus olhos, normalmente de um azul claro e zombeteiro, estavam negros. A íris brilhava com aquele azul elétrico, frio e alienígena da magia de Loki.
Ele não disse nada. Ele apenas sacou o arco recurvo, puxou outra flecha e disparou.
Natasha avançou.
A luta foi brutal. Não era uma coreografia de filme. Era uma briga desesperada entre dois assassinos que conheciam cada movimento, cada fraqueza e cada cicatriz do outro.
Clint tentou acertá-la com o arco. Natasha bloqueou com os braceletes, a eletricidade estalando. Ela tentou derrubá-lo com uma rasteira. Ele pulou, usando a parede como impulso para chutar o rosto dela.
Natasha sentiu o gosto de sangue novamente.
— Clint! — gritou ela, agarrando o braço dele e torcendo. — Sou eu! É a Nat! Lembre-se de Budapeste! Lembre-se da Laura!
O nome da esposa fez o rosto de Clint tremer por um segundo, mas a máscara de Loki voltou. Ele puxou uma faca da bota e tentou estocar o estômago dela.
Natasha desviou, segurando o pulso dele. Eles ficaram travados ali, rosto a rosto, força contra força.
— Lembre-se da Emma — sussurrou Natasha, desesperada, usando sua última arma. — Lembre-se da Little Red. Você é o tio dela, Clint. Você prometeu.
Algo cintilou nos olhos dele. Hesitação.
Foi a abertura que Natasha precisava.
Ela não hesitou. Ela mordeu a mão dele — forte, selvagem — fazendo-o largar a faca. Enquanto ele recuava, ela girou e acertou um chute giratório na têmpora dele.
Ele cambaleou.
Natasha avançou, agarrou a cabeça dele e bateu com força contra a grade de metal da passarela.
BAM.
Clint caiu no chão, imóvel.
Natasha caiu ao lado dele, ofegante, o coração parecendo que ia explodir. Ela colocou a mão no pescoço dele. Pulso forte.
— Recalibragem cognitiva completa — murmurou ela, limpando o suor e o sangue da testa. — Seu idiota.
Enfermaria do Helicarrier. Horas Depois.
Clint estava sentado numa maca baixa, lavando o rosto numa bacia de metal. Ele tremia. Os tremores de abstinência de quem teve a mente violada.
Natasha estava encostada na parede, observando-o. Ela tinha recusado tratamento para suas próprias feridas até que ele acordasse.
Clint levantou o rosto molhado. Os olhos estavam claros novamente. Cansados, cheios de culpa, mas eram os olhos dele.
— Natasha... — a voz dele era um lixa.
— Eu estou aqui.
— Quantos? — perguntou ele. — Quantos eu matei?
— Não se torture, Clint. Era o Loki. Não era você.
— Mas eu sabia — disse ele, olhando para as próprias mãos. — Eu via tudo. Eu sabia onde atirar para matar. Eu...
Ele parou, engolindo em seco. Ele olhou para Natasha com um pânico súbito.
— Nat... eu contei coisas para ele. Ele entrava na minha cabeça e puxava segredos.
Natasha desencostou da parede. O medo gelou seu estômago.
— O que você contou, Clint?
— Ele queria saber como te machucar — sussurrou Clint. — Ele perguntou sobre o seu passado. Sobre o Livro Vermelho. Sobre Dreykov.
— E? — Natasha se aproximou, ajoelhando-se na frente dele, segurando os joelhos dele. — E sobre Nova York? Sobre a cobertura? Sobre ela?
Clint fechou os olhos, forçando a memória através da névoa azul.
— Eu... eu lutei contra isso, Nat. — Ele abriu os olhos, cheios de lágrimas. — Ele viu a Laura. Ele viu a fazenda. Mas quando ele chegou perto da memória dela... da Emma... eu escondi. Eu enterrei no fundo, Nat. Eu juro. Eu não deixei ele ver a garota.
Natasha soltou o ar, fechando os olhos e encostando a testa na de Clint. O alívio foi tão forte que ela quase chorou.
— Obrigada — sussurrou ela. — Obrigada, Clint.
— Eu morreria antes de entregar ela — disse Clint, a voz firme. — Eu sou o padrinho não-oficial, lembra?
Natasha sorriu, um sorriso triste e carinhoso. Ela apertou a mão dele.
— Você vai ficar bem, Gavião.
— Nós vamos? — perguntou ele.
— Nós temos que ficar. — Natasha se levantou, a máscara de guerra voltando ao lugar. — Porque aquele deus idiota está indo para Nova York. E a minha filha está lá. Se ele tocar em um prédio daquela cidade, eu vou arrancar os chifres do capacete dele e...
— Ok, ok — Clint riu, pegando seu arco que estava ao lado da maca. — Já entendi. Ninguém mexe com a cria da Aranha. Vamos lá. Temos uma guerra para vencer.
Batalha de Nova York. Midtown Manhattan.
O céu acima de Nova York tinha se rasgado. Um buraco de minhoca vomitava baleias alienígenas encouraçadas e soldados Chitauri sobre a cidade.
No solo, Natasha Romanoff lutava como se estivesse possuída.
Ela não tinha superpoderes. Não tinha armadura de ferro. Não tinha soro. Ela tinha duas pistolas, seus braceletes e uma motivação que nenhum dos outros Vingadores tinha: Proximidade.
O apartamento em Upper West Side estava a apenas quarenta quarteirões dali. Se os Chitauri passassem da linha de contenção... se eles subissem a ilha...
— Capitão! — gritou ela, disparando contra dois alienígenas. — O banco! Tem civis presos!
Steve Rogers, no meio da rua, lançou o escudo, decapitando um Chitauri.
— Estou indo! Nat, eu preciso de um impulso para a ponte!
— Entendido!
Natasha correu, pulou sobre o capô de um táxi e se lançou sobre o escudo que Steve posicionou. Ele a impulsionou para o ar. Natasha voou, agarrou uma das "baleias" voadoras que passava, pegou uma carona mortal e pulou na ponte, atirando em tudo que se movia.
O comunicador chiou.
— Natasha! — era a voz de Tony Stark. — Como estamos no solo?
— Estamos segurando, mas eles não param de vir! — respondeu ela, recarregando. — Precisamos fechar o portal!
Ela olhou para a Torre Stark. O topo brilhava com a energia do Tesseract.
— Eu vou subir — disse Natasha. — Vou pegar o cetro do Loki. Talvez ele feche o cubo.
— É suicídio, Romanoff! — gritou Clint pelo rádio, de algum telhado próximo.
— É a única chance! — retrucou ela.
Ela pegou uma carona em uma das naves inimigas, esfaqueando o piloto e dirigindo a coisa até bater no terraço da Torre Stark.
Lá em cima, o Dr. Selvig estava acordando do transe.
— O cetro... — murmurou Selvig. — A chave...
Natasha viu o cetro de Loki caído no chão. Ela o pegou. A energia da pedra pulsou em sua mão, tentando invadir sua mente, tentando seduzi-la.
Natasha pensou em Emma. Pensou no sorriso dela comendo ovos. Pensou na varinha de cerejeira. A mente dela era blindada por algo mais forte que magia alienígena: amor materno.
Ela caminhou até o gerador do portal.
— Stark! Estou na posição! — gritou ela. — Posso fechar!
— Espere! — gritou Tony. — Tem um míssil nuclear vindo para a cidade! Eu vou interceptar!
Natasha olhou para o céu. Tony Stark guiou o míssil para dentro do portal, salvando Nova York, salvando Emma.
Quando Tony caiu de volta, desacordado, e o Hulk o pegou no ar, Natasha sentiu as lágrimas escorrerem.
— Feche, Natasha! — gritou Steve.
Ela empurrou o cetro contra o campo de força. A energia explodiu. O feixe de luz azul cortou. O portal no céu se fechou, decapitando a invasão.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Natasha caiu de joelhos no terraço, exausta, machucada, mas viva.
Ela olhou para o norte, na direção do Upper West Side. A fumaça subia de Midtown, mas os prédios residenciais ao longe estavam intactos.
— Você está segura, Little Red — sussurrou ela, fechando os olhos por um momento. — A mamãe conseguiu.
Central Park. O Dia Seguinte.
A despedida foi breve. Thor levou Loki e o Tesseract de volta para Asgard. Bruce entrou no carro de Tony Stark para um "retiro de pesquisa e desenvolvimento".
Clint abraçou Natasha com força.
— Vou pegar um voo para ver a Laura e as crianças — disse ele. — Você vem?
— Não — disse Natasha. — Tenho minha própria criança para ver.
Clint sorriu e piscou.
— Dê um beijo nela por mim. E diga que o tio Clint vai levar um arco de verdade na próxima visita.
— Se você fizer isso, eu te mato de novo.
Clint riu e se afastou, entrando num carro da S.H.I.E.L.D.
O parque esvaziou. Apenas Natasha e Steve Rogers ficaram para trás.
Steve estava à paisana, vestindo uma camisa xadrez e jaqueta de couro marrom. Ele parecia um pouco perdido sem a guerra. Ele segurava o capacete da moto nas mãos.
Natasha estava encostada em sua moto esportiva preta. Ela usava jeans e uma jaqueta de couro justa. Ela queria ir para casa. Queria correr para o apartamento, abraçar Emma e nunca mais soltar.
Mas ela sabia que cheirava a batalha. Sabia que seus olhos ainda tinham o reflexo da violência. Ela precisava de um "espaço de descompressão" antes de ver a filha. Ela não podia levar a Viúva Negra para casa hoje.
Steve se aproximou, chutando uma pedrinha no chão.
— Bom trabalho, Romanoff — disse ele, sincero.
— Você também, Capitão. Você liderou bem.
— Foi um caos — admitiu Steve, olhando para a Torre Stark, que agora tinha apenas a letra "A" sobrando. — Mas estamos vivos.
— Estamos.
Houve um silêncio. Não era constrangedor, mas era carregado. Eles tinham lutado lado a lado. Steve tinha salvado a vida dela no Helicarrier. Ela tinha fechado o portal. Havia um respeito mútuo que tinha nascido no fogo.
Steve olhou para ela, parecendo hesitar.
— Escuta... — começou ele, coçando a nuca. — Eu não conheço muito de Nova York. A última vez que estive aqui, o Brooklyn era diferente e o café custava cinco centavos.
Natasha arqueou uma sobrancelha, divertida.
— A inflação é uma droga, Rogers.
Steve sorriu, aquele sorriso de menino bom que desarmava qualquer defesa.
— É. Eu ia procurar um lugar para... sei lá, descomprimir. Talvez tomar alguma coisa que não tenha gosto de ração militar.
Ele olhou nos olhos dela.
— Você... você gostaria de vir? Eu pago. Prometo não reclamar da música moderna.
Natasha abriu a boca para recusar. O instinto gritava: Vá para a Emma.
Mas ela olhou para as próprias mãos, que ainda tremiam levemente de adrenalina. Ela precisava de trinta minutos. Precisava de trinta minutos para ser apenas uma pessoa, conversando com outra pessoa que entendia o peso do que acabara de acontecer, antes de ser a mãe perfeita.
E Steve... Steve era seguro. Ele era honrado. E, curiosamente, a companhia dele era a única que não a exauria.
Natasha sorriu, pegando o capacete da moto.
— Sabe de uma coisa, Rogers? Eu conheço um lugar no Village. Jazz ruim, bebida boa e ninguém pergunta quem somos.
O rosto de Steve se iluminou.
— Parece perfeito.
— Mas eu dirijo — avisou Natasha, subindo na moto e ligando o motor. — Tente me acompanhar, Capitão.
— Eu sempre acompanho — respondeu ele, subindo na moto dele.
Natasha acelerou. Enquanto o vento batia em seu rosto, ela se permitiu relaxar.
Ela mandou uma mensagem mental para Emma: Estou chegando, filha. Só mais um pouco.
E, pela primeira vez em anos, Natasha Romanoff não estava fugindo de seu passado, nem correndo apenas para sobreviver. Ela estava celebrando a vida.
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Daughter of No One
أدب الهواةHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
