Capítulo 138

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O expediente oficial tinha acabado. M, com seu guarda-chuva e sua pontualidade britânica, já estava a caminho de casa. Mas Natasha Romanoff não tinha casa para onde voltar — ou pelo menos, não uma que parecesse um lar no momento. Então, ela fez o que sempre fazia quando precisava calar o barulho na cabeça: ela foi treinar.

Ela trocou o vestido preto e os scarpins por um top esportivo preto, leggings de compressão e tênis de corrida. Prendeu o cabelo ruivo em um rabo de cavalo alto e firme. E, porque treinar sozinha era monótono e ela precisava de dados técnicos, ela arrastou a única pessoa que ainda estava no prédio e não podia dizer não para ela.

— Isso é violação dos direitos trabalhistas, Natasha! — Q reclamou, ajustando os óculos, segurando um tablet com uma mão e um cronômetro na outra. Ele estava vestido com seu cardigã de sempre e parecia deslocado no ambiente de academia. — Eu sou o Quartermaster. Eu crio gadgets. Eu não sou personal trainer!

— Pare de chorar, Q — Natasha respondeu, alongando os braços no centro do tatame. — Eu preciso de dados biométricos em tempo real. Você monitora, eu bato. Simples. — Além do mais, M disse que eu não podia treinar sozinha. Ele não disse que o supervisor precisava ser competente em luta.

— "Competente"? — Q ofendeu-se. — Eu sou extremamente competente em... não morrer. E M vai me matar se souber que eu deixei você fazer esforço físico intenso.

— O M não vai saber. A menos que você conte. E se você contar... — Natasha deu um chute giratório no ar, a perna passando zunindo a centímetros do nariz de Q.

Q engoliu em seco e recuou. — Entendido. O segredo morre comigo. Vamos começar logo com isso.

Natasha sorriu. Ela começou. Não foi um treino leve. Ela foi direto para a pista de obstáculos táticos. Ela correu, saltou, rolou. Subiu na corda usando apenas a força dos braços. Atravessou as barras paralelas com a fluidez de uma ginasta olímpica e a agressividade de uma assassina. Ela socava os alvos móveis com precisão letal. Bam. Bam. Bam.

Q olhava para o tablet, os olhos arregalados, observando os gráficos de batimentos cardíacos, saturação de oxigênio e resposta muscular. — Inacreditável... — ele murmurou. — Seus níveis de recuperação estão 15% acima da média pré-trauma. A neuroplasticidade está compensando qualquer tremor residual com reflexos aprimorados. — Natasha, você não está recuperada. Você está... otimizada.

Natasha parou, pendurada na barra de elevação, o suor brilhando na pele, os músculos das costas definidos sob o top. Ela soltou uma risada, descendo com graça. — Eu disse a eles, Q. Eu disse que não era de vidro.

Nas sombras da entrada do Ginásio.

Bucky estava encostado na coluna de concreto, nas sombras, onde a luz do ginásio não alcançava. Ele não tinha ido para casa. Ele tinha ficado. Ele observava.

Ele viu Natasha se mover. Ele viu a força bruta com que ela atacava os obstáculos. Viu a determinação nos olhos dela. Viu como ela ria das reclamações do Q, uma risada genuína, cheia de adrenalina, a mesma que ela dava quando pulava de aviões sem paraquedas.

Bond estava certo. Ela não era frágil. Aquela mulher no tatame, suada, letal e sorrindo para o perigo... ela era a Viúva Negra. Ela era a mulher que tinha derrubado a Sala Vermelha. E ele, Bucky, tinha passado o último mês tentando transformá-la em uma paciente geriátrica.

A vergonha queimou no peito dele, mas logo foi substituída por outra coisa. Admiração. E desejo. Um desejo cru, que ele tinha sufocado sob camadas de preocupação e culpa.

Ele olhou para a forma como ela se movia, para a confiança que irradiava dela. Ele percebeu que não precisava protegê-la do mundo. Ele precisava correr ao lado dela. E se o mundo tentasse machucá-la, eles sangrariam o mundo juntos.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora