Capitulo 16

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Nat: hey hey, respira tá tudo bem... você tá a salvo foi só um pesadelo
Horas depois.
Natasha acordou com o bipe familiar de monitores cardíacos. Seu torso estava enfaixado firmemente como um espartilho de gesso. Cada respiração era um lembrete agudo da batalha — três costelas quebradas não eram brincadeira —, mas a dor estava abafada por uma dose cavalar de morfina.
Ela abriu os olhos, piscando contra a luz fraca.
Steve Rogers estava sentado numa cadeira de plástico ao lado da cama, ainda usando o uniforme de combate sujo de poeira e fuligem. Ele lia um relatório, a testa franzida de preocupação.
— Hey — sussurrou ele, ao ver os cílios dela tremerem. Ele largou o papel imediatamente e se inclinou para frente. — Você voltou.
— Eu fui a algum lugar? — perguntou Natasha, a voz rouca e seca.
— Você apagou, Nat. O médico disse que foi o choque traumático. Três costelas quebradas, uma trincada e contusões severas. — Steve balançou a cabeça, um meio sorriso de alívio no rosto. — Ele disse que qualquer pessoa normal estaria em coma, mas você é... bem, você é você.
— Teimosa? — sugeriu ela, tentando se ajeitar e gemendo baixo.
— Resistente.
— O Cubo? — foi a prioridade dela.
— Seguro. Fury já o despachou para o cofre. Thor foi atrás do Loki. Disse que vai caçá-lo até os confins dos Nove Reinos se precisar.
Houve um momento de silêncio confortável. Steve olhou para as mãos enluvadas, hesitando.
— Nat... quando você estava apagando, lá no pátio... você falou umas coisas estranhas.
O coração de Natasha falhou uma batida no monitor, o bip acelerando por um segundo antes que ela controlasse sua respiração.
— Falei? — Ela manteve o rosto neutro, a máscara de espiã voltando ao lugar instantaneamente.
— Sim. Você murmurou algo sobre um velho... "Dumbledore"? E algo sobre limão. — Steve olhou para ela, curioso. — É algum código? Algum contato que precisamos verificar?
Natasha soltou uma risada fraca, que logo se transformou numa careta de dor.
— Dumbledore? — Ela revirou os olhos, atuando perfeitamente. — Steve, eles me deram morfina suficiente para derrubar um elefante. Eu provavelmente estava delirando sobre algum conto de fadas russo ou sonhando com o Papai Noel.
— Então não é um ativo comprometido?
— O único ativo comprometido aqui é o meu cérebro sob efeito de drogas pesadas. — Ela olhou para ele com firmeza. — Esqueça isso, Rogers. A dor faz a gente falar coisas sem sentido.
Steve estudou o rosto dela por um segundo. Ele era um supersoldado, mas não era um detector de mentiras humano como ela. E ele confiava nela.
— Tudo bem — ele relaxou os ombros. — Só queria checar. Fiquei preocupado.
Ele se levantou, esticando as costas doloridas.
— Vou deixar você descansar. O Fury quer um debriefing assim que você conseguir ficar em pé, mas eu disse a ele para esperar sentado. Ninguém toca em você até o médico liberar.
— Obrigada, Steve. — Dessa vez, a gratidão foi sincera. — Por me carregar.
— Sempre. — Ele sorriu e caminhou até a porta. — Vou buscar um café. Tente não lutar contra nenhuma enfermeira enquanto eu estiver fora.
Steve saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
O quarto mergulhou no silêncio.
Natasha soltou o ar que estava prendendo. Foi por pouco. Ela não podia envolver o Steve nisso. Não podia envolver a S.H.I.E.L.D. Magia, memórias apagadas, bruxos... isso era pessoal. Era a única coisa na vida dela que era apenas dela.
Ela fechou os olhos, sentindo o peso do cansaço.
— Uma mentira convincente, Srta. Romanoff — disse uma voz calma vinda do canto escuro do quarto. — Embora eu deva dizer que ser comparado ao Papai Noel é um elogio, considerando minha barba.
Natasha abriu os olhos num sobressalto, tateando o lençol em busca de uma arma que não estava lá.
Albus Dumbledore saiu das sombras perto da janela. Ele não tinha entrado pela porta. Ele simplesmente estava lá, como se fizesse parte da mobília, usando vestes cinza-chumbo que se misturavam à penumbra.
— Você gosta de aparecer sem ser convidado, não é? — resmungou Natasha, relaxando ao ver que não era um inimigo.
— Eu disse que acharia você — lembrou ele, aproximando-se da cama com as mãos nas costas. — E, pelo visto, cheguei num momento oportuno. Você lutou bravamente hoje, Natasha.
— Eu quase morri hoje — corrigiu ela.
— E, no entanto, aqui está você. Viva. E com a mente cheia de perguntas que a morfina não consegue calar.
Dumbledore parou ao lado da cama. Ele olhou para ela com aquela expressão séria e penetrante que despia a alma.
— O Capitão Rogers se foi. Estamos sozinhos. Você está pronta para parar de fingir que são delírios e encarar o que a Sala Vermelha roubou de você?
Natasha olhou para a porta fechada por onde Steve saíra, depois para o velho bruxo. A dor nas costelas era real. Mas a dor do vazio na memória, a dor de ouvir Lilian gritar nos sonhos... aquilo era pior.
Ela assentiu, uma única vez.
— Faça parar — pediu ela, a voz baixa. — Faça eu lembrar.
Dumbledore sacou a varinha de dentro da manga.
— Não vai doer, minha cara. A verdade, por mais dura que seja, é sempre um alívio.
Ele tocou a ponta da varinha na têmpora de Natasha.
— Legilimens.
O quarto de hospital se dissolveu em fumaça prateada. O bipe do monitor sumiu. E Natasha Romanoff mergulhou para trás, caindo através do tempo, em direção a uma Londres chuvosa de 1995, onde uma jovem ruiva estava prestes a entrar em um café e mudar sua vida.
Londres, 1995 (ajustando a timeline).
Natasha Romanoff — ou melhor, Natalia Alianovna Romanova — tinha quinze anos.
Ela estava sentada em um muro baixo de tijolos perto de um parque em Westminster. Ela usava um jeans largo, um All Star surrado e uma jaqueta de couro sintético que roubara de um varal para se misturar. Seus cabelos ruivos estavam soltos, rebeldes.
Ela parecia apenas mais uma adolescente matando aula.
Ninguém via a faca presa na manga da jaqueta. Ninguém sabia que ela estava memorizando a rota de um diplomata que passava por ali todos os dias às 14h. Ninguém sabia que ela era a "Viúva Negra" em treinamento, em sua primeira missão solo fora da Cortina de Ferro.
Ela estava entediada. E com fome.
— Você vai comer isso tudo sozinha? — perguntou uma voz divertida ao lado dela.
Natasha virou a cabeça, o instinto assassino controlado por um fio de cabelo.
Sentada ao lado dela no muro, balançando as pernas, estava uma garota. Ela tinha a mesma idade de Natasha. Quinze anos.
Ela tinha cabelos ruivos também, mas eram de um tom vermelho escuro, profundo, como sangue oxidado e fogo. O rosto era coberto de sardas e ela tinha os olhos verdes mais brilhantes que Natasha já vira. Ela usava um vestido floral com botas pesadas, um estilo meio grunge, meio hippie.
— O quê? — perguntou Natasha, ríspida, com seu sotaque russo carregado.
A garota apontou para o pacote de batatas fritas gordurosas que Natasha segurava.
— As batatas. Eu estou morrendo de fome. Fugi da minha irmã horrível e esqueci a carteira.
A audácia da garota fez Natasha piscar. Na Sala Vermelha, pedir comida era sinal de fraqueza. Aqui, parecia... normal.
Natasha estendeu o pacote.
— Pode pegar.
A garota sorriu — um sorriso largo, que mostrava todos os dentes e iluminava o dia cinzento.
— Você é um anjo! — Ela pegou uma batata. — Eu sou Lilian. Lily.
— Natalia — respondeu Natasha, automaticamente.
— Natalia... — Lilian testou o nome. — Nome forte. Russo?
— Intercâmbio — mentiu Natasha. — Meus pais são... diplomatas.
— Sorte a sua — bufou Lilian, de boca cheia. — Meus pais são ótimos, mas minha irmã, Petúnia... ela age como se eu fosse uma aberração só porque eu vou para uma escola especial.
— Escola especial? — Natasha arqueou a sobrancelha. Internato militar? Reformatório?
— É um... internato na Escócia — disse Lilian vagamente. — Para pessoas com... talentos. É incrível, mas as pessoas normais não entendem.
Natasha quase riu. Talentos. Se ela soubesse o que era a "escola especial" de Natasha...
— Eu entendo — disse Natasha, olhando para os próprios tênis. — Eu também vou para uma escola especial. Balé e... disciplina. É rígido. Não temos permissão para ter amigos de fora.
Lilian parou de comer e olhou para Natasha. Havia uma compreensão imediata ali. Duas garotas deslocadas. Duas garotas que viviam em mundos secretos que ninguém mais entendia.
— Então somos duas fugitivas — declarou Lilian, batendo o ombro no de Natasha. — Que se dane a disciplina. Vamos ser amigas por hoje.
Aquele "hoje" virou uma semana inteira.
A missão de vigilância de Natasha era lenta. E, inexplicavelmente, a melhor assassina juvenil da Rússia começou a falhar em seus protocolos.
Em vez de estudar mapas, ela encontrava Lilian.
Elas eram apenas duas adolescentes de quinze anos soltas em Londres.
Elas correram pelas ruas do Soho. Entraram em lojas de disco para ouvir David Bowie nos fones de ouvido da loja sem comprar nada. Experimentaram roupas absurdas em brechós de Camden Town.
Lilian era fascinante. Ela reclamava de um garoto da escola dela.
— O nome dele é James — dizia Lilian, revirando os olhos enquanto tomavam refrigerante num banco de praça. — James Potter. Ele é um idiota arrogante. Vive bagunçando o cabelo e se achando o rei da escola. Eu odeio ele.
— Odeia mesmo? — provocou Natasha, com um sorriso de canto. — Porque você fala dele a cada dez minutos.
— Eu não falo! — Lilian corou, ficando tão vermelha quanto o cabelo. — É que ele... ele me irrita! Mas... ele salvou um amigo nosso mês passado. Talvez ele não seja tão ruim. Mas não conte pra ninguém que eu disse isso!
Natasha riu. Uma risada verdadeira, rouca.
— Seu segredo está seguro comigo, Lily. Eu sou um túmulo.
— E você, Nat? — perguntou Lilian. — Algum garoto na sua escola de balé russa?
O sorriso de Natasha sumiu. Na Sala Vermelha não havia garotos. Havia alvos. Havia instrutores. Havia competição mortal.
— Não — disse ela, fria. — Não há espaço para isso na minha vida. Eu tenho... um destino traçado.
Lilian percebeu a mudança de humor. Ela não pressionou. Em vez disso, ela pegou a mão de Natasha.
— Sabe... você não precisa ser o que eles querem que você seja — disse Lilian, séria. — Minha irmã diz que sou uma aberração. Mas eu sei que sou bru... — ela se cortou — que sou especial. Você também é, Nat. Você é mais do que essa tristeza nos seus olhos.
Natasha olhou para Lilian. Aquela garota inglesa, civil, frágil... estava vendo através da armadura da Viúva Negra com uma facilidade assustadora.
— Você não sabe o que eu sou — sussurrou Natasha.
— Eu sei que você dividiu suas batatas comigo — disse Lilian, simples. — E isso é o suficiente.
O fim chegou rápido e violento, como tudo na vida de Natasha.
No sétimo dia, a ordem de extração veio. Natasha tinha completado a missão. Ela tinha roubado os códigos. O avião partiria em duas horas.
Ela foi ao ponto de encontro habitual: a ponte sobre o lago no parque.
Lilian estava lá, jogando pedrinhas na água.
— Eu tenho que ir — disse Natasha, sem preâmbulos. Ela estava vestida para viajar, a mochila pesada nas costas.
Lilian se virou. O sorriso morreu.
— Voltar para a Rússia?
— Sim.
— Você vai voltar? — perguntou Lilian, esperançosa. — Nas próximas férias?
Natasha engoliu o nó na garganta.
— Não. Eu não acho que vou voltar. Minha escola... é para a vida toda, Lily.
Lilian mordeu o lábio, segurando as lágrimas. Ela entendeu. Era um adeus definitivo.
— Eu queria ter mais tempo — disse Lilian. — Eu ia te mostrar tantas coisas.
Ela enfiou a mão no bolso da jaqueta jeans.
— Toma.
Ela entregou a Natasha um pequeno colar. Era barato, comprado em uma feira de rua, com um pingente em forma de lírio prateado.
— Para você não esquecer da sua amiga inglesa chata que fala demais sobre o Potter.
Natasha segurou o colar. O metal estava quente pelo corpo de Lilian.
— Lily... — Natasha queria dizer a verdade. Queria dizer "Eu sou uma assassina. Fuja de mim." Mas ela não conseguiu. Ela queria ser Natalia por mais um minuto.
— Prometa uma coisa — disse Lilian, segurando as mãos de Natasha. — O mundo é grande e assustador. Se a gente se perder... se um dia você precisar de ajuda, ou se eu precisar... a gente se ajuda. Promessa de dedinho.
Era infantil. Era bobo. Era algo que duas meninas de quinze anos fariam.
Mas Lilian estava mortalmente séria.
Natasha entrelaçou seu dedo mindinho no de Lilian.
— Eu prometo — disse Natasha. — Se você precisar de mim, eu vou te achar. Ninguém vai te machucar enquanto eu estiver viva.
Lilian sorriu, com lágrimas nos olhos, e puxou Natasha para um abraço esmagador.
— Adeus, Nat. Tente não ser tão durona o tempo todo.
— Adeus, Lily. Tente dar uma chance para o Potter. Ele parece gostar de você.
Lilian riu entre o choro.
Natasha se soltou, virou as costas e caminhou para longe, sentindo o peso do colar no bolso e o peso da promessa na alma.
A memória começou a girar e desaparecer. O parque sumiu. O rosto sardento de Lilian de 15 anos sumiu.
Mas então, uma última imagem brilhou na escuridão da mente de Natasha, uma imagem que ela não tinha vivido conscientemente, mas que estava enterrada lá.
A fumaça prateada da Penseira engoliu Natasha mais uma vez, mas desta vez, a queda foi mais profunda. Ela não caiu num verão adolescente. Ela caiu num inverno rigoroso e adulto.
Londres, 1998
Natasha Romanoff tinha 18 anos.
Ela não era mais a menina de jeans largo. Ela agora era uma mulher feita, afiada como uma lâmina de obsidiana. Seu codinome na operação era "Natalie Rushman", uma estudante de História da Arte na Universidade de Londres, que trabalhava meio período no arquivo de um museu — um museu que, convenientemente, compartilhava a parede dos fundos com uma subestação de comunicações do MI6.
A Sala Vermelha a enviara para roubar a lista de agentes duplos britânicos na KGB. Era uma missão de longo prazo. Solitária. Fria.
Exceto por uma luz quente em um apartamento em Godric's Hollow.
A memória se solidificou em uma sala de estar pequena, bagunçada e acolhedora. Havia canecas de chá flutuando sozinhas em direção à pia e um rádio tocando rock clássico.
Natasha estava sentada no sofá, limpando uma ferida no braço. Lilian Potter — agora com 20 anos, o rosto um pouco mais maduro, mas com o mesmo fogo nos olhos — estava ajoelhada à frente dela, segurando uma varinha.
— Fique quieta, Nat — repreendeu Lilian, suavemente. — Episkey.
A ponta da varinha ficou quente. A pele rasgada de Natasha, cortada por uma faca durante uma briga em um beco duas horas antes, se uniu. A dor sumiu.
Natasha olhou para o braço, depois para Lilian.
— Eu nunca vou me acostumar com isso — murmurou Natasha.
— É magia, sua boba. É prático. — Lilian guardou a varinha e se sentou no chão, apoiando as costas no sofá, perto das pernas de Natasha.
Tinham se reencontrado há seis meses. Natasha, quebrando todos os protocolos, procurou o nome "Lilian Potter" na lista telefônica. Ela precisava de um âncora. Ela estava se afogando na escuridão da espionagem e Lilian era a única coisa real que ela conhecia.
A amizade reacendeu como se os três anos de separação nunca tivessem existido. Mas agora, não havia mais segredos.
— Você quase morreu hoje — disse Lilian, a voz séria. — Aquele homem...
— Ele era um contato da HYDRA. Eu tive que... neutralizá-lo — Natasha disse a palavra clínica para não dizer "matar". — Ele sabia quem eu era.
Lilian suspirou, passando a mão na barriga. Ela estava grávida de cinco meses. A protuberância era visível sob o suéter largo de tricô.
— Estamos vivendo em dois infernos diferentes, Nat — disse Lilian. — Você com seus espiões e assassinos. E eu... com Ele.
"Ele" era Voldemort. Natasha já sabia sobre a guerra bruxa. Lilian contara tudo. As mortes, os desaparecimentos, o medo constante de ver a Marca Negra no céu. A Ordem da Fênix, o grupo de resistência do qual Lilian e James faziam parte.
— O mundo está queimando — concordou Natasha, passando a mão no cabelo ruivo da amiga. — E nós estamos aqui, tentando não virar cinzas.
Lilian virou-se e segurou a mão de Natasha.
— Prometa que vai ter cuidado. Eu não posso perder você. Não agora que... as coisas estão piorando.
— Eu sou a Viúva Negra, Lily — Natasha sorriu, um sorriso triste e arrogante. — Eu sou a coisa mais perigosa na noite.
— Não é, não — Lilian olhou para a janela escura. — Existe maldade pura lá fora, Nat. Maldade que não sangra quando você corta.
Três Meses Depois. Outubro de 1980.
A chuva batia violentamente contra as vidraças da casa dos Potter. James estava fora, em uma missão da Ordem.
Lilian estava enorme. Oitavo mês. Ela andava pela sala com dificuldade, uma mão nas costas e outra na barriga.
Natasha estava na cozinha, preparando um chá. Ela tinha vindo direto de uma entrega de informações. Suas mãos ainda cheiravam a pólvora, mas ela as lavara três vezes.
— Nat, vem aqui — chamou Lilian. A voz dela estava estranha. Trêmula.
Natasha correu para a sala, a mão indo para a arma no coldre oculto.
— O que foi? O bebê?
— Não. — Lilian estava parada diante da lareira apagada. Ela segurava um pequeno frasco de cristal com um líquido dourado e espesso que brilhava com luz própria. — Sente-se. Precisamos conversar.
Natasha sentou-se, preocupada.
— Você está me assustando, Lily.
Lilian se sentou com dificuldade na poltrona à frente dela. Ela olhou para Natasha com uma intensidade que fez a espiã estremecer.
— Dumbledore nos disse... há uma profecia — começou Lilian. — Sobre os bebês. Sobre Harry e Emma.
— Profecia? — Natasha franziu a testa. — Tipo... destino?
— Tipo um alvo nas costas deles — corrigiu Lilian, com raiva. — Voldemort acredita que um dos meus filhos vai destruí-lo. Ele está vindo atrás de nós, Nat. Nós estamos nos escondendo, usamos o Feitiço Fidelius, mas... eu sinto.
Lilian colocou a mão no peito.
— Eu sou mãe. Eu sinto a sombra chegando. James é otimista, ele confia nos amigos. Mas eu... eu preciso de garantias.
Ela empurrou o frasco dourado pela mesa em direção a Natasha.
— O que é isso? — perguntou Natasha.
— Sirius Black é o padrinho do Harry — disse Lilian. — Se algo acontecer com a gente, Sirius vai criar o Harry. Ele é leal, é um guerreiro. Harry terá proteção no mundo bruxo.
Lilian respirou fundo, segurando as lágrimas.
— Mas a Emma... ela é diferente, Nat. Eu sinto a magia dela. É volátil. É sensível. Ela vai precisar de alguém que entenda o que é ter poder e medo ao mesmo tempo. Alguém que saiba andar nas sombras para protegê-la.
Lilian olhou nos olhos de Natasha.
— Eu quero que você seja a madrinha da Emma.
Natasha recuou como se tivesse levado um tapa.
— Eu? — Ela riu, nervosa. — Lily, olhe para mim. Eu sou uma assassina da KGB. Eu tenho 18 anos e uma contagem de corpos maior que a minha idade. Eu não sou material para madrinha. Eu sou um monstro.
— Você é a mulher mais forte que eu conheço — rebateu Lilian, feroz. — Você sobreviveu à Sala Vermelha. Você manteve sua alma intacta mesmo quando tentaram arrancá-la. É isso que eu quero para a Emma. Sobrevivência.
Lilian apontou para o frasco.
— Isso é uma Poção de Vínculo de Sangue. É magia antiga. Proibida em alguns lugares.
— O que ela faz?
— Ela vai ligar o sangue da Emma ao seu — explicou Lilian. — Não biologicamente, mas magicamente. Se eu morrer... a proteção de sangue que eu deixar para ela vai reconhecer você como uma extensão de mim.
Lilian engoliu o choro.
— As barreiras mágicas não vão te barrar. Você vai sentir quando ela estiver em perigo. Você será a única pessoa no mundo, além de mim, capaz de acalmar a magia dela se ela sair do controle.
Natasha olhou para o líquido dourado. Era um compromisso eterno. Era maior que qualquer missão.
— Lily... eu tenho que voltar para a Rússia um dia. A Sala Vermelha... eles não deixam as pessoas saírem.
— Então saia — implorou Lilian. Ela se levantou e foi até Natasha, segurando o rosto dela. — Fique aqui. Dumbledore pode proteger você. Nós podemos esconder você. Deserte, Nat. Por favor. Por mim. Pela Emma.
Natasha sentiu as lágrimas quentes escorrerem. A ideia de liberdade... de ver aquela bebê crescer... era inebriante.
— Eu... eu não sei se consigo escapar deles.
— Tente — sussurrou Lilian. — Mas primeiro... beba. Por favor. Aceite a Emma.
Natasha olhou para o frasco. Ela pensou na vida vazia que a esperava em Moscou. E pensou na vida que poderia ter ali.
Ela pegou o frasco. Destampou.
— Pela Emma — disse Natasha.
Ela bebeu.
O gosto era metálico e doce, como mel misturado com ferro. O líquido desceu queimando por sua garganta, mas não era ruim. Era elétrico.
No momento em que a poção atingiu seu estômago, Natasha arfou.
Ela sentiu um puxão. Um fio invisível saindo de seu peito e se conectando diretamente à barriga de Lilian.
Tum-tum.
Ela ouviu. Não com os ouvidos, mas com a alma. Um coraçãozinho batendo rápido e forte dentro de Lilian.
Tum-tum.
Uma onda de calor e proteção avassaladora inundou Natasha. Ela sentiu, naquele segundo, que mataria o mundo inteiro com as próprias mãos se alguém tocasse naquela criança não nascida.
— Eu sinto ela — sussurrou Natasha, maravilhada, com a mão na barriga de Lilian. — É a Emma.
Lilian sorriu, chorando.
— É o imprint, Nat. Agora você é dela. E ela é sua.
— Eu vou protegê-la — jurou Natasha. — Custe o que custar. Eu vou desertar, Lily. Eu vou entregar os arquivos para o MI6 amanhã e vou sumir. Vou ficar aqui.
As duas se abraçaram, unidas por magia e amor, acreditando que poderiam vencer o destino.
24 Horas Depois. O Apartamento de Natasha em Londres.
Natasha estava fazendo as malas. Rápido. Eficiente.
Ela ia desertar. Ela ia para a casa segura que Lilian indicara.
Ela pegou a mochila com os arquivos roubados. Ela ia usá-los como moeda de troca com o governo britânico em troca de asilo.
A porta do apartamento se abriu.
Natasha sacou a arma em meio segundo, girando.
Mas não era a polícia. Não era o MI6.
Parada na porta estava uma mulher idosa, pequena, com cabelos grisalhos presos num coque severo. Madame B.
Atrás dela, três agentes da Sala Vermelha. E, o pior de tudo, o Soldado Invernal, com seu braço de metal brilhando na penumbra.
— Indo a algum lugar, Natalia? — perguntou Madame B., em russo.
O sangue de Natasha gelou.
— Madame... a missão está completa. Eu estava...
— Nós sabemos o que você estava fazendo — cortou Madame B., entrando no apartamento. Ela jogou fotos na mesa. Fotos de Natasha com Lilian no parque. Fotos de Natasha entrando na casa dos Potter.
— Você se apegou — disse Madame B. com nojo. — Você criou laços. Você comprometeu a operação. E pior... você planejava trair a Mãe Rússia por causa de uma dona de casa inglesa e seu bebê?
Natasha tentou atirar. Mas o Soldado Invernal foi mais rápido. O braço de metal atingiu o pulso dela, quebrando-o instantaneamente. A arma caiu.
— Não! — gritou Natasha, lutando com uma ferocidade desesperada. Ela chutou, socou, mordeu. Ela precisava chegar a Lilian. Ela tinha feito uma promessa.
Mas eram quatro contra um. E o Soldado Invernal era implacável.
Ele a imobilizou no chão, o braço de metal apertando sua garganta.
Madame B. se abaixou, olhando nos olhos de Natasha.
— Você tem muito potencial, Natalia. Mas seu coração é um defeito. Vamos consertar isso.
— Vocês não podem... — engasgou Natasha. — Eu fiz um juramento...
— Você vai esquecer o juramento — disse Madame B. friamente. — Você vai esquecer a inglesa. Vai esquecer o bebê. Vai esquecer que um dia tentou ser humana.
Uma agulha foi injetada no pescoço de Natasha. O mundo ficou preto.
A Sala Vermelha. Sibéria. Semanas de Escuridão.
A memória mudou para fragmentos de dor pura e branca.
Natasha estava amarrada a uma cadeira de metal. Eletrodos estavam conectados à sua cabeça.
— Quem é Lilian Potter? — perguntava a voz do interrogador.
— Minha... amiga... — Natasha respondia, chorando, resistindo.
ZZZZZTTT!
O choque atravessava seu cérebro, queimando sinapses, destruindo caminhos neurais. Natasha gritava até sua garganta sangrar.
— Quem é Lilian Potter? — a voz perguntava novamente, horas depois.
— Uma... mulher... em Londres.
ZZZZZTTT!
Mais dor. Dias de dor. Hipnose. Drogas alucinógenas. Programação neurolinguística.
Eles isolaram a memória de Lilian. Isolaram a sensação do imprint. Isolaram a promessa. E construíram uma parede de concreto mental ao redor dela.
— Quem é Lilian Potter? — perguntou a voz, semanas depois.
Natasha, pálida, com os olhos vazios, olhou para frente.
— Eu não conheço ninguém com esse nome.
— Qual é a sua missão?
— Servir à Sala Vermelha.
— O que você sente?
— Nada.
Madame B., observando atrás do vidro, sorriu.
— Perfeito. Ela está pronta. Mande-a para Budapeste.
Natasha foi solta. Ela voltou a ser a Viúva Negra. Eficiente. Letal. Sem passado.
Mas, lá no fundo, trancado no porão mais escuro de sua mente, sob toneladas de entulho psíquico, o fio dourado da poção ainda brilhava fraco, esperando o dia em que Emma Potter precisaria dele.
Um ano depois, Clint Barton a encontraria. Ele veria algo nela que valia a pena salvar. Ele a levaria para a S.H.I.E.L.D.
Natasha Romanoff achava que sua vida tinha começado ali, com Clint. Ela não sabia que tinha deixado seu coração na Inglaterra, enterrado junto com uma mulher ruiva que morreu gritando seu nome.
O Presente. Ala Médica da S.H.I.E.L.D.
— AAAAAHHHHHHHHH!
Natasha voltou à realidade com um grito que rasgou sua garganta.
Ela se inclinou para frente na cama do hospital, puxando o ar desesperadamente, as lágrimas jorrando de seus olhos como uma represa rompida.
A memória tinha voltado. Tudo.
O gosto do sorvete. O cheiro da chuva. O gosto metálico da poção. O tum-tum do coração de Emma na barriga de Lilian. A dor do choque elétrico apagando tudo.
E a culpa. A culpa esmagadora, sufocante, de ter esquecido.
— Eu prometi... — soluçou Natasha, agarrando os lençóis com as mãos trêmulas. — Eu prometi protegê-la... e eu esqueci... eu a deixei sozinha...
Dumbledore estava ao lado dela. Ele não disse nada. Ele apenas colocou a mão gentilmente no ombro dela, ancorando-a no presente.
Natasha olhou para ele, os olhos verdes vermelhos e selvagens de dor.
— Lilian... ela sabia que ia morrer. Ela me deu a Emma. — Natasha bateu no próprio peito, onde o vínculo agora queimava como fogo vivo. — Ela é minha afilhada, Dumbledore. De verdade. Por sangue e magia.
— Sim — disse Dumbledore suavemente. — E agora você se lembra.
Natasha cobriu o rosto com as mãos, chorando pela amiga morta, pela menina abandonada e pelos anos perdidos. A Viúva Negra tinha desaparecido. Ali estava apenas Natalia, chorando a morte de Lily, com dez anos de atraso.
Mas quando ela levantou o rosto novamente, minutos depois, havia algo novo em seus olhos. Uma ferocidade aterrorizante.
O vínculo estava ativo. A memória estava de volta.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora