O mundo voltou em ondas de dor. Primeiro, veio o som. O toque estridente do despertador no celular de James, programado para o treino matinal, cortou o ar como uma faca. Natasha franziu a testa ainda de olhos fechados, um gemido de protesto morrendo na garganta seca.
Antes do segundo toque, o som cessou. Ela sentiu o movimento no colchão — sutil, treinado, silencioso. James esticou o braço para desligar o alarme com uma velocidade sobrenatural, tentando desesperadamente não acordá-la. Ela sentiu o peso dele saindo da cama. O som suave dos pés descalços no tapete. O clique da porta sendo fechada com um cuidado excessivo.
Natasha ficou imóvel por um minuto, tentando avaliar os danos. Ela abriu os olhos devagar. Má ideia. O teto girou. Uma pontada aguda, latejante, instalou-se atrás dos olhos dela. O estômago, embora vazio, ainda parecia um nó apertado de náusea. Sem o soro do super soldado para metabolizar as toxinas, a ressaca era humana, brutal e impiedosa.
Ela se sentou na cama, o movimento fazendo o quarto inclinar para a esquerda. Ela apoiou a cabeça nas mãos, esperando a vertigem passar. Foi quando ela olhou para baixo. Ela estava vestindo uma camiseta cinza escura. Era enorme nela. As mangas cobriam seus cotovelos, a barra ia até o meio das coxas. Era a camiseta de James.
E então, o flash de memória a atingiu. Não a memória da Sala Vermelha, mas a memória da noite anterior. O banheiro. O vômito. A água gelada. E o grito. "Fica longe! Não deixa o Soldado me machucar!"
Natasha sentiu o sangue drenar do rosto, e não foi pela ressaca. Foi vergonha. Uma vergonha quente, humilhante e viscosa. Ela tinha olhado para o homem que amava — o homem que a salvou de tudo, o homem que dormia ao lado dela toda noite — e tinha visto o torturador. Ela tinha gritado de medo dele. Ela tinha precisado que ele a banhasse e vestisse como uma criança inválida.
— Que merda, Romanoff... — ela sussurrou para o quarto vazio, a voz rouca. Ela passou as mãos no rosto, esfregando a pele com frustração, querendo apagar as últimas seis horas.
Ela olhou para a mesa de cabeceira. O celular estava lá. Ela o pegou com urgência, ignorando a dor de cabeça. Q. Por favor, Q. Diga que acabou. Diga que achou algo.
Nenhuma mensagem do laboratório. O prazo de 24 horas ainda estava correndo. Havia apenas uma notificação.
De: Barton Horário: 03:45 "Eu te amo, Nat. Tente não se punir quando acordar. Nós estamos juntos nessa."
Natasha soltou um suspiro trêmulo, largando o celular no lençol. Até o Clint sabia que ela acordaria se sentindo um lixo. Ela precisava levantar. Ficar na cama pensando na própria fraqueza não ajudaria Yelena.
Ela se levantou, apoiando-se na parede até o equilíbrio voltar. Foi até o banheiro. Evitou olhar muito para o box do chuveiro, onde a cena humilhante tinha acontecido. Escovou os dentes com ferocidade, tentando tirar o gosto de álcool e bile da boca. Jogou água fria no rosto, encarando seu reflexo pálido e com olheiras profundas no espelho. Recomponha-se, ela ordenou a si mesma. Você é a Viúva Negra, não uma bagunça alcoólatra.
Ela saiu do quarto e caminhou pelo corredor. O cheiro de café fresco guiou seus passos.
Cozinha da Cobertura. 21 de Novembro. 06:15 da Manhã.
James estava na cozinha. Ele estava de costas, encostado no balcão, observando a cafeteira trabalhar. Ele usava apenas uma calça de moletom preta, as costas largas e marcadas expostas. O cabelo estava preso num coque frouxo e improvisado.
Natasha parou na entrada da cozinha, sentindo-se pequena dentro da camiseta dele, os pés descalços no chão frio. Ela não sabia o que dizer. "Desculpa por achar que você ia me torturar"? "Obrigada pelo banho"?
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Daughter of No One
Fiksi PenggemarHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
