Capitulo 43

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Apartamento de Natasha. Nova York. 03:45 da Manhã.

A tempestade de verão caía sobre Manhattan, mas na mente de Natasha Romanoff, o clima era outro. Era o inverno perpétuo da Rússia. Eram as paredes de concreto cinza da Sala Vermelha.

Ela estava sonhando de novo. Mas dessa vez, não era um sonho fragmentado. Era uma memória perfeita, límpida e cruel.

O Sonho: Sala de Treinamento 4, Décadas Atrás.

O cheiro era de borracha queimada, suor frio e sangue seco.

Natalia — jovem, com os cabelos ruivos trançados apertados contra o crânio e vestindo o uniforme de treino cinza desbotado — estava no chão. De novo.

— Levante-se — ordenou a voz masculina, sem emoção.

Diante dela estava o Soldado Invernal. O Fantasma. James.

Ele parecia uma estátua de mármore e metal. O cabelo longo caía sobre o rosto, escondendo os olhos, e o braço de metal brilhava sob as luzes fluorescentes que zumbiam acima deles. Ele era o instrutor mais letal que a Sala Vermelha possuía. E Natalia era sua aluna mais promissora... e a mais insolente.

Natalia limpou um filete de sangue do canto da boca e sorriu. Um sorriso perigoso, cheio de dentes e desafio.

— Você está ficando previsível, Soldat — provocou ela, levantando-se e entrando em postura de combate. — Favorecendo a perna direita hoje? O óleo das juntas está congelando?

O Soldado não respondeu. Ele apenas avançou.

O combate recomeçou. Era uma dança violenta. Golpes que quebrariam ossos de homens comuns eram trocados com fluidez aterrorizante. Natalia era rápida, ágil como uma aranha. Ela desviou de um soco de metal que teria esmagado seu crânio e usou o impulso para chutar as costelas dele.

Ele nem grunhiu. Ele girou, tentando agarrá-la.

Natalia deslizou por baixo da guarda dele, rasteira, e conseguiu — por um milagre de técnica e sorte — desequilibrá-lo.

O Soldado Invernal cambaleou.

Natalia riu. Uma risada curta, vitoriosa.

— Viu só? Eu disse que voc...

Ela não terminou a frase.

Com uma velocidade que desafiava a física, o Soldado recuperou o equilíbrio, girou e varreu as pernas dela.

O mundo de Natalia girou. Suas costas bateram no tatame com um estrondo que tirou todo o ar de seus pulmões.

Antes que ela pudesse piscar, ele estava sobre ela.

O joelho dele pressionava o esterno dela, prendendo-a no chão. A mão humana segurava o pulso direito dela acima da cabeça. A mão de metal... a mão de metal estava em volta do pescoço dela. Não apertando para matar, mas segurando com firmeza suficiente para que ela sentisse o frio do cromo queimando sua pele suada.

Natalia ofegou, lutando para respirar, o peito subindo e descendo freneticamente contra o joelho dele.

— Me solta — sibilou ela, debatendo-se. A raiva queimava nela. Ela odiava perder. E odiava ainda mais que ele fosse tão inalcançável.

— Você fala demais, Romanova — disse ele. A voz dele era baixa, rouca.

— E você é um robô sem graça — retrucou ela, fuzilando-o com os olhos verdes. — Me solta ou eu juro que vou...

Ela parou.

Porque o Soldado Invernal não estava olhando para os olhos dela.

Ele estava olhando para a boca dela.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora