Largo Grimmauld, Número 12. Corredor do Segundo Andar. Quarta-feira, 23:15.
A casa estava imersa naquele silêncio particular que só existe após uma tempestade emocional. Não era paz; era exaustão. Natasha dormia no quarto de hóspedes, vigiada por feitiços de monitoramento que pulsavam suavemente no escuro, avisando se a temperatura de seu cérebro subisse um décimo de grau.
Molly Weasley fechou a porta do quarto com um clique suave, segurando a maçaneta por um momento, a testa encostada na madeira fria. Suas mãos ainda cheiravam ao unguento de murtisco e à fumaça prateada da Poção da Paz. Ela estava cansada. Cansada nos ossos, cansada na alma. Ela tinha visto coisas terríveis na Primeira Guerra Bruxa. Tinha visto corpos. Tinha visto a loucura nos olhos dos Longbottom. Mas ver Natasha... ver uma mulher transformar o próprio corpo em uma máquina de sofrimento calculado para salvar a mente da filha... aquilo era um tipo novo de horror. E de amor.
Molly suspirou e se virou para descer as escadas e preparar um chá forte. Ela precisava pensar. Precisava parar de tremer. Mas, ao chegar ao patamar do primeiro andar, vozes abafadas a fizeram parar.
Vinham da biblioteca, cuja porta estava entreaberta, lançando uma fresta de luz amarela no corredor escuro.
— ...sessenta e cinco por cento, Mione. — A voz era de Emma. Estava quebrada, úmida, irreconhecível. — Isso é mais da metade. É quase dois terços. — Se você fizer uma prova e tiver 65% de chance de reprovar... você reprova.
— Estatística não funciona assim, Emma. — A voz de Hermione Granger tentava ser lógica, firme, a voz da razão que mantinha o trio unido. Mas Molly, com seu ouvido de mãe, detectou o tremor. Hermione estava apavorada também. — 35% é uma chance significativa. Pessoas sobrevivem a cirurgias com 5% de chance. A sua mãe... a Nat... ela é diferente. Ela sobreviveu à Sala Vermelha. Ela sobreviveu a queda de aviões.
— Mas ela nunca lutou contra a própria cabeça antes! — Emma soluçou, e o som foi como vidro se partindo. — Eu vi, Hermione. Eu vi quando a Sra. Weasley abriu a porta. — Ela estava babando. Ela estava vomitando. Ela estava pedindo para morrer. — E ela fez isso por mim. Porque eu sou fraca. Porque eu deixei ele entrar na minha cabeça no cemitério. — Se ela morrer... a culpa é minha. Eu matei minha mãe. De novo.
— Não! — Hermione disse, e houve o som de tecido roçando, um abraço apertado. — Não diga isso. Nunca. O Voldemort é o culpado. Ele é o monstro. A Nat está escolhendo lutar. Ela está escolhendo ser o seu escudo. — Não tire a escolha dela, Emma. É o ato mais corajoso que eu já vi.
— Eu não quero que ela seja corajosa! — Emma chorou alto, abafando o som no ombro da amiga. — Eu quero que ela faça panquecas! Eu quero que ela me ensine a lutar! Eu quero que ela fique viva! — Eu tô com tanto medo, Mione... eu tô com tanto medo que ela nunca mais acorde daquele quarto sendo a mesma pessoa.
Molly Weasley, parada no escuro do corredor, sentiu as lágrimas quentes voltarem aos seus olhos. Ela apertou o corrimão da escada até os nós dos dedos ficarem brancos. Aquilo era um caos. Eram crianças. Eram apenas crianças falando sobre porcentagens de morte e culpa. Emma Barnes não deveria estar carregando o peso de ter "matado a mãe". Hermione Granger não deveria estar consolando uma amiga sobre sacrifício humano.
A fúria de Molly, que antes fora direcionada à teimosia de Natasha, agora mudou de alvo. Ela se virou. Não desceu para a cozinha. Ela subiu. Ela subiu para o terceiro andar, onde sabia que Albus Dumbledore tinha montado seu escritório provisório na antiga sala de estudos de Regulus Black.
Ela não bateu. Molly abriu a porta com um estrondo.
Escritório de Dumbledore. 23:20.
Albus Dumbledore estava sentado atrás de uma escrivaninha de ébano, examinando um mapa estelar antigo à luz de velas. Fawkes, a fênix, dormia em seu poleiro, a cabeça sob a asa. O Diretor levantou os olhos azuis quando Molly entrou. Ele não pareceu surpreso. Ele parecia estar esperando.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
