Capitulo 35

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O Salão Comunal estava quase vazio quando o buraco do retrato se abriu.
Harry, Ron e Hermione estavam sentados nas poltronas perto da lareira, fingindo estudar, mas seus olhos estavam fixos na entrada há horas.
Quando Emma entrou, ela parecia ter envelhecido cinco anos em dois dias. O uniforme estava impecável, mas seus ombros estavam caídos e havia sombras escuras sob seus olhos verdes.
— Emma! — Hermione foi a primeira a pular, largando o livro de Feitiços no chão.
Harry e Ron se levantaram num salto.
Emma parou no meio do tapete vermelho e dourado. Ela olhou para os três amigos.
— Ela está viva — disse Emma, a voz fraca, mas firme. — Ela está machucada. Muito machucada. Mas o Steve... o Capitão Rogers disse que ela já está xingando os enfermeiros. Então ela vai sobreviver.
Harry soltou um suspiro audível de alívio e correu para abraçar a irmã.
— Graças a Deus — sussurrou Harry.
Hermione se juntou ao abraço, e Ron, meio desajeitado, deu tapinhas nas costas de Emma.
Eles se sentaram perto do fogo. Emma aceitou o Sapo de Chocolate que Ron ofereceu ("O chocolate ajuda, minha mãe sempre diz", disse ele), mas não comeu. Ela ficou segurando a embalagem, olhando para as chamas.
— Foi horrível? — perguntou Hermione, suavemente.
— Foi... muito sangue — admitiu Emma, encarando o fogo. — Ela estava ligada a máquinas. Eu nunca vi a Nat daquele jeito. Ela é sempre a pessoa mais forte da sala. Vê-la daquele jeito... parecia que o mundo estava errado.
Ela apertou a embalagem do sapo.
— Eu tive tanto medo, Harry. Medo de ficar sozinha de novo. Medo de ser só eu e você contra o mundo, sem ninguém pra cuidar da gente.
Harry segurou a mão dela. Ele entendia aquele medo melhor do que ninguém.
— Ela não morreu, Em. Ela é uma Vingadora. Eles são duros na queda.
— Eu sei. — Emma respirou fundo, tentando afastar a imagem de Natasha na cama do hospital. — Mas ela é humana. E humanos quebram.
Semanas Depois. O Grande Salão.
A vida em Hogwarts voltou ao normal, ou o mais normal possível. Emma recebia cartas diárias. Às vezes eram da Natasha (letra tremida, frases curtas: "Comi gelatina hoje. Horrível. Sinto sua falta."). Às vezes eram do Steve (letra perfeita, relatórios detalhados: "A febre baixou. Ela está fazendo fisioterapia. Ela mandou dizer para você estudar Defesa Contra as Artes das Trevas.").
Essas cartas eram o oxigênio de Emma.
Mas algo tinha mudado nela.
Enquanto Harry e Ron jogavam Xadrez de Bruxo e Hermione estudava para as provas que estavam a meses de distância, Emma estava obcecada. Não com as provas. Mas com o mistério do corredor do terceiro andar.
Eles estavam tomando café da manhã quando a coruja de Harry trouxe um pacote devolvido.
— Ei, olha isso — disse Harry, abrindo um Sapo de Chocolate. — É o Dumbledore de novo. Eu tenho seis dele.
— Posso ver? — pediu Emma, pegando a carta.
Ela leu a parte de trás.
Albus Dumbledore... famoso por derrotar o bruxo das trevas Grindelwald em 1945 e por seu trabalho em alquimia com seu parceiro, Nicolas Flamel.
O nome atingiu Emma como um raio.
— Eu já li esse nome — disse ela. — Eu li no trem! "Trabalho em alquimia".
Hermione engasgou com o suco de abóbora.
— Eu sei onde li! — Hermione largou o garfo. — Sigam-me!
Eles correram para a biblioteca (para o desespero de Ron, que não tinha terminado suas torradas). Hermione pegou um livro gigantesco e velho que ela tinha pegado "para leitura leve".
— Aqui! — Hermione folheou as páginas freneticamente até parar num diagrama antigo. — Nicolas Flamel é o único criador conhecido da Pedra Filosofal.
— A o quê? — perguntaram Harry e Ron juntos.
Emma, no entanto, ficou pálida. Ela se inclinou sobre o livro, lendo avidamente.
— A Pedra Filosofal — leu Hermione. — É uma substância lendária com poderes incríveis. Ela transforma qualquer metal em ouro puro. E...
Hermione parou, lendo a próxima linha.
— ...e produz o Elixir da Vida, que torna quem o bebe imortal.
O silêncio caiu sobre a mesa da biblioteca.
— Imortal? — repetiu Ron. — Quer dizer que você nunca morre?
— É o que diz aqui — confirmou Hermione.
Harry franziu a testa.
— Então é isso que o Fofo está guardando no terceiro andar. A Pedra. É por isso que alguém queria roubar o Gringotes. Quem não ia querer ouro infinito e imortalidade?
Enquanto os meninos falavam sobre o ouro, Emma não conseguia tirar os olhos da palavra Imortal.
O Elixir da Vida.
Imortalidade.
A mente dela viajou instantaneamente para o quarto de hospital em Paris. Para o som do monitor cardíaco. Para o medo gelado de ver Natasha morrer.
Se a Natasha tivesse bebido esse elixir... ela nunca se machucaria daquele jeito. Ela nunca morreria.
Se a Natasha fosse imortal, Emma nunca mais teria que sentir aquele pânico de abandono.
A mão de Emma tremeu sobre a página do livro.
— Emma? — chamou Harry, percebendo o olhar fixo da irmã. — Você tá bem?
Emma piscou, voltando à realidade. Mas seus olhos verdes estavam escuros, intensos.
— Imortalidade... — sussurrou ela. — Isso significa que a pessoa não pode ser morta? Nem por acidentes? Nem por balas? Nem por explosões em Paris?
Hermione olhou para Emma, percebendo a perigosa linha de pensamento da amiga.
— Em teoria, sim — disse Hermione, cautelosa. — Mas, Emma... a imortalidade tem um preço. É uma vida não natural.
— Mas é vida — retrucou Emma, com uma urgência que assustou os três. — É melhor do que ver alguém que você ama numa cama de hospital cheia de tubos. É melhor do que o luto.
Ela fechou o livro com força.
— O Snape quer a pedra — disse Harry, voltando à sua teoria favorita. — Ele quer ser rico.
— Ou ele quer viver para sempre — disse Ron.
— Não importa quem quer — disse Emma, levantando-se. A determinação em seu rosto era assustadora. — O que importa é que essa pedra pode impedir a morte. E se ela pode fazer isso... ela é a coisa mais valiosa do mundo.
— Emma? — Hermione tentou segurar o braço dela.
— Nós temos que proteger essa pedra — disse Emma, olhando para os amigos. Mas, no fundo de sua mente, uma voz sussurrava algo diferente.
Não só proteger. Se tivermos a chance... talvez devêssemos usá-la.
A tentação tinha sido plantada. Para Harry, era uma missão de herói. Para Ron, uma aventura. Para Hermione, um quebra-cabeça.
Mas para Emma Potter Romanoff, a Pedra Filosofal não era um tesouro. Era a cura para o seu maior trauma. Era a garantia de que a Viúva Negra nunca a deixaria.
— Vamos descobrir como passar pelo cachorro — disse Emma, virando-se para sair da biblioteca. — Eu vou estudar pontos de pressão em caninos. Mione, veja feitiços de música. Harry, Ron... fiquem de olho no Snape.
Ela saiu andando rápido.
Harry olhou para Hermione.
— Ela ficou... estranha.
— Ela está com medo, Harry — disse Hermione, olhando para a porta por onde Emma saiu. — E pessoas com medo fazem coisas desesperadas. Temos que ficar de olho nela.
A Pedra Filosofal agora tinha um peso muito maior.
Academia da Torre dos Vingadores, Nova York.
O som do impacto ecoava no ginásio vazio. Paff. Paff. Paff.
Natasha Romanoff estava de volta. Ou pelo menos, 85% dela estava.
Ela vestia um top esportivo e calças de compressão que deixavam à mostra as cicatrizes recentes em seu abdômen e costelas. As marcas da cirurgia em Paris ainda eram linhas vermelhas e irritadas contra a pele pálida, mas ela as ignorava.
Ela golpeava o saco de pancadas com uma ferocidade calculada. Direita, esquerda, gancho.
A cada golpe, uma pontada aguda irradiava de suas costelas curadas, mas Natasha a usava. A dor era foco. A dor era prova de vida.
— Você está favorecendo o lado esquerdo — disse uma voz calma atrás dela.
Natasha não parou. Ela desferiu um chute alto que fez o saco de 50 quilos balançar violentamente, e só então segurou o equipamento, ofegante. O suor escorria por suas têmporas, colando mechas de cabelo ruivo no rosto.
Ela se virou.
Steve Rogers estava parado na entrada do tatame. Ele não estava com roupas de treino. Estava de calça jeans e camiseta, com os braços cruzados, observando-a com aquela expressão que ele usava desde Paris.
Aquela expressão de cuidado. De devoção.
E isso irritava Natasha profundamente.
— Eu estou bem, Rogers — disse ela, pegando a garrafa de água e bebendo um gole longo. — Os médicos me liberaram.
— Liberaram para treino leve — corrigiu Steve, caminhando até ela. — Não para tentar assassinar o equipamento da Stark.
Ele estendeu a toalha para ela. Natasha olhou para a toalha, depois para os olhos azuis dele. Havia uma ternura ali que a deixava sem ar, mais do que qualquer soco no estômago.
Ela pegou a toalha, secando o rosto, e decidiu que não podia mais adiar.
— Precisamos conversar — disse ela, jogando a toalha num banco.
Steve ficou tenso. Ele conhecia aquele tom. Era o tom de "missão abortada".
— Sobre o quê?
— Sobre nós. — Natasha se apoiou no saco de pancadas, cruzando os braços para esconder a vulnerabilidade do próprio corpo. — Sobre como você tem agido desde o hospital. As flores. O café da manhã na cama. O jeito que você me olha quando acha que eu não estou vendo.
Steve sustentou o olhar dela. Ele não recuou.
— Eu estou cuidando de você, Nat. Você quase morreu.
— Exatamente. Eu quase morri. É o que acontece na nossa linha de trabalho. — Natasha endureceu a voz. — Mas você... você está confundindo as coisas, Steve.
Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço dele, mas não de forma sedutora como antes. De forma confrontadora.
— Quando começamos isso... aquela noite no bar... nós estabelecemos regras. Amigos. Benefícios. Sem laços. Sem compromisso. Eu fui muito clara quando disse que não queria nada da forma que você costuma querer. Eu disse que não queria corações partidos e nem promessas de eternidade.
Natasha olhou fundo nos olhos dele, procurando qualquer sinal de negação, mas encontrou apenas uma tristeza resignada.
— Eu não queria que você se apaixonasse por mim, Steve. Eu te avisei. Eu sou uma espiã. Eu sou quebrada. Eu não sou a garota certa para o Capitão América.
Steve suspirou, passando a mão pelo cabelo loiro. Ele deu um passo para mais perto, quebrando a barreira que ela tentava construir.
— Você não pode controlar tudo, Natasha. Você pode controlar missões, interrogatórios e até sua frequência cardíaca. Mas você não pode controlar o que eu sinto.
— Eu posso controlar o que eu faço com isso — retrucou ela. — E o que nós estamos fazendo... está alimentando algo que não devia existir.
— Por que não? — perguntou Steve, a voz baixa, cheia de emoção. — Por que é tão impossível acreditar que você merece ser amada? Que eu posso ver quem você é — todas as partes, inclusive as escuras — e ainda assim amar você?
Natasha sentiu os olhos arderem. Era tentador. Deus, como era tentador se deixar levar por aquele discurso.
Mas então ela pensou na dor de perdê-lo. Pensou em como ela destruiria a "luz" dele com a sua paranoia, com seus segredos, com sua bagagem da Sala Vermelha.
— Porque eu não quero — mentiu ela, parcialmente. — E porque eu te avisei para não se apaixonar.
Steve sorriu, um sorriso triste e sem arrependimento.
— É tarde demais para isso, Nat.
A confissão pairou no ar entre eles, pesada e absoluta.
É tarde demais.
Natasha sentiu um frio no estômago. Ele tinha dito. Ele tinha admitido. E agora, ela tinha que fazer a coisa mais difícil: ser a vilã para salvá-lo.
Ela recuou um passo, criando uma distância física que logo se tornaria um abismo.
— Então acabou — disse ela. A voz dela era fria, cortante. A voz da Viúva Negra.
Steve piscou, surpreso pela brusquidão.
— O quê?
— A "amizade com benefícios". Acabou. — Natasha gesticulou entre eles. — Sem mais noites no meu apartamento. Sem mais beijos "para aliviar o estresse". Sem mais nada disso.
— Nat...
— Não, Steve. Me escuta. — Ela levantou a mão, impedindo-o de tocar nela. — Eu não vou te usar se você está investido emocionalmente. Isso seria cruel. E eu posso ser muitas coisas, mas eu não quero ser cruel com você.
Ela olhou para as cicatrizes em seu próprio corpo.
— Você quer uma esposa, Steve. Você quer alguém que espere você voltar para casa. Eu não sou essa pessoa. Eu sou a pessoa que sai de casa para matar os bandidos antes que eles cheguem na porta.
— Eu nunca te pedi para ser diferente do que você é — argumentou Steve, com um tom de desespero contido.
— Mas você merece alguém que possa te dar tudo. E eu... — Natasha engoliu o nó na garganta. — Eu já dei meu coração para uma menina de onze anos e minha alma para o trabalho. Não sobrou nada para você, Steve. Só cacos. E eu não vou deixar você se cortar tentando juntá-los.
Steve olhou para ela por um longo tempo. Ele viu a determinação nos olhos verdes. Ele sabia que não adiantava lutar. Quando Natasha Romanoff tomava uma decisão tática de retirada, ela era irremovível.
Ele assentiu, devagar. A postura dele mudou. De amante preocupado para soldado respeitoso.
— Tudo bem — disse ele, a voz rouca. — Se é isso que você quer.
— É o que eu preciso — corrigiu ela. — E é o melhor para você. Acredite em mim. Eu estou te poupando de um desastre.
Steve deu um sorriso amargo.
— Você subestima o quanto eu aguento, Romanoff. Mas eu respeito sua decisão.
Ele se afastou. A distância entre eles parecia quilométrica agora.
— Nós ainda somos... parceiros? — perguntou ele, na porta.
— Sempre — disse Natasha, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Melhores amigos. Sem benefícios.
Steve assentiu uma última vez e saiu do ginásio.
Quando a porta se fechou, Natasha soltou o ar que estava prendendo. Suas pernas, que aguentavam horas de combate, tremeram.
Ela se sentou no banco do vestiário, sozinha.
O silêncio do ginásio era ensurdecedor.
Ela tinha feito a coisa certa. Ela tinha protegido o Steve dela mesma. Ela tinha garantido que ele não se machucasse quando a escuridão dela inevitavelmente consumisse tudo ao redor.
Mas enquanto ela voltava a enfaixar as mãos para bater no saco de pancadas até não sentir mais nada, Natasha percebeu que a vitória tinha um gosto amargo.
— É tarde demais — sussurrou ela para o vazio, repetindo as palavras dele.
Talvez fosse tarde demais para ela também. Mas ela era a Viúva Negra. Ela sabia viver com a dor. Era o Steve que não merecia isso.
Ela se levantou e desferiu um soco no saco de pancadas com tanta força que a corrente de metal rangeu em protesto.
A amizade com benefícios tinha acabado. A solidão segura estava de volta.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora