Sede do MI6. Escritório da Nat
O dia tinha sido uma sucessão de reuniões orçamentárias e relatórios de inteligência sobre o tráfico de armas no Sudeste Asiático. Papelada trouxa. Problemas humanos.
Natasha estava assinando a autorização para uma operação em Jacarta quando notou. No meio da pilha de papéis brancos e timbrados do governo, havia um envelope diferente. Era amarelado. Grosso. Textura de pergaminho. E não tinha selo. Apenas o nome dela, escrito com uma caligrafia cursiva, elegante e dolorosamente familiar, em tinta verde-esmeralda.
Natasha Romanoff.
Natasha soltou a caneta Montblanc. Ela sabia de quem era. Ela não via aquela letra desde os bilhetes deixados na mesa da cozinha de Lily em 1996.
Ela pegou o envelope. Cheirava levemente a chá earl grey e chocolate barato. Ela abriu o lacre de cera (que não tinha brasão, apenas uma impressão digital).
A carta não era longa. Remus Lupin nunca foi de gastar palavras desnecessárias.
"Querida Nat,
Eu hesitei por três dias antes de enviar esta coruja. Acredite, eu rascunhei essa carta doze vezes e queimei onze.
Ver a Emma no pátio na terça-feira foi como levar um feitiço Estupefaça no peito. Por um segundo, eu pensei que o tempo tinha voltado. Ela tem a inteligência da Lily nos olhos, Nat. E a determinação silenciosa que, eu suspeito, ela herdou inteiramente de você.
Eu devo um pedido de desculpas. Um que atrasou treze anos. Eu deveria ter procurado você. Eu deveria ter verificado se você e a menina estavam bem. Mas a vergonha é uma companheira cruel, e a minha condição... bem, você sabe. Eu me convenci de que vocês estariam mais seguras longe de um lobisomem falido e triste. Eu estava errado. O isolamento não protegeu ninguém, apenas aumentou a saudade.
Mas não escrevo apenas para remoer o passado. Escrevo como professor da Emma.
Hoje tivemos nossa primeira aula prática. Enfrentamos um Bicho-Papão. A maioria das crianças de treze anos vê aranhas, palhaços ou cobras. O Harry viu um Dementador, o que já me partiu o coração.
Mas a Emma...
Nat, o Bicho-Papão dela não foi um monstro. Quando a criatura saiu do armário e olhou para ela, o ar da sala congelou. A coisa girou, desmoronou e assumiu a forma de um corpo caído no chão de pedra.
Era você.
Mas não a você forte e invencível que o mundo conhece. Era você pálida, imóvel, com o uniforme rasgado e encharcado de sangue escuro. O sangue formava uma poça ao redor da sua cabeça, e seus olhos estavam abertos e vazios.
A sala ficou em silêncio absoluto. Eu vi a cor sumir do rosto da Emma. Ela não gritou. Ela apenas paralisou, a varinha tremendo na mão, lágrimas instantâneas enchendo os olhos.
Eu soube, naquele momento, que aquilo não era um medo infantil ou hipotético. Aquilo era uma memória. Ela estava revendo, com detalhes cruéis, a noite em que aquele diário maldito quase tirou você dela.
Mas eu vi a mão dela depois, Nat. Ela teve que segurar a mesa para não cair.
O maior medo da sua filha não é a magia das trevas. É a realidade de te perder. É o trauma que ela carrega de ter visto a mãe sangrar no chão frio de uma Câmara Secreta.
Ela é forte, incrivelmente forte. Mas ela é uma menina que viu guerra demais cedo demais.
Cuide dela. E, se você permitir, eu gostaria de ser o tio que falhei em ser todos esses anos. Eu estarei de olho nela aqui, prometo.
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Daughter of No One
FanfictionHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
