Capitulo 7

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Do outro lado do espelho falso, o mundo era silencioso.
Natasha estava sentada na cadeira de observação, o queixo apoiado na mão, os olhos fixos nas duas crianças do outro lado do vidro. Emma tinha terminado a torrada e agora ajudava Harry a limpar o canto da boca com um guardanapo de papel. O gesto era tão simples, tão puramente humano, que contrastava violentamente com a destruição que aquelas mesmas mãos pequenas tinham causado horas atrás.
Toc-toc.
O som seco de nós de dedos batendo no vidro tirou Natasha de seu transe. As crianças não ouviram — o vidro era à prova de som e visualmente impenetrável pelo lado de dentro —, mas Natasha virou a cabeça instantaneamente.
Maria Hill estava no corredor, segurando uma pasta preta grossa. Ela fez um sinal com a cabeça em direção à sala de reuniões no fim do corredor.
Natasha olhou para Emma uma última vez. A menina parecia mais calma, mas a postura defensiva ainda estava lá.
Com um suspiro, Natasha se levantou, ajeitou a jaqueta e saiu da sala de observação.
— Diga que você tem boas notícias, Hill — disse Natasha ao fechar a porta.
— Tenho informações — corrigiu Hill, sem parar de andar. — Se são boas ou ruins, depende da sua perspectiva. Fury está esperando.
Elas entraram na "Sala Aquário", uma sala de conferências com paredes de vidro transparente, cheia de telas holográficas. Nick Fury estava na cabeceira da mesa, lendo um arquivo físico. Ele não levantou os olhos quando elas entraram.
Hill jogou a pasta preta na mesa, deslizando-a até Natasha.
— A inteligência britânica nos enviou tudo o que tinham sobre James e Lilian Potter — disse Hill. — E sobre o acidente.
Natasha abriu a pasta. As primeiras páginas eram certidões de nascimento, seguidas por um relatório policial amarelado e datado de dez anos atrás.
— "Acidente de automóvel em Godric's Hollow" — leu Natasha em voz alta, o tom cético. — "James Potter, desempregado. Lilian Potter, do lar. Causa da morte: traumatismo craniano severo decorrente de colisão em alta velocidade. Motorista alcoolizado."
Natasha jogou o papel na mesa com desdém.
— Lixo.
— O relatório é oficial, Romanoff — disse Fury, finalmente olhando para ela. — Assinado pelo legista local e pela polícia de Surrey.
— É uma cobertura, Nick. E das preguiçosas — retrucou Natasha, apontando para as fotos das crianças. — Olhe para a cicatriz do garoto. Raios não são causados por para-brisas quebrados. Aquilo é uma marcação. É cirúrgico.
— Concordo — disse Hill, puxando uma imagem holográfica do DNA das crianças. — E tem a sobrevivência. Dois adultos morrem instantaneamente, mas dois bebês no banco de trás sobrevivem? Um com um corte superficial e a outra ilesa? A física não bate. A inércia teria esmagado os órgãos internos deles.
— A menos que eles não sejam normais — disse Natasha. — A menos que tenham sido feitos para resistir.
Fury entrelaçou os dedos, inclinando-se para frente.
— Teorias?
— Genética modificada — sugeriu Hill imediatamente. — Talvez os pais não fossem desempregados. Talvez fossem cientistas trabalhando fora do radar. Eugenia. Tentativa de criar o ser humano perfeito, resistente a impactos, com capacidades cerebrais expandidas.
— Bebês de proveta? — questionou Fury.
— Faz sentido com a ausência de registros hospitalares de pré-natal — continuou Hill. — Não há ultrassons, não há exames de sangue de Lilian Potter em nenhum hospital público ou privado do Reino Unido. As crianças simplesmente... apareceram no sistema quando o acidente aconteceu.
Natasha balançou a cabeça, olhando para o vazio, lembrando-se das histórias que ouvia na Sala Vermelha.
— Não acho que seja só genética — disse ela, a voz sombria. — Vocês viram o que aconteceu no hangar. As luzes. E o que a menina me contou sobre o fogo... ela disse que a porta "simplesmente pegou fogo" quando ela ficou com raiva.
— Pirocinese? — sugeriu Hill. — Manipulação térmica mental?
— A União Soviética gastou bilhões nos anos 80 tentando criar soldados psíquicos — disse Natasha. — O Programa Epsilon. Eles tentavam ativar partes latentes do cérebro para mover objetos, criar combustão espontânea. Nunca funcionou... pelo menos, não que a gente soubesse.
— Talvez a HYDRA tenha conseguido onde os russos falharam — ponderou Fury. — Eles pegam o DNA de aprimorados, misturam com alguma tecnologia Chitauri que sobrou de Nova York...
— E boom — completou Natasha. — Você tem duas armas vivas. O garoto sobrevive a impactos letais. A menina gera energia térmica e cinética quando está sob estresse emocional.
— Isso explicaria por que a HYDRA estava atrás deles — disse Hill. — Eles não estavam indo sequestrar crianças aleatórias. Eles estavam indo recuperar ativos perdidos. O tal "acidente de carro" dez anos atrás pode ter sido uma extração que deu errado. Os pais morreram, e alguém escondeu os ativos na casa dos parentes mais normais e entediantes possível para despistar.
Natasha olhou para a foto de Harry e Emma. A teoria fazia um sentido terrível. Explicava tudo: a resistência física, os poderes estranhos, o isolamento, a falta de histórico médico.
Eles não eram crianças. Eram experimentos.
— Se eles são armas biológicas... — começou Hill, hesitante. — O protocolo padrão é contenção na Geladeira. Ou no Raft. Não podemos deixá-los soltos. Se a menina tiver um pesadelo e explodir o Triskelion?
Natasha sentiu o instinto protetor rugir dentro dela, mas manteve a voz fria e lógica.
— Se você trancá-los numa jaula, vai provar que eles são monstros. E aí sim eles vão explodir o prédio. O gatilho é emocional, Hill. Medo e raiva ativam a energia. Se você der segurança, a energia estabiliza.
— Romanoff está certa — concordou Fury. — Não vamos prendê-los. Ainda. Mas precisamos saber o que eles são. Hill, quero que a equipe de biotecnologia rode o sangue deles contra tudo. Soro do Super Soldado, Extremis, radiação Gama, marcadores Inumanos. Tudo.
— E se não for nada disso? — perguntou Natasha, quase num sussurro. — E se for algo que a gente nunca viu?
Fury se levantou, caminhando até a janela que dava para o hangar.
— Nós já vimos deuses nórdicos, alienígenas que constroem buracos de minhoca e um gigante verde imortal. — Fury virou-se para ela. — A única coisa que eu não acredito, Romanoff, é em mágica. Tudo é ciência. Só precisamos descobrir a fórmula.
Natasha assentiu, fechando a pasta. A explicação científica era reconfortante. Era lógica. Era um problema que podia ser resolvido, desmontado e neutralizado.
Mas, no fundo de sua mente, enquanto voltava para a ala médica, Natasha não conseguia esquecer a sensação que teve ao segurar Emma. Não parecia soro. Não parecia radiação.
Parecia algo antigo.
— "Projeto da HYDRA" — murmurou ela para si mesma no corredor. — É melhor que seja só isso. Porque se a HYDRA criou vocês... eu sei como matar a HYDRA.
Mal sabia ela que, enquanto tentavam encontrar a fórmula química para o "fogo" de Emma, a resposta estava em livros que não eram de ciência, escritos em latim, guardados numa biblioteca que nenhum satélite da S.H.I.E.L.D. conseguia ver
A reunião sobre teorias genéticas e conspirações da HYDRA tinha terminado, mas Nick Fury ainda estava de pé, olhando para a tela holográfica que transmitia a imagem ao vivo da Ala Médica.
Na tela, Harry e Emma estavam sentados na cama. Eles pareciam pequenos, frágeis e institucionais nasquelas camisolas hospitalares cinzas, com a logo da S.H.I.E.L.D. estampada no peito. Pareciam prisioneiros, não hóspedes.
Fury apontou para a tela com o queixo.
— Romanoff. Olhe para isso.
Natasha, que estava prestes a sair da sala para tentar — pela segunda vez no dia — voltar para casa e dormir, parou e olhou.
— Duas crianças comendo panquecas. Fascinante, Nick. Posso ir agora?
— Eles parecem cobaias — disse Fury, direto. — Se queremos que eles falem, se queremos saber se eles sabem mais sobre a própria origem do que estão contando, precisamos que eles baixem a guarda. E ninguém baixa a guarda vestindo um saco de batatas com numeração de série.
Ele se virou para ela, estendendo um cartão preto corporativo da S.H.I.E.L.D.
— Vá comprar roupas para eles.
Natasha olhou para o cartão como se fosse uma granada sem pino. Ela soltou uma risada curta, incrédula.
— Desculpe, acho que ouvi errado. Você quer que eu faça o quê?
— Roupas. Sapatos. Casacos. Coisas que crianças normais usam. — Fury balançou o cartão, impaciente. — Tire eles desses trapos. Faça com que se sintam humanos de novo, não experimentos.
Natasha cruzou os braços, ignorando o cartão. A expressão em seu rosto endureceu.
— Não.
Fury ergueu a única sobrancelha visível.
— "Não" é uma palavra forte para uma ordem direta, Agente.
— Eu sou uma espiã, Fury. Eu sou uma assassina treinada em três continentes. Eu derrubo governos. Eu me infiltro em cartéis. — Ela apontou para o próprio rosto, fazendo uma careta de indignação. — Eu tenho cara de babá? Eu tenho cara de quem sabe escolher estampas de dinossauro e sapatos que piscam?
— Você tem cara de quem é a única pessoa neste prédio em quem aquelas crianças confiam — retrucou Fury, sem se abalar com o drama dela.
— Mande a Hill. Ela tem cara de quem organiza festas infantis organizadas e sem graça.
— A menina não fala com a Hill. Ela fala com você. — Fury contornou a mesa, ficando frente a frente com ela. — Você criou o vínculo, Romanoff. Você deu o chocolate. Você prometeu segurança. Parabéns, você foi promovida. Você é a responsável pelo bem-estar psicológico dos ativos.
— Eu não sou babá — repetiu Natasha, trincando os dentes. — Isso é ridículo. Eu devia estar interrogando terroristas, não comprando meias coloridas.
— O conforto deles é a missão — disse Fury, colocando o cartão preto no bolso da jaqueta de couro dela com um tapinha final. — Pense nisso como camuflagem civil. Se eles se sentirem normais, talvez ajam como normais e deixem escapar alguma coisa sobre os poderes. Agora vá. E não compre nada tático. Quero cores.
Natasha olhou para Fury com um ódio mortal. Se olhares pudessem matar, o Diretor da S.H.I.E.L.D. teria caído duro no chão naquele instante.
— Eu odeio você — sibilou ela. — Odeio esse trabalho. Odeio crianças.
— Sei. — Fury voltou a olhar para seus arquivos, dispensando-a com um gesto de mão. — Traga o troco.
Natasha girou nos calcanhares e marchou para fora da sala, batendo a porta de vidro com força suficiente para fazer a estrutura vibrar.
Enquanto caminhava furiosa pelo corredor em direção ao elevador, ela resmungava alto, assustando alguns analistas juniores que passavam.
— "Vá comprar roupas". "Vá ser a babá". Inacreditável. Eu sou a Viúva Negra, pelo amor de Deus. Eu devia estar na Rússia. Eu devia estar quebrando ossos. Mas não, aqui estou eu, indo para o shopping como uma mãe de subúrbio em uma minivan.
Ela entrou no elevador e apertou o botão da garagem com violência.
— Inferno de vida — bufou ela, encostando a cabeça na parede fria do elevador.
Mas, enquanto o elevador descia e o reflexo de sua "cara de durona" a encarava no espelho metálico, a raiva de Natasha começou a mudar de forma.
Roupas cinzas, pensou ela, lembrando-se das camisolas.
Ela se lembrou de como era usar o mesmo uniforme que outras vinte meninas na Sala Vermelha. De não ter nada que fosse seu. De não ter identidade. De ser apenas um corpo ocupando espaço.
Aquelas crianças tinham perdido tudo. A casa, os brinquedos (se é que tinham algum), a família. A única coisa que eles tinham no mundo agora era a palavra dela.
Natasha suspirou, derrotada. A carranca em seu rosto suavizou imperceptivelmente.
Ela não admitiria para Fury, nem sob tortura. E definitivamente manteria a pose de "agente irritada fazendo um favor forçado" o tempo todo.
Mas, enquanto ela montava em sua moto e acelerava para fora do Triskelion em direção ao centro de Washington, uma parte pequena e secreta dela — a parte que ainda era humana — estava, na verdade... ansiosa.
Ela ia comprar a jaqueta mais quente e confortável que o dinheiro da S.H.I.E.L.D. pudesse pagar. E talvez, só talvez, ela comprasse um tênis que piscasse. Só para irritar o Fury, claro. Definitivamente só para irritar o Fury.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora