Capitulo 93

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Suíte Principal. 00:30.

James fechou a porta do banheiro, abafando o som do chuveiro, mas não conseguindo abafar o barulho em sua cabeça.

Ele tinha ficado sob a água quente por quarenta minutos. Esfregando a pele como se pudesse tirar a sensação das mãos de Clint no seu colarinho, ou pior, a imagem da memória de Natasha na Penseira. A água escorria, mas a culpa ficava. Grudada nos ossos.

Ele se vestiu no escuro do closet — uma calça de pijama macia, sem camisa. Ele se sentia exposto, não fisicamente, mas moralmente.

Ele entrou no quarto. A única luz vinha da lua filtrada pelas cortinas semiabertas, iluminando a cama king size onde Natasha estava deitada. Ela parecia pequena sob o edredom pesado. Imóvel. A respiração dela era tão silenciosa que, por um segundo de pânico, James teve que parar para verificar se ela estava viva.

Ele caminhou até o lado dela da cama. Ele olhou para o rosto dela. Mesmo dormindo (ou fingindo), havia sombras de exaustão sob os olhos. Havia uma tensão na linha da boca.

Eu fiz isso — ele pensou, o peso da acusação de Clint esmagando-o. — Eu a forcei a reviver o inferno só para satisfazer meu ego ferido.

Ele se inclinou devagar, apoiando a mão de carne no colchão, e depositou um beijo leve, quase imperceptível, na têmpora dela. Um pedido de desculpas silencioso. Um adeus temporário.

Ele não merecia dormir naquela cama esta noite. Ele iria para o sofá. Ele precisava se punir, dar espaço a ela, deixá-la respirar sem a presença sufocante dele.

James começou a se afastar. Ele girou o corpo em direção à porta.

Foi então que ele sentiu. Dedos frios e finos fecharam-se ao redor do pulso de sua mão de carne. Não foi um aperto forte. Não foi o aperto da Viúva Negra que quebra ossos. Foi um toque fraco, trêmulo, desesperado.

James congelou. Ele olhou para baixo. Natasha tinha aberto os olhos. Na penumbra, o verde das íris dela estava escuro, líquido.

Ela não disse nada. Ela apenas puxou o braço dele, levemente. Um comando silencioso. Ela se sentou na cama, o edredom escorregando para a cintura, revelando a camiseta de seda do pijama. Ela abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se.

James obedeceu à gravidade dela. Ele se sentou na beirada da cama, de frente para ela, uma perna dobrada sobre o colchão.

Ele olhou nos olhos dela e o que viu fez o coração dele parar. Ele a tinha quebrado. Não com um soco, não com uma missão. Ele a tinha quebrado com palavras.

O amor deles... Deus, como era lindo. Era épico. Era a história de dois monstros que encontraram humanidade um no outro. Mas, naquele momento, sentado naquela cama, James viu a outra face da moeda. Era tóxico. Era problemático. Era um amor construído sobre traumas compartilhados, onde a linguagem de afeto muitas vezes se confundia com a linguagem de sobrevivência. Eles sabiam exatamente onde ferir um ao outro porque eles tinham desenhado os mapas das cicatrizes um do outro.

Ele teve a chance, naquela tarde, de mudar isso. De ser o porto seguro. De acolher o medo dela sobre a Câmara Secreta com compreensão. Em vez disso, ele agiu como o treinador da Sala Vermelha. Ele exigiu. Ele gritou. Ele a encurralou até ela ter que se defender.

— Nat... — ele começou, a voz falhando, querendo pedir perdão pela milésima vez.

Natasha balançou a cabeça, cortando-o. Ela não queria desculpas. Ela não tinha energia para processar palavras.

Ela soltou o pulso dele, mas a mão ficou pairando no ar, incerta, como se ela tivesse medo de tocar nele e ser rejeitada.

— Não vai — ela sussurrou.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora