Capitulo 30

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O sol nasceu brilhante sobre Ottery St. Catchpole, mas a cozinha dos Weasley já estava acordada há horas.
Natasha Romanoff, que normalmente acordava com alarmes táticos ou chamadas de emergência, foi acordada pelo cheiro de bacon e pelo som de explosões abafadas no jardim.
Ela desceu as escadas tortas, vestindo jeans e uma camiseta simples, encontrando um cenário que faria qualquer agente da S.H.I.E.L.D. pedir reforços.
A cozinha estava explodindo em cores. Flâmulas douradas e vermelhas (Cores da Grifinória, Fred e Jorge insistiram) cruzavam o teto, entrelaçadas com balões que se recusavam a ficar parados e ficavam batendo nas cabeças das pessoas de propósito.
— Bom dia, querida! — Molly Weasley passou por ela levitando três tigelas de massa de bolo. — Cuidado com o degrau, o vampiro do sótão está resmungando hoje.
Natasha desviou de um balão roxo que tentou morder sua orelha.
— Precisa de ajuda, Molly? Eu sou boa com facas. Posso picar alguma coisa.
— Oh, não, sente-se! — Molly acenou com a varinha e facas começaram a cortar cenouras sozinhas numa velocidade aterrorizante. — Hoje é dia de festa! Onze anos! Dois bruxos na família Potter de uma vez só!
O Café da Manhã dos Campeões
Quando Harry e Emma desceram, ainda de pijama, foram recebidos por um coro desafinado de "Parabéns pra Você" cantado por toda a família Weasley, com Fred e Jorge soltando fogos de artifício de interior que choviam estrelas frias sobre a mesa.
Harry parecia chocado. Ele nunca teve uma festa.
Emma parecia radiante. Ela correu e abraçou o irmão.
— Feliz aniversário, gêmeo! — gritou ela.
— Feliz aniversário, Em! — Harry riu, abraçando-a de volta.
Eles se sentaram diante de uma montanha de presentes. Para Harry, que estava acostumado a ganhar um cabide velho ou um par de meias usadas do Tio Vernon, aquilo era surreal.
Havia suéteres tricotados por Molly (um verde esmeralda com um "H" e um vermelho escarlate com um "E"), doces, livros sobre Quadribol e pegadinhas dos gêmeos.
Mas o momento mais esperado veio quando Natasha se levantou.
A cozinha ficou silenciosa. Até os gnomos lá fora pararam de gritar.
Natasha foi até sua bolsa de viagem e voltou com dois pacotes embrulhados em papel pardo simples, amarrados com barbante de couro. Nada de magia. Apenas elegância prática.
— Emma — disse ela, entregando o primeiro pacote.
Emma rasgou o papel. Dentro, havia uma caixa de madeira polida. Ao abrir, ela ofegou.
Era um kit de manutenção de varinhas profissional: óleo de polimento, flanelas de seda, e... uma adaga pequena e linda, com o cabo incrustado de madrepérola e a lâmina gravada com runas.
— Nat! — Emma olhou para a mãe, chocada. — Uma faca?
— Uma ferramenta — corrigiu Natasha, sorrindo. — Para colher ingredientes de poções, cortar cordas ou... descascar maçãs. Nunca saia de casa sem uma lâmina, Little Red.
Molly Weasley parecia dividida entre o horror de dar uma arma a uma criança e a admiração pela qualidade do aço.
Então, Natasha se virou para Harry.
Harry engoliu em seco. Ele não esperava nada dela. Ele já estava feliz só por ela ter adotado a irmã e deixado ele fazer parte da vida delas.
— Harry — disse Natasha, estendendo o segundo pacote. — Eu não sabia o que dar para um menino que vai aprender a voar em vassouras. Mas encontrei isso nas coisas que a S.H.I.E.L.D. recuperou... dos seus pais.
Harry pegou o pacote com as mãos trêmulas. Ele abriu devagar.
Dentro, havia um relógio de bolso antigo, de ouro. Estava parado, mas o vidro estava intacto. Na tampa, havia uma gravação gasta pelo tempo, mas ainda legível:
J.P.
Para o tempo que virá.
— Era do seu pai — explicou Natasha, a voz suave. — James Potter.
Harry passou o dedo sobre as iniciais. J.P. Uma relíquia do pai que ele não lembrava, dada pela mulher que salvou a irmã dele.
— Eu... — Harry tentou falar, mas a voz falhou. Ele limpou os olhos rapidamente com a manga do pijama. — Obrigado, Nat. Obrigado.
— Considere um lembrete — disse Natasha, colocando a mão no ombro dele. — De que você tem um passado. E tem uma família. O tempo está correndo a seu favor agora, Harry.
Harry assentiu, incapaz de falar, e abraçou Natasha. Foi um abraço tímido, mas Natasha o apertou com firmeza, selando a promessa que fizera no Beco Diagonal: você sempre será bem-vindo.
A Tarde e os Gnomos
A tarde foi dedicada à "desgnomização" do jardim, uma atividade que Natasha achou taticamente fascinante.
— Então, o objetivo é deixá-los tontos e jogá-los por cima da cerca? — perguntou Natasha, segurando um gnomo feioso que tentava morder seu dedo.
— Exatamente! — disse Ron. — Eles sempre voltam, mas é divertido.
Natasha analisou o gnomo.
— Rotação de 360 graus para desorientação vestibular, lançamento parabólico com ângulo de 45 graus. Entendido.
Ela girou o gnomo com precisão militar e o lançou. O bicho voou três vezes mais longe do que os de Fred e Jorge, desaparecendo no campo vizinho.
— Uau! — exclamaram os gêmeos em uníssono. — Você tem que jogar no time de Quadribol! Batedora profissional!
Natasha riu, limpando as mãos na calça jeans.
Enquanto as crianças riam e corriam, Natasha se encostou na cerca do jardim, observando Emma e Harry tentando pegar uma borboleta mágica.
Molly se aproximou com duas canecas de chá fumegante.
— Você fez aquele menino muito feliz hoje — disse Molly, olhando para Harry. — Ele nunca teve ninguém, sabe?
— Ele tem vocês — respondeu Natasha, aceitando o chá. — Vocês deram um lar para ele quando ninguém mais deu.
— Nós demos comida e cama — disse Molly, com humildade. — Mas você... você deu a ele uma história. E uma irmã.
Molly suspirou, olhando para o pôr do sol que tingia o céu de laranja e roxo.
— Eu tinha medo, sabe? — confessou Molly. — Quando soube que uma "mulher perigosa" tinha adotado a Emma. Eu pensei: "Oh, céus, aquela menina vai crescer numa zona de guerra".
Natasha ficou tensa.
— Mas vendo você hoje... — Molly sorriu, virando-se para Natasha. — Vendo como você olha para ela... como você deu aquele relógio pro Harry... eu vejo que a zona de guerra é só do lado de fora. Por dentro, você é uma fortaleza, Natasha. E é exatamente disso que eles precisam.
Natasha olhou para a xícara de chá, sentindo uma emoção estranha e quente no peito. Validação. De uma mãe para outra.
— Obrigada, Molly.
— Agora — Molly mudou o tom, batendo palmas. — Vamos entrar! O bolo vai ser servido. E se o Fred tentar colocar pólvora nas velas de novo, eu vou transformá-lo num bule de chá!
Natasha riu e seguiu a matriarca Weasley de volta para a casa torta.
Naquela noite, enquanto comiam bolo de chocolate e cantavam parabéns até ficarem roucos, Natasha olhou para Emma e Harry, os rostos iluminados pelas velas.
Onze anos.
O trem estava chegando. O destino estava chegando.
Mas, por hoje, eles eram apenas crianças com bocas sujas de cobertura, rindo num jardim mágico, protegidos pela espiã mais perigosa do mundo e pela família mais amorosa da Inglaterra.
E isso era o suficiente
Estação King's Cross, Londres. 1º de Setembro.
O dia estava cinzento e chuvoso, típico de Londres, mas dentro da estação King's Cross, o ar parecia vibrar com uma eletricidade diferente.
Natasha caminhava empurrando o carrinho de bagagem de Emma, vestindo um casaco bege elegante e óculos escuros para esconder os olhos inchados (ela diria que era alergia, mas todos sabiam que ela tinha chorado escondido no banheiro).
Ao lado dela, a "Operação Toca" estava em movimento total.
— Rápido, rápido! — gritava Molly Weasley, pastoreando um rebanho de crianças ruivas, um Harry nervoso e uma Emma que parecia pronta para voar sem vassoura de tanta ansiedade. — 10:50! Estamos atrasados!
Eles pararam entre as plataformas 9 e 10.
Natasha olhou para a parede de tijolos sólidos.
— Certo — disse ela, analisando a estrutura. — Hagrid mencionou isso. Atravessar matéria sólida. Tecnicamente impossível sem um deslocamento molecular quântico, mas...
— É só correr, Nat! — disse Harry, rindo do nervosismo técnico dela.
— Você primeiro, então, garoto corajoso — desafiou Natasha.
Harry respirou fundo, segurou seu carrinho e correu. Ele desapareceu através do tijolo como se fosse fumaça.
Emma olhou para Natasha e segurou a mão dela.
— Juntas?
— Juntas.
Elas correram. Natasha instintivamente preparou o corpo para o impacto, mas ele nunca veio. Em vez disso, o cheiro de diesel e chuva de Londres foi substituído instantaneamente pelo cheiro de carvão, vapor e doces.
Elas abriram os olhos.
A Plataforma 9 ¾ estava lá, em toda a sua glória mágica. Uma locomotiva a vapor vermelha e brilhante soltava nuvens de fumaça branca sobre a multidão. Gatos miavam por entre as pernas das pessoas, corujas piavam indignadas e o barulho de centenas de estudantes se despedindo era ensurdecedor.
— Uau... — sussurrou Emma.
Natasha ajudou a colocar o malão de Emma no trem. Bucky, o gato, já estava na cabine, olhando pela janela com desprezo real.
E então, chegou o momento.
O apito do trem soou.
Natasha se agachou na plataforma, ficando na altura de Emma. O barulho ao redor sumiu.
— Ok — disse Natasha, a voz falhando um pouco. — Você tem tudo? A varinha? A capa de invisibilidade extra que eu costurei no forro da sua jaqueta? O telefone de emergência via satélite?
— Tenho tudo, Nat — Emma sorriu, segurando o rosto da mãe. — E tenho o Bucky.
Natasha olhou para a menina. A menina que ela salvou do fogo. A menina que comeu ovos com pijama xadrez. A menina que lhe deu um motivo para viver.
A máscara da Viúva Negra caiu completamente.
Natasha puxou Emma para um abraço esmagador. Ela beijou a testa dela. Depois a bochecha esquerda. Depois a direita. Depois a testa de novo.
— Se cuida, Little Red. Não aceite poções de estranhos. Se alguém mexer com você, mire no nariz. E estude. Seja a melhor.
— Eu vou ser — prometeu Emma. — Eu te amo, Nat.
— Eu te amo mais.
Natasha soltou Emma, limpando uma lágrima rápida antes que ela caísse.
Emma subiu no trem. Harry já estava lá, acenando ao lado de Ron.
O trem começou a se mover. Natasha correu um pouco pela plataforma, acenando, ao lado de Molly Weasley que chorava copiosamente num lenço.
Enquanto o Expresso de Hogwarts virava a curva e desaparecia, Natasha parou. Ela se sentiu vazia e cheia ao mesmo tempo.
— Eles vão ficar bem — disse Molly, passando o braço pelos ombros de Natasha.
— Eles vão ser lendas — corrigiu Natasha, sorrindo orgulhosa.
No Trem. Cabine C.
Emma, Harry e Ron estavam sentados, cercados por sapos de chocolate e varinhas.
— Eu não acredito que estamos aqui! — disse Ron, com a boca cheia. — Grifinória, tem que ser Grifinória. Meus irmãos todos foram.
— Eu não sei — disse Emma, olhando para sua varinha de cerejeira. — A Nat disse que o importante é não ser preso.
De repente, a porta da cabine se abriu com um estrondo.
Uma menina já vestida com as vestes de Hogwarts estava parada ali. Ela tinha cabelos castanhos muito cheios, dentes da frente um pouco grandes e um tom de voz mandão.
— Alguém viu um sapo? — perguntou ela, sem nem dizer oi. — Um menino chamado Neville perdeu o dele.
— Não — disse Ron. — Já dissemos a ele que não.
A menina olhou para a varinha na mão de Ron.
— Oh, está fazendo mágica? Vamos ver, então.
Ron tentou fazer um feitiço para deixar seu rato amarelo. Falhou miseravelmente.
A menina torceu o nariz.
— Você chama isso de magia? Eu decorei todos os livros, é claro. Sou Hermione Granger. E vocês são?
Ela olhou para Harry, depois para Ron, e finalmente seus olhos pararam em Emma. Ou melhor, no livro que Emma tinha no colo: Hogwarts: Uma História.
— Você está lendo a edição anotada de Bathilda Bagshot? — perguntou Hermione, os olhos brilhando, esquecendo o tom mandão.
Emma sorriu.
— Sim! A Nat comprou pra mim. Diz aqui que o teto do Salão Principal é encantado para parecer o céu lá fora.
Hermione entrou na cabine e sentou-se ao lado de Emma como se fossem velhas amigas.
— Exatamente! — disse Hermione, animada. — Eu li sobre isso. E sobre as escadas que se movem. Você sabia que existem 142 escadas em Hogwarts?
— 142? — Emma arregalou os olhos. — Uau. Eu sou a Emma, a propósito. Emma Potter Romanoff.
Hermione parou. Ela olhou para Harry (e sua cicatriz), depois para Emma.
— Potter? Vocês são os Potter? — Ela parecia prestes a explodir de empolgação acadêmica. — Eu li tudo sobre vocês! Vocês estão em História da Magia Moderna e em A Ascensão e Queda das Artes das Trevas.
— Estamos? — perguntou Harry, chocado.
— Sim! — Hermione se virou para Emma, ignorando os meninos por um momento. — Romanoff? Esse nome não estava nos livros. É russo?
— É o nome da minha mãe — disse Emma, orgulhosa. — Ela não é bruxa. Ela é uma Vingadora.
Hermione, sendo nascida trouxa, sabia exatamente o que aquilo significava. O queixo dela caiu.
— Sua mãe é a Viúva Negra?
Emma assentiu.
Hermione Granger, a menina que sabia tudo, ficou sem palavras por exatos três segundos. Então, ela sorriu. Um sorriso que dizia "eu encontrei minha turma".
— Isso é... fascinante — disse Hermione. — Você tem que me contar tudo. Absolutamente tudo. E depois podemos revisar o capítulo 4 de Transfiguração.
Emma riu.
— Claro. Mas só se você me ajudar a achar o sapo do Neville depois.
— Fechado.
Enquanto o trem cortava os campos verdes da Inglaterra, Harry e Ron trocaram olhares assustados, vendo as duas meninas engatarem uma conversa frenética sobre livros e super-heróis.
— Acho que estamos em apuros, Harry — sussurrou Ron. — Duas delas.
Harry sorriu, olhando para a irmã feliz.
— Acho que estamos com sorte, Ron.
E assim, entre sapos perdidos e livros decorados, a Era de Ouro de Hogwarts começou.

Daughter of No OneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora