i'm Nova York, Um Mês Depois.
O cheiro foi a primeira coisa que acordou Emma. Não era cheiro de mofo, nem de produtos de limpeza químicos dos Dursley. Era cheiro de manteiga derretendo em torradas quentes, ovos mexidos e café recém-coado.
Era cheiro de casa.
Emma se espreguiçou na cama gigante, chutando os lençóis de flanela. O sol da manhã entrava pelas janelas do chão ao teto, iluminando a poeira que dançava no ar. Bucky, o gato preto, estava dormindo em cima dos pés dela, pesado e quente.
Ela se levantou, expulsando o gato resmungão com carinho, e caminhou até o espelho de corpo inteiro no canto do quarto.
A menina que olhava de volta não parecia mais assustada ou faminta. Suas bochechas tinham cor. O cabelo ruivo estava brilhante (graças ao condicionador caro da Natasha).
Ela usava um pijama novo que elas tinham comprado juntas: uma calça e uma camisa de flanela xadrez vermelho e preto, que a fazia parecer uma mini-lenhadora ou uma versão confortável da Natasha.
Emma sorriu levemente para o reflexo. Um sorriso tranquilo, de quem sabe onde pertence.
Ela saiu do quarto, seus pés descalços fazendo pouco barulho no piso de madeira, e seguiu o aroma delicioso até a cozinha.
Natasha estava lá, de costas, vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta justa. Ela cantarolava baixinho uma música russa enquanto virava os ovos na frigideira com uma habilidade que sugeria que ela encarava a culinária como uma arte marcial precisa.
— Bom dia, Little Red — disse Natasha sem se virar. Os instintos dela sabiam que Emma estava ali desde que a menina pisara no corredor.
— Bom dia, Nat — Emma se sentou na ilha da cozinha, balançando as pernas.
Natasha desligou o fogão e se virou, trazendo dois pratos. Ela sorriu ao ver o pijama.
— Você fica fofa de vermelho. É a nossa cor.
Natasha contornou a bancada, depositou o prato fumegante na frente de Emma e, antes de se sentar, inclinou-se e deu um beijo estalado no topo da cabeça da menina.
— Ovos mexidos com queijo, do jeito que você gosta. E torradas quase queimadas, porque minha torradeira é temperamental.
— Obrigada! — Emma pegou o garfo, faminta.
Elas começaram a comer. A conversa fluía fácil agora. Não havia mais aqueles silêncios constrangedores do início.
— O Bucky tentou comer minha varinha de novo ontem à noite — contou Emma, rindo. — Acho que ele sente o núcleo de dragão.
— Aquele gato é um terrorista peludo — riu Natasha, tomando seu café preto. — Se ele continuar assim, vou mandar ele para um campo de treinamento da S.H.I.E.L.D. para gatos espiões.
— Isso existe?
— Na S.H.I.E.L.D.? Provavelmente. O Fury tem orçamento para tudo.
Emma riu. A vida era boa. Elas tinham planos para hoje. Natasha tinha prometido levá-la ao Central Park para testar se ela conseguia fazer esquilos virem até ela sem magia, apenas na base da paciência.
Mas então, o som que Emma aprendeu a odiar cortou o ar.
O celular de Natasha, que estava sobre a bancada, vibrou e tocou um toque padrão, seco e urgente.
O sorriso de Natasha sumiu instantaneamente. A postura relaxada de "mãe de domingo" desapareceu, substituída pela rigidez da Agente Romanoff.
Ela pegou o telefone.
— Romanoff. — Uma pausa curta. Natasha olhou para o relógio na parede, depois para Emma. Seus olhos ficaram frios, calculistas. — Entendido. Nível de ameaça? Certo. Estou a vinte minutos.
Ela desligou e colocou o telefone no bolso.
Emma parou de comer. Ela já sabia o que vinha a seguir.
— Você tem que ir — disse Emma, tentando não deixar a decepção transparecer na voz.
— Sim — Natasha suspirou, passando a mão no rosto. — Emergência tática. Fury precisa de mim na base. Não vai demorar o dia todo, mas eu não posso ignorar.
Natasha se levantou, levando o prato dela para a pia, mesmo sem ter terminado.
— Escuta, Em. Eu não posso te deixar sozinha aqui por tantas horas. O protocolo não permite.
— Eu sei me cuidar, Nat! Eu tenho uma varinha!
— E você tem dez anos e mora em Nova York — cortou Natasha, mas com gentileza. — Eu já acionei a segurança. A Agente Hill... ou melhor, a "babá da S.H.I.E.L.D." está a caminho. Ela vai ficar aqui, jogar videogame com você ou o que você quiser. Ela é legal. E armada.
Emma assentiu, cutucando os ovos com o garfo.
— Tudo bem.
Natasha percebeu a tristeza. Ela caminhou até Emma e segurou o queixo da menina, levantando o rosto dela.
— Ei. Eu volto para o jantar. Promessa de dedinho?
Emma forçou um sorriso.
— Promessa.
— Ótimo. Agora coma tudo. Você precisa crescer para sua capa de Hogwarts servir direito.
Natasha deu um último aperto no ombro de Emma e se afastou.
— Vou tomar banho e me arrumar. A Hill chega em dez minutos. Não abra a porta para ninguém que não tenha a senha, ouviu?
— Ouvi.
Natasha saiu da cozinha, caminhando rápido em direção à sua suíte.
Emma ficou sozinha na cozinha imensa e moderna. O sol ainda entrava pela janela, e a vista de Nova York ainda era linda, mas o calor parecia ter diminuído um pouco.
Ela olhou para a cadeira vazia de Natasha. O prato de ovos dela ainda estava pela metade.
Emma suspirou, sentindo-se pequena em seu pijama xadrez. Ela deu uma garfada nos ovos, que já estavam esfriando. Estavam deliciosos, mas tinham um gosto súbito de solidão.
— É só trabalho, Emma — sussurrou ela para si mesma e para o gato que entrava na cozinha miando por comida. — Ela sempre volta.
Ela continuou comendo, ouvindo o barulho do chuveiro ligado no quarto de Natasha, o som da transformação da mulher que fazia torradas na mulher que salvava o mundo.
O banho tinha tirado o cheiro de ovos e torradas, substituindo-o pelo cheiro estéril de sabonete neutro e desodorante sem perfume. O pijama xadrez tinha sido trocado pelo uniforme tático de kevlar azul-marinho.
Natasha Romanoff estava de pé no centro de comando provisório. Diante dela, Phil Coulson segurava um tablet com uma expressão séria.
— Georgi Luchkov — disse Coulson, deslizando a imagem de um general russo corpulento para a tela principal. — A inteligência indica que ele está vendendo tecnologia soviética desativada para compradores interessados em desestabilizar o leste europeu.
Natasha cruzou os braços, analisando o alvo. Ela conhecia o tipo. Brutal, estúpido e ganancioso. O tipo de homem que ela comia no café da manhã.
— Localização? — perguntou ela.
— Uma ferrovia desativada fora de Volgogrado. Eles estão movendo a carga hoje à noite.
Natasha sentiu um frio na espinha. Rússia.
Voltar para a Rússia nunca era apenas uma missão. Era uma visita ao cemitério de sua própria alma. O frio, a língua, as memórias da Sala Vermelha... tudo estava lá, esperando para arranhá-la.
E agora, havia algo mais.
A imagem de Emma sentada na cozinha, comendo ovos com aquele pijama xadrez vermelho, invadiu a mente de Natasha.
Se ela fosse para a Rússia, ficaria dias fora. Talvez uma semana. E se algo desse errado? E se Luchkov tivesse reforços? E se ela não voltasse?
Natasha soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um breve segundo. O peso da maternidade colidiu violentamente com o peso do dever. Antes, ela só arriscava a própria vida, que ela considerava dispensável. Agora, ela arriscava o mundo inteiro de uma menina de dez anos.
— Nat? — Coulson a chamou, notando a hesitação incomum. — Se for um problema... podemos enviar o Barton. Ou o Rumlow.
Natasha abriu os olhos. O verde neles estava duro como jade.
— Não. O Barton está em missão de vigilância no Projeto PEGASUS. E o Rumlow faria muito barulho. Luchkov precisa ser interrogado, não explodido.
Ela pegou o tablet da mão de Coulson.
— Eu vou.
— O jato está pronto para partir em trinta minutos — informou Coulson.
— Eu preciso de quarenta e cinco — corrigiu Natasha, virando-se para a saída.
— Problemas?
— Preciso passar em casa — mentiu ela com a facilidade de quem respira. — Meu arsenal tático padrão não vai servir. Luchkov gosta de jogar bruto. Preciso checar meus estoques, pegar alguns brinquedos específicos para o frio e... garantir que minhas travas de segurança estejam ativas.
Coulson, que sabia ler nas entrelinhas (embora não soubesse sobre Emma), assentiu.
— Quarenta e cinco minutos, Romanoff. Rodas para cima às 10:00.
Apartamento em Manhattan.
Natasha entrou no apartamento silenciosamente.
A Agente Maria Hill — a "babá" mais superqualificada do planeta — estava sentada no sofá, monitorando três tablets ao mesmo tempo enquanto Emma estava no tapete, lendo Hogwarts: Uma História com Bucky dormindo em suas costas.
Ao ver Natasha entrar, Emma sorriu, largando o livro.
— Você voltou cedo! Esqueceu alguma coisa?
Natasha forçou um sorriso, caminhando até ela.
— Oi, Little Red. Não, eu não voltei para ficar.
O sorriso de Emma murchou um pouco.
— Ah.
Natasha se ajoelhou na frente dela, ignorando Hill, que fingia estar muito ocupada com os relatórios de satélite.
— Surgiu uma viagem. Uma missão fora do país.
— Onde? — perguntou Emma.
— Um lugar frio — disse Natasha vagamente. — Vou ficar fora por alguns dias. Talvez eu fique... incomunicável por um tempo. O sinal lá é ruim.
Emma olhou para o uniforme tático da Natasha. Ela viu as armas. Viu a tensão nos ombros dela.
— É perigoso? — perguntou a menina, baixinho.
Natasha segurou as mãos de Emma.
— Tudo o que eu faço tem um pouco de risco, Emma. Mas eu sou muito boa no que faço. Lembra do que o Sr. Olivaras disse sobre a sua varinha? Cerejeira é para guerreiros.
Natasha tocou o nariz de Emma.
— Eu sou uma guerreira também. E guerreiras sempre voltam para casa.
Ela se levantou e foi até o quarto, onde tinha um cofre oculto atrás de um painel falso no closet.
Ela não precisava realmente de armas. Ela era a Viúva Negra; ela era a arma. Mas ela precisava daquele ritual.
Ela pegou seus braceletes de Widow's Bite. Checou as cargas elétricas. Pegou um fio de garrote extra. E, por fim, pegou um pequeno rastreador GPS passivo e o colocou no bolso interno, configurado para enviar um sinal de "estou viva" diretamente para o tablet da Hill a cada 24 horas.
Ela voltou para a sala.
— Hill vai ficar com você. Vocês podem pedir pizza. Podem assistir filmes. Só não destruam o apartamento.
— Tá bom — disse Emma, tentando ser corajosa. Ela se levantou e abraçou a cintura de Natasha com força. — Volta logo, tá?
— O mais rápido que eu puder.
Natasha beijou a testa da filha, sentindo o cheiro de xampu de morango uma última vez para lhe dar força.
— Fique segura, Emma. Estude seus feitiços.
Natasha se soltou, trocou um aceno breve e profissional com Hill, e saiu pela porta.
Enquanto descia no elevador, Natasha Romanoff desligou a parte de seu cérebro que era "mãe". Ela trancou a imagem de Emma num cofre mental blindado.
Quando as portas se abriram no saguão e ela caminhou para o carro que a levaria ao jato, não havia mais calor em seus olhos. Havia apenas o frio da Rússia.
Ela estava indo para ser capturada. Ela estava indo para ser amarrada a uma cadeira num armazém velho. Ela estava indo fazer Luchkov acreditar que ele estava no comando, apenas para destruí-lo de dentro para fora.
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Daughter of No One
Hayran KurguHarry e Emma Potter cresceram acreditando que eram normais, insignificantes e indesejados pelos tios que os criaram. Sob a escada da Rua dos Alfeneiros, n.º 4, eles dividiam o escuro, a fome e o silêncio, sem saber que seus nomes eram lendas em um m...
