Capitulo 92

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A fumaça prateada da memória se dissipou, mas o ar na sala continuava tóxico. James não desviou o olhar. Ele não chorou. Ele não pediu perdão pela brutalidade que o holograma tinha acabado de mostrar. Ele apenas olhou para Natasha.

Ela estava parada diante dele, a coluna ereta, o queixo levantado, segurando o copo de vodca com a mão firme. Ela não parecia a namorada dele. Ela parecia a Diretora. A Executora. Uma fortaleza impenetrável de gelo e titânio.

— Clint estava certo — Natasha disse. A voz dela era lâmina fria, cortando o silêncio sem anestesia. — Eu conversei com ele hoje à tarde.

Ela deu um gole curto na bebida, os olhos verdes mortos, sem brilho. — Ele disse que o nosso relacionamento é uma aberração matemática. Que não tem como funcionar. Primeiro, você tem cem anos de traumas não processados. Depois, tem a nossa história. O fato de que você me conheceu quando eu era uma criança. O fato de que a nossa "linguagem de amor" na Sala Vermelha era a violência.

Ela riu, um som seco, cruel. — Ele disse que a gente não sabe viver sem brigar, James. Que a nossa fundação é podre. E olhando para você agora... gritando na minha sala, me chamando de mentirosa porque eu escolhi sobreviver do meu jeito... eu acho que ele tem razão. Nós somos tóxicos. Nós somos o erro um do outro.

Natasha terminou a vodca e bateu o copo na mesa. — Então não venha com desculpas. Não venha me dizer que sente muito. Você viu a memória. Você sabe quem eu sou. Você sabe o que eu sou capaz de aguentar. Se você não aguenta a verdade da minha vida, a porta está ali.

Ela cruzou os braços, travando a postura. O sinal universal de "acesso negado". Ela o encarou como encarava alvos antes de puxar o gatilho: com desdém e distância.

James não recuou. A postura dele mudou. A culpa sumiu, substituída por uma determinação clínica. Ele inclinou a cabeça levemente, estudando-a.

— Você acha que isso funciona comigo? — ele perguntou, a voz baixa, vibrando no peito.

Ele deu um passo à frente. Natasha estreitou os olhos. Ele vai tentar o flanco esquerdo. Apelo emocional.

— Você está vestindo a pele da Viúva Negra — James diagnosticou, caminhando em direção a ela com passos lentos e predadores. — Você está me tratando como um prisioneiro hostil. Você quer que eu me sinta culpado, que eu recue, ou que eu fuja.

Ele parou a um metro dela. — Mas você esqueceu uma coisa, Natalia. — O uso do nome russo foi deliberado, uma chave girando na fechadura. — Eu não sou um prisioneiro. Eu sou o arquiteto.

Natasha tencionou a mandíbula. — Saia da minha frente.

— Não — James respondeu. Simples. Absoluto.

Ele invadiu o espaço pessoal dela. Natasha teve o impulso de recuar, mas seu orgulho a manteve plantada no lugar. James levantou a mão de metal. Natasha viu o movimento. Ela sabia que ele não ia bater, mas o corpo dela reagiu, os músculos contraindo para um bloqueio que ela forçou a não acontecer.

Ele não a tocou com violência. Ele tocou, com a ponta fria do dedo indicador de vibranium, o centro do peito dela. Bem em cima do esterno. Bem onde a armadura emocional era mais espessa.

— Eu construí essa parede — ele sussurrou, os olhos azuis perfurando a defesa dela. — Tijolo por tijolo. Eu te ensinei a colocar esse gelo no olhar. Eu te ensinei a desacelerar o coração enquanto você mente. Eu sei onde está o cimento. E eu sei exatamente onde estão as rachaduras.

Natasha bateu na mão dele, afastando-o com um tapa seco. — Não toque em mim. Você não tem esse direito. Não depois de gritar comigo.

— Eu tenho todos os direitos — James rebateu, agarrando o pulso dela antes que ela pudesse recolher a mão. Ele não apertou para machucar, mas para prender. — Porque eu sou o único homem nesse mundo que sabe o que existe do outro lado desse muro.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora