Capítulo 196

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Suíte Principal. Sábado, 23:45.

O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz fraca do monitor de sinais vitais portátil que James havia trazido do laboratório. Natasha dormia. Ou melhor, estava apagada. James tinha lhe dado um coquetel de analgésicos fortes e relaxantes musculares, o suficiente para derrubar um cavalo, mas necessário para que o corpo dela suportasse a "colonização".

Ela estava deitada de lado, encolhida em posição fetal. A cada trinta ou quarenta segundos, o corpo dela dava um espasmo violento. Não era um tremor de frio. Era um choque. O pé dela chutava o ar. O ombro dela se contraía bruscamente em direção à orelha. Os dedos da mão agarravam o lençol com força, os nós brancos, antes de relaxarem de novo. Eram os nanobots de vibranium se acomodando, fundindo-se às terminações nervosas, reescrevendo a biologia dela célula por célula.

James estava sentado na beira da cama, vestido, vigilante. A cada espasmo, ele colocava a mão de metal pesada sobre o ombro dela, segurando-a, ancorando-a na realidade. — Eu estou aqui — ele sussurrava, mesmo sabendo que ela não podia ouvir. — Aguente firme, Nat.

Ele odiava ver isso. Odiava ver a mulher mais forte do mundo reduzida a um corpo que reagia a choques internos. Mas ele sabia o motivo. O número "80%" brilhava na mente dele como um aviso de perigo.

Quarto de Hóspedes (Agora Quarto de Harry). 00:10.

No outro lado do corredor, a porta estava entreaberta. Harry Potter estava sentado no parapeito largo da janela, olhando para a chuva de Londres. Ele segurava a própria testa, esfregando a cicatriz em forma de raio com a ponta dos dedos, um gesto nervoso e repetitivo.

Emma estava sentada no chão, encostada na cama dele, abraçando os joelhos. Ela tinha vindo ver se o irmão estava bem depois de ouvir passos.

— Eles acham que eu não ouvi — Harry disse baixo, a voz rouca. — Eu ouvi o grito dela hoje à tarde, Emma. Quando eles voltaram do laboratório. — O James tentou disfarçar, ligou a TV alto... mas eu ouvi. Ela estava gritando de dor.

Emma suspirou, apoiando o queixo nos joelhos. — É o tratamento — ela confirmou, sem tentar adoçar a verdade. — O Q está colocando metal dentro dela. Para bloquear a magia. — Ela está fazendo isso por mim. Por causa daquela noite no cemitério.

— Não é só por você — Harry virou o rosto da janela para olhar a irmã. Os olhos verdes dele, idênticos aos de Lily, estavam escuros, sombreados por olheiras profundas. — É por nós dois. — Mas, Emma... não é só o medo dela.

Harry hesitou. Ele olhou para a porta, garantindo que James não estava ouvindo. — Eu estou vendo coisas.

Emma ergueu a cabeça, alerta. — Coisas? Tipo alucinações?

— Sonhos — Harry corrigiu. — Mas não são sonhos normais. Não são como os pesadelos da Nat, onde ela vê o que tem medo. — Eu vejo o que ele vê.

Emma sentiu um calafrio na espinha. — Voldemort?

Harry assentiu, voltando a esfregar a cicatriz. — Aconteceu de novo ontem. E hoje, quando eu cochilei no sofá. — Eu não vejo o rosto dele. Eu sou ele. — Eu sinto... raiva. Muita raiva. Ele está furioso com alguém. Ele está torturando pessoas porque os planos dele falharam. — E eu sinto... fome. Uma vontade de destruir.

Ele olhou para as próprias mãos, como se esperasse ver as mãos pálidas e longas de Voldemort. — É como se tivesse um rádio na minha cabeça, Emma. E às vezes, ele sintoniza na estação dele. — Ele está procurando algo. Ou alguém. — E eu acho que ele sabe que a Nat está se preparando. Eu sinto a frustração dele. Ele sabe que tem uma peça no tabuleiro que ele não consegue prever.

Daughter of No OneOnde histórias criam vida. Descubra agora